Turismo receptivo avança com recorde de visitantes estrangeiros no Brasil

Passeios culturais e sociais estão no centro dos roteiros de agências do setor, que têm alta no faturamento; no mundo, segmento de ‘experiências’ cresce quase o triplo do convencional

CAROL POLEZE | OESP*

Nos últimos anos, cresceu no Brasil o chamado turismo receptivo, segmento de operadoras e agências especializadas em receber estrangeiros ou brasileiros, oferecendo serviços de transporte, guia local e passeios. No ano passado, o País bateu recorde com 9 milhões de visitantes do exterior.

Segundo as agências, as preferências em relação ao estilo de viagem mudaram: as experiências alternativas, como conhecer comunidades e acompanhar a produção de artesanato ou comida local, ganharam mais atenção. “Houve uma alteração muito grande no serviço exclusivo e nas experiências. Por exemplo: vamos à praia, mas, antes, passamos em uma comunidade quilombola para conhecer a cultura deles”, conta Christiane Teixeira, diretora do Luck Receptivo de João Pessoa, na Paraíba.

A Luc, que atua na Região Nordeste, viu nos últimos seis anos seu faturamento subir 30%. “Enquanto as agências de viagens mandam os passageiros para fora, a gente recebe no nosso local. Uma empresa de receptivo é indutora e fomentadora do desenvolvimento do turismo regional. Recebemos o passageiro, levamos do aeroporto para o hotel e fazemos vários passeios, desde os padrões, como city tour, até os mais diversificados”, explica Christiane.

O mesmo tipo de operação também foi destacado pela CEO da Brocker, empresa de turismo receptivo na Serra Gaúcha, Any Brocker. “Estamos cada vez mais fortes nos roteiros de natureza, gastronomia e cultura. Temos um roteiro no Parque do Caracol com limitação diária de passeio, em grupos de até 35 pessoas, e a programação está praticamente lotada”, disse.

Na comparação com 2019, a empresa encerrou 2025 faturando mais 51%. Nesse ciclo positivo, 2024 é exceção: as enchentes no Rio Grande do Sul tornaram inviável o turismo na região, com o aeroporto de Porto Alegre interditado. A Brocker teve queda de 40% no faturamento na época. No ano passado, a empresa fechou com 2% a mais do que o valor de 2023, o esperado para a retomada. Agora quer continuar se recuperando em 2026.

A operadora Orinter, de São Paulo, com atuação B2B (de empresa para empresa), cresceu 384% no faturamento de 2019 a 2025. A empresa atende cerca de 6 mil agências e, atualmente, 15% são de receptivo. Nos últimos cinco anos, havia em torno de 3%.

Roberto Sanches, diretorgeral da Orinter, informou que a empresa tem uma área de incoming (receptivo) para acompanhar as tendências dos estrangeiros. “A questão cultural está muito forte. Vemos praias sendo referência de beleza natural e prestação de serviços, como pousada de luxo e gastronomia. Os turistas querem desbravar. Além dos argentinos e chilenos, que são os principais, temos recebido mais europeus e asiáticos”, completou.

No entanto, ainda há resistência do público brasileiro nas viagens para dentro do próprio país em contratar uma agência de receptivo, dizem os entrevistados. “Principalmente por conta do idioma, o brasileiro pouco se programa para uma viagem no Brasil, nem sempre contrata um receptivo para ter a experiência no destino. Mas nós buscamos desmistificar essas situações. Por exemplo, pôr oportunidades em valores, como oferecer um pacote de experiências mais vantajoso do que comprar separadamente”, contou.

GASTOS. Dados da Civitatis, plataforma que vende tours em diversos países do mundo, apontam que em 2025, o segmento de “experiências” cresceu quase o triplo se comparado com o turismo convencional, gerando um faturamento de US$ 253 bilhões. É por esse modelo que as agências de receptivo brasileiras buscam crescer, principalmente entre o público estrangeiro.

Segundo o Banco Central, em 2025 os estrangeiros gastaram no Brasil US$ 7,8 milhões, enquanto os brasileiros deixaram no exterior US$ 21,7 milhões, quase o triplo. O motivo para tanta diferença é o perfil de turista: enquanto os brasileiros muitas vezes associam as viagens no exterior às compras, o estrangeiro busca no Brasil experiências e serviços.

“O estrangeiro pode consumir hotéis e restaurantes melhores gastando menos. Em relação ao dólar, esse gasto é cinco vezes menor. Há um poder de compra maior, mas é atrelado ao gasto em serviços. É diferente do turista brasileiro, que normalmente é o turismo associado a fazer compras”, explicou a coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Yoshinaga.

Infinitas Travel, baseada no Rio de Janeiro, é também uma operadora brasileira de turismo receptivo que atende o mercado latino-americano, sendo os clientes outras operadoras de turismo. Nos últimos 10 anos, a empresa saltou de 160 para 256 clientes e aumentou o faturamento em 62% entre 2019 e 2025.

“Hoje em dia o menos é mais. O espaço vira luxo, se sentir único é luxo. É um contato mais perto com a natureza, um serviço personalizado. Além disso, uma tendência do mercado latino-americano é o turismo de esporte e musical: Fórmula 1 e Tomorrowland, por exemplo”, informou Mônica Marzulo, sócio fundadora da Infinitas.

*Estado de São Paulo, https://meet.google.com/hhu-xnrb-iyf, 27/03/2026, pg. B45

 

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