Tatuadoras especializadas em cobrir cicatrizes estrelaram até série de TV

Raquel e Margarita criaram o Sobre Essa Pele, estúdio que atende clientes que desejam ocultar marcas resultantes de queimaduras, cirurgias e até automutilação

GEOVANNA HORA | OESP*

A paulista Raquel Gauthier sempre gostou de desenhar, mas não pensava em seguir carreira na arte. A história mudou em 2017, quando ela tatuou a própria mão com um aparelho de micropigmentação de sobrancelhas e descobriu uma nova profissão.

Em 2020, ela percebeu que faltavam tatuadores dedicados a cobrir cicatrizes com traços finos e resolveu se especializar. Raquel influenciou a esposa, a russa Margarita Sultanova, a seguir o mesmo caminho. Já em 2023, o negócio ganhou nome e endereço: nascia ali o Sobre Essa Pele, na Avenida Paulista.

Os desenhos delicados e a atenção redobrada às histórias por trás das cicatrizes conquistaram clientes de todo o Brasil e até de outros países. As duas ainda estrelaram uma série documental do Discovery Home & Health.

Nascida na Rússia, Margarita se mudou para o México em 2012 e, de lá, veio para o Brasil. As duas se casaram em 2020.

Na época, Raquel já trabalhava com tatuagens havia três anos. Antes, ela tinha tentado vários empregos, em lojas, restaurantes e clínicas de estética, mas o seu caminho sempre esteve ligado à arte. “Aprendi a fazer micropigmentação de sobrancelhas, mas achava monótono. Peguei o aparelho e tatuei a palavra ‘respirar’, em inglês, na minha mão. Eu percebi que combinava mais comigo ser tatuadora, porque teria espaço para desenvolver a criatividade”, conta a brasileira.

Raquel aprendeu a tatuar sozinha, com vídeos no YouTube. Para colocar em prática as técnicas, ela adaptou um quarto vazio na casa dos pais e começou a realizar os primeiros atendimentos.

Depois de alguns meses no espaço improvisado, aceitou um convite para trabalhar em um estúdio de tatuadores no bairro Pimentas, em Guarulhos (SP), cidade onde nasceu e cresceu. No ano seguinte, em 2018, ela optou por voltar a trabalhar sozinha. “Eu nunca me identifiquei com a estética dos estúdios de tatuagem. Sempre preferi ambientes mais claros, semelhantes a clínicas.”

AUTOMUTILAÇÃO. Em 2020, Raquel participou de um projeto para tatuar pessoas com marcas causadas por automutilação. Ela conta que, durante a experiência, percebeu que faltavam profissionais especializados em cobrir cicatrizes em geral, não só nos casos de automutilação, e começou a estudar o tema.

“Os trabalhos que eu encontrava eram com artes pesadas, mas, na maior parte das vezes, as mulheres querem cobrir cicatrizes com desenhos delicados”, afirma. Ela estudou as lesões na pele para entender as características e exigências de cada uma.

As mais desafiadoras são as resultantes de queimaduras, mas Raquel acredita que entender a parte física é só metade do trabalho: “É importante entender o que o cliente quer, não adianta ser bonita se ele não gostar”.

Margarita ajudava com a parte administrativa e participou de todo o processo, mas só começou a tatuar em 2021.

A marca Sobre Essa Pele nasceu em 2023. O casal chegou a montar um estúdio em casa, mas preferiu ir para espaços separados em 2023. Escolheram a Avenida Paulista, no coração da capital. “Trabalhar em lugares diferentes nos ajuda a manter a individualidade, tanto na vida profissional quanto na pessoal”, diz Raquel. No ano passado, Margarita alugou uma sala no prédio onde Raquel trabalha, mas em um andar diferente.

Mulheres formam a maior parte da clientela do casal. Margarita conta que elas já tatuaram pessoas de todos os Estados brasileiros e até de outros países, como Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Reino Unido e Portugal. Em 2021, elas foram para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, a pedido de uma cliente.

PROCESSO. O primeiro contato das tatuadoras com as mulheres é por meio de um formulário online, onde elas colocam algumas ideias para o desenho e informações sobre a cicatriz. Depois, elas marcam uma reunião – por vídeo ou presencial – para fazer uma avaliação, definir desenhos e finalizar o orçamento.

Essa primeira etapa tem um preço fixo, que as empreendedoras não revelaram. Além do valor final, o orçamento também traz a quantidade de sessões que serão necessárias para concluir a tatuagem.

“Normalmente, os trabalhos precisam de três a cinco sessões. Mas o trabalho de Dubai, por exemplo, precisou de 15 sessões, então pode variar”, explica a russa. As sessões duram, no máximo, cinco horas.

Os preços variam de R$ 2 mil a R$ 15 mil, em média, de acordo com a quantidade de sessões necessárias, características das cicatrizes e detalhes dos desenhos. Para Raquel, saber precificar o seu trabalho foi o maior desafio no empreendedorismo.

“É difícil precificar um trabalho que toca no emocional de outra pessoa, mas a gente vive disso e estudou para isso. É importante se valorizar, porque é um negócio que exige muito do nosso conhecimento”, comenta. O faturamento não foi revelado.

Elas optam por atender, no máximo, duas pessoas por semana, porque entendem que é importante descansar para entregar o melhor resultado. Raquel conta que elas chegaram a ter 100 pessoas na fila de espera, mas conseguiram equilibrar o fluxo ao adotarem o formulário online e a consulta paga.

NA TV. Tanto Raquel quanto Margarita concordam que tatuar cicatrizes exige uma atenção redobrada aos traumas e histórias por trás das marcas na pele. Algumas das cicatrizes são grandes, profundas e tem origens traumáticas, como acidentes, incêndios e cirurgias, o que afeta a autoestima e o emocional das clientes.

“O nosso trabalho não começa com o desenho, mas com a comunicação. É essencial ter uma escuta ativa, sem julgamentos”, diz a brasileira. Elas fizeram acompanhamento com terapeutas para aprender a lidar com as emoções das clientes.

As histórias de mulheres atendidas por Raquel e Margarita deram origem à série documental Sobre Essa Pele, lançada no canal Discovery Home & Health e na plataforma de streaming Max, em outubro do ano passado, o que impulsionou ainda mais os negócios.

Nos planos, está uma expansão internacional. Em abril, as duas vão passar duas semanas em Portugal para atender clientes da Europa.

“Gostamos muito da ideia de oferecer cursos para mais tatuadores se especializarem na área, porque há muitas mulheres que não têm condições de viajar e pagar os custos da tatuagem. Os profissionais podem se especializar aqui e depois atenderem em outras cidades e Estados”, conclui Margarita. •

Requisitadas

Além da clientela do Brasil, a dupla já tatuou pessoas de vários países, incluindo dos Emirados Árabes

“Os trabalhos que eu encontrava eram com artes pesadas, mas, na maior parte das vezes, as mulheres querem cobrir cicatrizes com desenhos delicados”

“É difícil precificar um trabalho que toca no emocional de outra pessoa, mas a gente vive disso e estudou para isso” – Raquel Gauthier – Tatuadora
*Estado de São Paulo, https://digital.estadao.com.br/o-estado-de-s-paulo, 26/02/2025, pg. B20

Categorias: Tatuador

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