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Portal UOL, https://noticias.uol.com.br/reportagens-especiais/enem-uma-prova-novos-caminhos/#cover, 20/12/2021

Uma prova, novos caminhos

Jovens contam como a nota do Enem abriu portas e trouxe mudanças decisivas para suas vidas

ANA CARLA BERMÚDEZ, COLABORAÇÃO PARA O UOL

Todos os anos, milhares de estudantes brasileiros fazem a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), exame que é considerado a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil.

Essa fama não existe à toa: com base no desempenho obtido no Enem, é possível tentar a sorte em diferentes frentes, como o Sisu (Sistema de Seleção Unificada) e o Prouni (Programa Universidade para Todos), que oferecem vagas em universidades públicas e bolsas em faculdades privadas de todo o país.

Mas, mais do que uma prova, o Enem também pode representar uma oportunidade de mudar de vida, abrindo novos caminhos para conquistas pessoais e profissionais.

Um jovem da periferia de Osasco, na Grande São Paulo, pôde ser o primeiro da família a alcançar o ensino superior público. Um garoto do interior do sertão nordestino conseguiu ser aprovado em um disputado curso de medicina de uma universidade federal. Um jovem do Capão Redondo (SP) encontrou oportunidades de estudo e pesquisa no ensino superior. O UOL conta, a seguir, suas histórias.

Do sertão nordestino à faculdade de medicina

Para o jovem Samuel Castro, 18, entrar para o curso de medicina parecia algo “impossível” e “fora da realidade”. Morador do interior da cidade de São Lourenço do Piauí (a cerca de 550 km de Teresina), no sertão nordestino, Samuel é filho de trabalhadores rurais —ocupação que, pela tradição familiar e pela falta de oportunidades na região, poderia ser também a dele no futuro.

“Aqui é um lugar bem seco, a seca é extensa, a água é escassa. É um local onde as oportunidades são bem restritas”, diz. “É muito difícil romper com o que vem se seguindo nas gerações da minha família: viver da roça, com condições financeiras bem escassas.”

Hoje, o destino de Samuel é bastante diferente: ele se prepara para cursar medicina na UFPI (Universidade Federal do Piauí). Graças ao desempenho obtido no Enem, o jovem foi aprovado pelo Sisu na única vaga disponível para cota de escola pública e baixa renda.

Eu vejo a prova do Enem como uma oportunidade, uma chance de mudar de vida, inclusive para aquelas pessoas que não tiveram um ensino tão forte, porque a prova do Enem cobra os conteúdos de uma forma muito peculiar, mais interpretativa. Muitas vezes, o mais importante não é saber tudo certinho, decorando informações. Alguns vestibulares cobram coisas bem específicas e isso, de certa forma, acaba segregando quem não tem acesso a uma educação muito boa.”

Samuel Castro

Não faltaram desafios durante a trajetória escolar de Samuel. Ex-aluno da rede pública, ele dependia também do transporte público escolar para ir ao colégio —serviço que nem sempre funcionava. Morando longe da escola, chegou a ficar dois meses sem pisar na sala de aula.

Nessas ocasiões, a alternativa era estudar sozinho, com a ajuda de livros didáticos. Só quando já cursava o 2º ano do ensino médio o jovem conseguiu ter acesso à internet em casa. Em 2020, quando passou para o 3º ano do ensino médio, chegou também a pandemia do coronavírus, e Samuel não teve aulas presenciais.

Mesmo em meio às dificuldades, ele decidiu investir no sonho de cursar medicina. Fez as atividades escolares do ensino médio pelo WhatsApp e se preparou para o Enem com a ajuda de plataformas online, treinando bastante em casa.

Os esforços renderam frutos. Com o desempenho obtido no exame, ele conquistou uma bolsa integral pelo Prouni para estudar em uma faculdade particular do Piauí. Pouco depois, veio a notícia da aprovação na UFPI.

“Quando eu vi meu nome [na lista de aprovados do Sisu], foi a melhor sensação da minha vida”, conta o jovem, que deve iniciar os estudos na federal no começo de 2022.

Para Samuel, o Enem foi um “divisor de águas”. “E com certeza é, foi e vai ser ainda na vida de outras pessoas”, diz ele.

Da periferia de Osasco ao direito na USP

Juan Comamala, 23, também viu no Enem a possibilidade de realizar um sonho: entrar para o curso de direito na USP (Universidade de São Paulo). A aprovação veio pelo Sisu, em 2018, depois de mais de três anos de uma rotina intensa dividida entre trabalho, estudos e vestibulares.

“Prestei a Fuvest uma vez, duas vezes, e acho que cheguei a prestar uma terceira vez, mas não conseguia passar”, diz. “Eu sabia que, para entrar em uma universidade tão concorrida, tão prestigiada e tão elitizada também, eu teria que me esforçar muito. Então, comecei a focar só no Enem.”

Oriundo da periferia de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, Juan foi aluno de escola pública a vida toda. Sua preocupação com os estudos era tamanha que, quando conseguiu um estágio no 2º ano do ensino médio, usou o salário para se matricular em um cursinho pré-vestibular.

“Em 2018, comecei a estudar sozinho, já não tinha mais dinheiro para o cursinho, porque, quando acabou o ensino médio, eu parei de trabalhar”, explica. “Estava inseguro, achando que não ia dar. Pensava comigo mesmo que, se eu não conseguisse daquela vez, não ia tentar de novo. E aí acabou dando certo”, diz.

Com a aprovação pelo Sisu, Juan acabou sendo também o primeiro da sua família a ingressar no ensino superior público —fato que ele comemora, mas também diz ver com certa tristeza.

“Me sinto feliz porque posso mudar essa história pessoal da minha família. Mas, ao mesmo tempo, fico também um pouco triste, porque isso acontece por causa da desigualdade social. Porque minha mãe, minha avó, precisaram trabalhar e largar o ensino médio, precisaram largar a ideia de ter uma educação superior para se alimentar e sobreviver.”

Ter entrado na universidade pública pelo Enem teve muitos resultados positivos na minha vida, e quero continuar com isso. Tenho como objetivo fazer um mestrado, um doutorado, entender a realidade e o estado brasileiro, os problemas sociais que existem no Brasil. E por meio da pesquisa, do estudo, buscar uma solução. Quero ser um jurista com uma carreira brilhante, seja como advogado ou com um cargo de carreira em órgão público. Mas eu desejo poder mudar o mundo, o Brasil à minha volta.”

Juan Comamala

Um entre mil

Na USP, Juan foi beneficiado com uma bolsa de dedicação acadêmica e outros auxílios que o permitiram manter o foco integral nos estudos.

Desde então, ele desenvolveu um projeto de iniciação científica, começou a estudar idiomas como inglês e francês e conseguiu se mudar sozinho para outro bairro de Osasco, mais distante da periferia.

Recentemente, o jovem recebeu a notícia de que foi um dos nove aprovados entre mais de mil candidatos em um processo seletivo para um grande escritório de advocacia do Brasil.

“Com a minha bolsa de estágio, vou ter um bom salário, vou trabalhar em um grande escritório, vou poder me formar como futuro profissional de alta performance, de muita qualidade. Tudo graças a eu ter entrado na USP pelo Enem”, comemora.

Para Juan, a presença de alguém como ele —uma pessoa pobre, negra e da periferia— em um espaço ainda elitizado como a faculdade de direito da USP tem também outro significado.

“A USP é sustentada pela contribuição dos cidadãos. Por isso, tenho uma grande ânsia de realmente mudar a realidade à minha volta e fazer com que tenha muito sentido o fato de eu estar na universidade pública, enquanto muitos dos meus semelhantes não conseguiram alcançar a mesma oportunidade”, diz.

Do Capão Redondo à UFABC

Foi através do Enem que Lucas Gomes Sima, 21, pôde ter acesso ao ensino superior e hoje estuda na UFABC (Universidade Federal do ABC), onde faz o curso de bacharelado interdisciplinar em ciências e humanidades.

Morador do Jardim das Rosas, bairro que fica na região do Capão Redondo, zona sul de São Paulo, ele foi aluno da rede pública a vida toda e conta que no fim do ensino médio, em 2017, não sabia muito bem quais rumos poderia tomar. “Na escola, os professores mal falavam de vestibular”, diz.

Lucas chegou a prestar o Enem naquela época, mas não obteve uma boa nota. Depois de estudar durante o ano seguinte por conta, conseguiu entrar em um cursinho popular perto de casa. Foi quando aprendeu, então, como funcionam os vestibulares e decidiu prestar para a Fuvest, além do Enem.

“A maioria das pessoas do meu círculo social, de onde eu moro, nem sabem o que é a Fuvest. Elas pensam que a USP é uma universidade particular, muitas vezes”, diz. O jovem não conseguiu passar na USP, mas os estudos com a ajuda do cursinho renderam a ele uma bolsa pelo Prouni para cursar direito na Unip (Universidade Paulista), em 2020.

Logo no início do curso, no entanto, Lucas percebeu que talvez não fosse aquela a carreira que mais o interessava —e decidiu, ao mesmo tempo em que cursava direito, voltar a se dedicar aos estudos para o Enem. Dessa vez, ele se inscreveu para a UFABC. “Deu certo e agora está sendo realmente tudo o que eu esperava”, conta.

Lucas diz que apesar de as faculdades “menos renomadas” serem “um pouco mais baratas”, “ainda assim a mensalidade é bastante cara”, e sua família não teria condições de arcar com custos desse tipo. “Se não fosse pelo Enem, eu não teria conseguido ingressar na Unip, muito menos na UFABC”, afirma.

As pessoas, por incrível que pareça, pensam que a USP é uma universidade privada. Mas elas conhecem o Enem. O Enem consegue ser percebido como uma possibilidade para muito mais pessoas, diferentemente dos vestibulares tradicionais.”

Lucas Gomes Sima

Apesar de ainda não ter frequentado pessoalmente as salas de aula da UFABC devido à pandemia do coronavírus, Lucas se diz muito animado com as possibilidades de estudo e pesquisa oferecidas pela universidade.

“Poder fazer iniciação científica, participar de uma empresa júnior, [tudo isso] vai me preparar muito mais pro mercado de trabalho. Mas não só para isso, para toda a minha trajetória também”, afirma.

Para ele, nenhuma outra experiência foi capaz de “abrir a cabeça” tanto quanto o curso que está fazendo agora. “Percebo que na UFABC eu tenho a oportunidade de fazer e conhecer muitas coisas que eu não teria se não estivesse lá —e só estou lá por causa do Enem”, afirma.

Publicado em 20 de dezembro de 2021.

Edição: Lúcia Valentim Rodrigues; Imagens: Arquivo pessoal e Keiny Andrade/UOL; Reportagem: Ana Carla Bermúdez;

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