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Portal UOL, https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/02/25/psicoterapia-psicanalise-e-psiquiatria-quando-procurar-cada-uma.htm, 25/02/2022

Psicoterapia, psicanálise e psiquiatria: qual a diferença entre cada uma?

Diego Garcia Colaboração para o VivaBem

Até algumas décadas atrás, a saúde mental era vista com preconceito por boa parte da sociedade. No entanto, esse estigma tem mudado, como explica Wimer Bottura, médico psiquiatra, psicoterapeuta e presidente do comitê de adolescência da Associação Paulista de Medicina: “Ainda existe preconceito, mas ele vem diminuindo progressivamente, à medida que a sociedade se torna melhor informada, com mais cultura e com uma preocupação maior com a saúde”.

Essa preocupação com a saúde inclui a saúde mental. Bottura afirma que, assim como a sociedade, as psicoterapias também evoluíram. “Elas saíram de um conceito de doença mental, como se terapia fosse só para quem tem uma doença, para ser uma questão de autoconhecimento, autoaprimoramento, desenvolvimento pessoal e tratamento também”, analisa. Segundo ele, nos últimos 50 anos, a área da saúde que mais evoluiu foi a psicologia.

“Na maioria das vezes, qualquer um de nós consegue perceber que está precisando de ajuda profissional quanto à sua saúde mental e emocional: quando o indivíduo sente que não está dando conta de suas próprias questões, as suas emoções o paralisam ou sintomas psicológicos passam a comprometer sua vida no aspecto familiar, social, no trabalho etc., é sinal de que alguma intervenção se faz necessária”, explica Everton Fabrício Calado, doutor em psicologia clínica e psicólogo da UFAL (Universidade Federal de Alagoas).

Ele alerta, porém, que há casos em que a própria pessoa não reconhece essa necessidade e o maior entrave ainda é o preconceito social (psicofobia), o receio de estar sendo julgado, e, não raro, até a desinformação de onde buscar esse apoio, seja na rede pública, seja na privada.

Mas até quem quer cuidar da mente e busca ajuda profissional pode ficar em dúvida de quem procurar e o que fazer. Por isso, conversamos com especialistas para entender melhor o que faz cada profissional, o tipo de terapia e quando procurar cada uma delas.

Psicoterapia

Popularmente chamada de terapia, é o tratamento que utiliza dos conceitos da psicologia para tratar questões emocionais por meio da escuta e conversa. Ela pode ser realizada tanto por psicólogos quanto por psiquiatras. “Práticas psicoterápicas têm uma tendência a estabelecer uma relação entre o eu do terapeuta e o eu do paciente como o ponto central para a conquista de objetivos, mudanças de padrões comportamentais, promoção do autocuidado ou tomada de consciência sobre determinados aspectos das relações humanas”, explica Tiago Ravanello, psicólogo, psicanalista, pós-doutor em psicologia clínica, mestre e doutor em teoria psicanalítica e professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Entre as psicoterapias existem várias abordagens que seguem linhas distintas de tratamento, mas todas calcadas em teorias da psicologia, como a cognitivo-comportamental, comportamental, terapia de esquemas, Gestalt, terapia humanista e existencial. Segundo Ravanello, essas abordagens se estabelecem por seus métodos, sendo rigorosamente avaliadas em sua eficácia por meio de publicações científicas e há um divisor de águas entre essas psicoterapias e aquelas que ficam à margem da avaliação científica, como as diferentes vertentes do coaching, constelações familiares, hipnoterapias diversas, biodecodificação, entre outras.

“No primeiro caso, uma formação consistente e metódica leva ao exercício ético e cientificamente validado de formas de transformação subjetiva e cuidado ao sofrimento humano. No segundo, temos costumeiramente práticas baseadas nos mitos de fundadores ou na propaganda de supostos casos de sucesso, mas que não se submeteram necessariamente à avaliação científica para que seja bem compreendido os limites éticos da prática e de sua eficácia”, analisa.

Psicanálise

Criada por Sigmund Freud, médico neurologista de origem austríaca, a psicanálise envolve técnicas e teorias que visam possibilitar desenvolvimento mental. “Para que haja desenvolvimento mental, precisamos nos aproximar de estruturas psíquicas, funcionamentos mentais que necessitam serem percebidos pelo próprio paciente, pois sem percepção não há desenvolvimento possível”, esclarece Marta Foster, psicóloga, psicanalista e membro efetivo, docente, analista didata e secretária geral da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

Foster diz que o psicanalista entende que o conhecimento de si mesmo é o agente libertador de áreas primitivas que atuam no nosso psiquismo sem que delas tenhamos conhecimento. “Faz parte da psicanálise a teoria do inconsciente, ou seja, que nossa consciência tem acesso limitado ao que somos e ao que fazemos”.

Ela explica que dentro da metodologia, que se baseia na relação entre analista e paciente, desenvolve-se um campo de observação que torna possível a investigação de fenômenos mentais, que ao serem percebidos, vivenciados em sala de análise, cria a possibilidade de que o paciente venha a ter o que de fato interessa: uma melhor qualidade de vida, com toda a complexidade que envolve esse termo.

Psicoterapia x psicanálise

Foster acredita que é mais fácil o paciente buscar inicialmente uma psicoterapia do que uma psicanálise. “Como fazemos na medicina, começamos com um anti-inflamatório e, se não funciona, buscamos um antibiótico. Porque a necessidade exige! Então, é a demanda do paciente, o que ele quer para si, que será o determinante para sua escolha. A psicanálise exige mergulhos para que o paciente conheça o que tem dentro de si, na psicoterapia podemos ficar com a superfície e tirarmos algum proveito dela”, analisa.

Há um elemento psicoterápico na clínica psicanalítica chamado “transferência”, ou seja, um canal de comunicação através do qual o analisando projeta em seu analista elementos de seu próprio consciente. De acordo com Ravanello, isso leva a um sentimento de melhora ou intensificação dos sintomas nos atendimentos iniciais. Mas a questão é que uma análise bem conduzida não se resume a isso.

“O analista é aquele que renuncia a ocupar o lugar que lhe é dado pelo analisando e utiliza dessa relação transferencial como um motor para que a análise aconteça. Ou seja, a psicoterapia acaba sendo um obstáculo comum para que uma análise de fato ocorra”, ressalta.

Para que o analisando se defronte com a estrutura discursiva de seu inconsciente, explica o professor da UFMS, se faz necessário que o analista não se perca na tentação de oferecer seu eu ou alguma forma de “normalidade” como um modelo a ser seguido. “Assim, uma análise leva o sujeito a um enfrentamento trágico de si mesmo, com alto poder de transformação de si e do entorno que o cerca”, diz.

Psiquiatria

Especialidade médica que trata dos transtornos da mente. Ela se diferencia da psicologia por estudar os problemas mentais que necessitam de um tratamento psicofarmacológico (os psicotrópicos). Geralmente o tratamento com medicamentos é associado à psicoterapia. Alguns dos transtornos tratados pela psiquiatria são: ansiedade, depressão, transtorno obsessivo compulsivo, bipolaridade, síndrome do pânico, esquizofrenia, entre outros.

Qual procurar: psicoterapeuta ou psiquiatra?

A psicoterapia costuma ser a porta de entrada para o paciente, que não precisa estar com um problema específico para frequentá-la. ELa pode funcionar como uma ferramenta de autoconhecimento e ajudar a pessoa a lidar com suas questões. Dependendo do seu problema ou de sintomas que esse paciente esteja sentindo, o psicólogo ou psicanalista pode encaminhar para o tratamento psiquiátrico.

Mas o contrário também pode ocorrer. Se a pessoa sofre com ansiedade, por exemplo, e começa a fazer um tratamento medicamentoso com um psiquiatra, este pode sugerir que o paciente também faça um acompanhamento com um psicólogo, para tratar o “iceberg” que pode estar por trás das crises.

Formação do profissional é importante

Com o aumento da busca por mais qualidade de saúde física e mental diversas terapias têm surgido, sem respaldo científico ou formação profissional, o que acende o alerta dos profissionais de saúde mental.

“Se por um lado a subjetividade não pode ser tratada como território exclusivo desse ou daquele profissional, o enorme e crescente mercado de terapias oferecido àqueles que buscam ajuda em razão de seu sofrimento psíquico pode ofertar muitos caminhos nocivos mediante terapeutas atendendo em toda a parte sem preparo e sem respaldo”, analisa o professor da UFAL.

Ele complementa que quando o psicoterapeuta é um psicólogo ou médico há a vantagem para o paciente em saber que aquele profissional responde legalmente a um conselho de classe em caso de infração ética, por exemplo.

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