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Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo/20210718/282716230010664, 18/07/2021

Quando a pós-graduação é feita em uma instituição fora do País

Brasileiros cada vez mais procuram cursos em outros países; às vezes, o objetivo é continuar a viver fora do Brasil depois da conclusão

Alex Gomes

Por completo. Em 2018, Priscila se mudou com o marido e as duas filhas para Toronto para fazer uma pós em negócios e acabou ficando no Canadá

Quando se pensa em estudantes brasileiros indo para o exterior, as imagens mais típicas são do jovem que se desloca por um tempo para aprender um idioma ou do universitário que faz intercâmbio em uma instituição fora do País. Porém, tem um tipo de aluno cada vez mais presente nas salas de embarque internacional nos aeroportos: os matriculados em cursos de pós-graduação no exterior.

Muitos deles com passagens só de ida. É gente que, apesar ou por causa da pandemia, busca oportunidades de trabalho fora do País, utilizando os cursos de pós-graduação como trampolim para a conquista. Para a maioria dos candidatos que sonham em ingressar em pós-graduações de instituições no exterior o primeiro passo é buscar orientação em agências de intercâmbio – uma procura em alta ao longo dos últimos anos.

A Student Travel Bureau (STB) vem registrando um aumento de 25% a 30% por ano desde 2018. Uma tendência de crescimento que se manteve durante a pandemia. “Estudantes que se programavam para começar a estudar em maio de 2020 decidiram no máximo dar início em setembro de 2020 ou janeiro de 2021”, explica Carlos Eduardo Madeira, gerente de Higher Education da agência. “Muitos, inclusive, decidiram iniciar o curso, mesmo que de forma remota, para já se estabelecer nas instituições de ensino”, conta.

A lista de qualificações varia entre as instituições de diferentes países, mas costuma ser bem exigente. Uma forma de se preparar para a seleção, afirma Madeira, é buscar por instituições de ensino estrangeiras que oferecem o premaster’s programme, que é uma espécie de programa preparatório.

As atividades funcionam como uma ambientação, para que o estudante consiga estar apto a iniciar o curso pretendido. Esses programas abordam temas como escrita acadêmica, escuta ativa, terminologias e o próprio funcionamento do sistema de ensino estrangeiro.

“Quem faz uma graduação no Brasil muitas vezes tem uma grande lacuna de conhecimentos em relação ao que se espera nas pós-graduações estrangeiras. Por isso, as instituições abrem os programas de pre-master com antecedência de nove meses, por exemplo, para o aluno adquirir o inglês acadêmico e suprir as exigências com as quais terá de lidar para tirar o melhor proveito possível da pós.”

Mudança de vida. O perfil de quem busca uma pós no exterior é variado e, de certa forma, isso influencia na escolha do destino. A maior parte dos brasileiros deseja residir em outro país e mostra predileção por estudar em países como o Canadá e a Austrália, que se mostram mais abertos a conceder vistos de residência permanente.

Já quem considera voltar ao Brasil depois da conclusão opta por renomadas instituições nos Estados Unidos e no Reino Unido, nas quais o visto estudantil permite que o aluno trabalhe durante o curso e possa arcar com os seus custos.

A compliance officer Priscila Handa Sano, de 42 anos, é um exemplo de quem foi de mala e cuia para o exterior. Em 2018, a brasileira se mudou com o marido e as duas filhas para Toronto e iniciou o curso de pós-graduação Global Business Management no Humber College.

Formada em Administração de Empresas na Universidade Presbiteriana Mackenzie, com pós-graduação em Gestão: Estratégia de Mercado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), Priscila atuou no mercado financeiro e na construção civil. Porém, as oportunidades vislumbradas com a pós realizada no Canadá foram suficientes para convencê-la a investir em uma carreira no exterior.

“O curso fez parte do meu projeto de vida. Sempre tive a ideia de morar fora e vi uma boa oportunidade de dar um salto em minha carreira com um curso na área de negócios. Além da experiência e dos contatos que fiz, a pós me abriu as portas para eu trabalhar na empresa que estou atualmente”, conta a brasileira.

Priscila agora trabalha em uma empresa que lida com refinaria de ouro e compra e venda de metais preciosos. Além das novas perspectivas profissionais, ela considera os benefícios que obteve para a família, como educação gratuita para as filhas, segurança e boa infraestrutura das cidades. “Sempre botamos na balança a ideia de voltar ao Brasil. A saudade dói um pouco, mas a qualidade de vida e o enriquecimento da carreira são muito fortes”, afirma Priscila.

Lugar dos sonhos. Às vezes a mudança já faz parte de um plano de carreira. A cineasta Amanda Mergulhão Ferrari, de 24 anos, começou a se preparar para partir. Formada em cinema pela Faap em 2019, ela sonha em cursar uma pós em direção cinematográfica nos Estados Unidos.

A meta é iniciar o curso no segundo semestre de 2022 e, por enquanto, ela tem três instituições em mente: a California Institute of the Arts, em Los Angeles; o College of Motion Picture Arts, ligado à Florida State University; e a New York Film Academy.

Se tudo ocorrer como planejado, Amanda pretende seguir carreira no gigantesco mercado cinematográfico dos Estados Unidos. Uma das razões, conta ela, é a afinidade que tem com os blockbusters produzidos pelos grandes estúdios norte-americanos. Isso envolve trabalhar em filmes de ação e fantasia, gêneros que Amanda não vê como bastante difundidos no mercado audiovisual brasileiro.

“O tipo de filme que mais gosto é o hollywoodiano. Até sofria bullying na faculdade por não gostar tanto dos filmes de arte europeus. Eu sempre quis ser roteirista e diretora de produções grandiosas e voltadas ao grande público, como os blockbusters”, afirma a cineasta.

Amanda exercita sua veia criativa em filmes que a profissional realiza por conta própria e que já participaram de premiações nacionais e estrangeiras. Um deles foi o média-metragem O Canto do Sabiá, sobre o folclore brasileiro, semifinalista em festivais nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Marrocos, na Romênia e na Rússia.

A falta de perspectivas para a área no Brasil, porém, pesou na decisão de fazer a pósgraduação e deixar o País. “Aqui, cinema é um mercado para poucos. E, além disso, vejo essa evasão ocorrer também nas áreas de Saúde e Exatas”, diz Amanda.

Aqui, cinema é mercado para poucos. E, além disso, vejo essa evasão também nas áreas de Saúde e Exatas Amanda Mergulhão Ferrari

cineasta

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