Supermercados: ‘Temos 30 mil vagas abertas no Estado de SP; esse é o desafio’
Presidente de associação de supermercados paulista diz que jovens têm hoje perspectiva diferente de emprego No setor há 30 anos, é sócio-fundador do Supermercado Serve Todos, com oito lojas na região de Bauru (SP)
MÁRCIA DE CHIARA | OESP*
As 24 mil lojas de supermercados espalhadas pelo Estado de São Paulo estão à procura de trabalhadores. No Estado que sozinho responde por quase um terço do faturamento nacional do setor – cerca de R$ 300 bilhões em 2023 –, há hoje 30 mil vagas nos supermercados não preenchidas. “Não tem mão de obra disponível. Esse é o desafio”, afirmou Erlon Ortega, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), ao Estadão, em sua primeira entrevista depois de empossado no cargo.
Além da falta de mão de obra, Ortega assumiu a presidência da entidade em setembro do ano passado em meio a outro grande desafio: conter a alta da inflação de alimentos. Na percepção do consumidor, é na compra de supermercado que a inflação aparece, de fato. Por isso, muitas vezes, o setor acaba sendo responsabilizado pela alta de preços. “Realmente a inflação no carrinho do supermercado, que foi em torno de 5,5%, 5,7%, vai sofrer uma redução agora.”
A seguir, os principais trechos da entrevista.
O senhor assumiu a Apas num momento em que a inflação de alimentos está pegando. Como está a inflação de alimentos hoje nos supermercados: houve uma desaceleração ou não?
Alguns itens com aumentos maiores potencializaram um pouco a notícia da inflação. Mas em janeiro já houve uma boa desaceleração. Hortifrúti caiu bastante. Na segunda quinzena de janeiro, a carne também teve uma redução de preço. O óleo de soja baixou consideravelmente. Então, acredito que, no começo de fevereiro, esse ruído, essa percepção de aumento de preços esteja um pouco menor. Realmente a inflação no carrinho do supermercado, que foi em torno de 5,5%, 5,7%, vai sofrer uma redução agora.
A tendência é continuar? O clima está bom, isso ajuda. Mas somos influenciados por vários fatores: dólar, juros, taxações dos novos presidentes, tudo isso influencia muito no preço das commodities, que são arroz, feijão, óleo, milho.
“Alguns itens potencializaram a notícia da inflação. Mas em janeiro já houve uma boa desaceleração. Acredito que no começo de fevereiro essa percepção esteja um pouco menor”
O senhor notou neste começo de ano redução de volumes comprados em função da inflação?
Os números de 2024 ainda estão sendo apurados. Falamos que o ano andou de lado. O crescimento foi mais ou menos o índice de inflação e o volume de itens vendidos se manteve, com uma pequena queda.
Nessa crise dos alimentos, houve alguma mudança da indústria na condição de negociação com o supermercado?
Só para contextualizar, se tem um setor no País que é descentralizado, é o de supermercado. Monopólio não existe no setor supermercadista. É uma guerra ferrenha. Eu sempre falo que o supermercado é um quebra-mola, é um redutor de inflação. Porque, quando o produto baixa, ele baixa rápido, porque precisa ganhar mercado. Quando o produto sobe, ele usa o seu estoque para depois repassar esse preço.
A indústria está repassando todos os aumentos integralmente ou só uma parte? Determinado produto suporta passar o aumento integralmente. Outros, como commodities, produtos sensíveis à percepção do consumidor, não são repassados de uma vez para o supermercado.
Absorção de parte do repasse está recaindo mais sobre a indústria ou sobre o supermercado?
Não sei falar exatamente sobre a indústria. Mas, sobre o supermercado, com certeza, nós não gostamos da alta inflação. Isso é ruim para a gente, porque a gente tenta segurar o máximo possível. Nós somos repassadores, mas, como eu disse, a concorrência é muito grande. Quem repassa primeiro sai perdendo.
Então, o supermercado hoje está sendo um moderador da inflação, nesse momento, trabalhando com preços médios?
Sem falsa modéstia, hoje, não. Sempre foi assim. Desde que eu me entendo por supermercadista, sempre usamos essa metodologia. Quando a inflação fica mais latente, aparece mais o trabalho dos supermercados.
Quais são hoje os principais problemas enfrentados pelo setor no Estado de São Paulo?
Temos hoje grande foco na falta de mão de obra: são cerca de 30 mil vagas abertas no setor espalhadas pelo Estado de São Paulo, que têm de ser preenchidas. Não tem mão de obra disponível. Esse é o desafio.
Qual é o perfil dessas vagas? É mão de obra qualificada? Não. Qualificar a gente até qualifica. No ano passado, nós demos 3 mil horas de curso em 16 regionais no Estado de São Paulo. Temos conversado com o governo sobre isso. Queremos disponibilizar as vagas para população que está sendo assistida por programas sociais e fazer o link. O supermercado é a porta de entrada, o primeiro emprego de muitos. Agora, também, o pessoal da terceira idade tem sido uma grata surpresa para a gente.
Essa carência de mão de obra está sendo um obstáculo para a expansão do setor, para a abertura de lojas? Está freando o ritmo. Sabemos de algumas lojas que estavam prontas para abrir e não conseguem. Elas prorrogam um pouco a abertura. Atrapalha o bom funcionamento também, porque o mercado é um setor que funciona todos os dias, é um abastecedor da população. Então, nós temos problema de determinados setores no dia a dia.
Como resolver?
Além dessa conexão que a gente quer fazer com o governo e mostrar as vagas disponíveis, também tem a questão da flexibilização. Temos uma juventude que quer trabalhar em um formato diferente do que o supermercado propõe. Ele quer trabalhar só no período da tarde, os outros só no período da manhã. Quer mais autonomia. Precisamos que o governo enxergue esse novo formato de trabalho, esse novo desejo do jovem e possa criar uma legislação mais fácil para o chamado horista. Isso poderia suprir, muitas vezes, essa falta de mão de obra.
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 18/02/2025, pg. B8