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30 anos que mudaram tudo: Do smartphone ao pix: 10 marcos tecnológicos  que transformaram hábitos, relações e o jeito de viver no Brasil

Helton Simões Gomes – colunista do UOL*

Enquanto está acordado, você gasta boa parte das horas do dia ocupado com eletrônicos e serviços digitais inexistentes há 30 anos. WhatsApp? 17 anos. Smartphone? 19 anos. Redes sociais? 24 anos. Streaming? 19 anos. Inteligência artificial generativa? Menos ainda: 4 anos.

Esse período marca as primeiras três décadas do UOL, que acompanhou de perto essa revolução tecnológica capaz de criar novos hábitos, alterar comportamentos e ampliar horizontes — e, claro, encurtar outros. A forma de interagir com o mundo foi redesenhada e expandiu a ideia de conexão: estar longe é impossível — mas estar presente é algo bem diferente.

O caminho para essa nova realidade foi construído por um sem-número de tecnologias e eventos. Mas, vítimas da canibalização tecnológica, eles mesmos viraram ladrilhos. Afinal, a obsolescência — programada ou não — também é sinal dos nossos tempos.

No rastro da nuvem computacional, por exemplo, ficaram disquetes, CDs, DVDs, pen-drives… Outras inovações, no entanto, estão vivas e pulsantes. Além de terem sido transformadoras, continuam a ser forças gravitacionais da nossa existência.

A pedido do UOL, três personalidades que viram de perto do nascimento ao ocaso das guinadas tecnológicas pinçam quais são as 10 maiores delas. Escolhida por quem não só viu de perto, mas fez a história acontecer no Brasil, a lista não só reúne os marcos dos últimos 30 anos. Funciona como radiografia do ontem e mapa do amanhã. E, tenha certeza, do smartphone ao Pix, você já não passa um dia sem eles.

1. A INTERNET NO BRASIL E OS PORTAIS

A internet comercial no Brasil tinha apenas um ano quando o UOL, primeiro grande portal, surgiu. Àquela altura, o país, já pioneiro por ter abrigado o primeiro evento internacional conectado (Rio-92), criou um modelo único no mundo: sites que uniam conteúdo e conexão.

Para ensinar o brasileiro a usar — e a amar — a internet, o UOL oferecia acesso a dicionário Michaelis, ao noticiário da Folha de S.Paulo, ao correio eletrônico UOL Mail, ao buscador Radar UOL e ao navegador Netscape. Tudo isso fazia parte do pacote oferecido pelo provedor de acesso à internet.

Essa união entre conteúdo e conexão foi um divisor de águas, diz a jornalista Cristina De Lucca, ex-colunista de tecnologia do UOL e responsável pela implantação do Globo Online: permitiu a democratização da rede, fez das notícias o primeiro grande produto online e deu início à vida digital nacional. Mas não só isso.

A iniciação ao que a rede mundial dos computadores tinha a oferecer, dada pelo portal, foi uma das molas propulsoras para sua popularização no país, atestou o CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil) durante a comemoração das três décadas da internet em terras brasileiras.

2. BANDA LARGA

Se a internet discada abriu uma porta, a banda larga derrubou paredes. A evolução das comunicações — do 3G ao 5G e dos cabos coaxiais à fibra óptica — garantiu a ubiquidade necessária para a rede ser um sistema nervoso invisível da vida cotidiana do Brasil, avalia o engenheiro Virgílio Almeida, membro da Academia Brasileira de Ciências, professor da UFMG e um dos brasileiros mais citados do mundo em pesquisas de inteligência artificial e computação.

Sem redes móveis avançadas e fibra óptica, o streaming em alta-resolução seria ficção científica. O UOL acompanhou os brasileiros no longo caminho até o país alcançar esse estágio, seja aprimorando a experiência de conexão ao elevar as velocidades continuamente, seja colocando as pessoas em contato com produtos e serviços que ampliavam as maneiras de interagir com a rede.

Foi o caso da Rádio UOL, que correu para Spotify, Apple Music e Deezer caminharem; do UOL Mais, um repositório de vídeos, fotos e áudio surgido quando o YouTube engatinhava, o Google Fotos e Drive não eram nem ideias e a computação em nuvem mal surgia no horizonte dos internautas.

Essas possibilidades moldaram o olhar de quem navegava na rede, tornando esses consumidores mais exigentes e famintos pela próxima novidade conectada. Velocidades crescentes e transmissão mais robusta de dados permitiam serviços mais inovadores, que não só transportavam para a internet o que já acontecia fora das telinhas, mas criava um ecossistema único, envolvente e cada vez mais vibrante.

Bate-papo, músicas online, download de vídeo, redes sociais, streaming ao vivo, inteligência artificial. A cada nova onda, a engrenagem da internet se move, e se reinicia a ciranda entre serviços intensamente consumidores de dados e conexões cada vez mais potentes. Tanto que hoje o padrão é a “conexão fluida”, observa Cris De Lucca, e isso nos faz esquecer que o mundo digital um dia já foi um experimento congelado.

O Millôr Fernandes dizia que, no dia em que puxarem o fio, a gente não saberia mais viver. A gente foi perdendo saberes. Eu vou reformular: hoje tem brasileiro que não sabe fazer muita coisa sem depender do digital. A gente sai de casa sem levar chave, cartão, mas não sem o celular. O celular virou nossa porta de entrada para esse mundo digital onde fazemos tudo

Cristina De Lucca

3. GOOGLE E A ERA DA BUSCA

À medida que foi povoada com conteúdo, a internet passou a impor outro desafio a quem se aventurava a navegá-la: achar algo ali. A solução foi trazida pelos buscadores.

Nos ombros dos browsers, os navegadores viraram o primeiro grande produto da nova era da informação — e o Google, criado em 1998, o maior representante da categoria. Mas há DNA brasileiro — e do UOL — nessa história.

Pouco mais de um ano após ser lançado, o UOL criou o seu buscador, o Radar UOL. Pioneiro no Brasil e na América Latina e fruto de parceria com a norte-americana Inktomi, tinha poucos pares no mundo e era imbatível em achar e agregar páginas em português.

Logo depois o portal passou a abrigar o brasileiro Miner, criado por pesquisadores da UFMG. Integrantes dsse grupo fundaram mais adiante a Akwan, empresa comprada pelo Google para iniciar suas operaçõess no Brasil. Por isso, durante muitos anos, o único centro de engenharia da companhia no país ficava em Belo Horizonte.

“Durante muitos anos, o Google foi sinônimo de internet para muita gente”, diz Cris de Lucca. “Aquela interfacezinha virou uma porta, porque você botava uma frasezinha e saía buscando na internet.”

A interfacezinha fazia mais: colocou pessoas em contato com hiperlinks, gráficos sociais, algoritmos e toda a riqueza da web. Todos esses conceitos nasceram na Academia, ganharam vida por meio das janelas abertas em computadores, mas não chegaram à vida das pessoas sem antes passarem por mãos e mentes brasileiras para lá de habilidosas.

4. O SMARTPHONE

Muita gente tentou. Mas o smartphone nasceu de fato quando Steve Jobs anunciou que a Apple havia criado um misto de iPod, celular e comunicador online.

Para o engenheiro Berthier Ribeiro-Neto, pivô da chegada do Google ao Brasil e cientista-chefe da big tech no país por quase 20 anos, a mudança radical foi a mobilidade associada à necessidade humana de conexão perpétua. “Nós somos seres gregários, precisamos viver em grupos, para nos defender, procurar o que comer ou viver em comunidade. É da nossa natureza — e principal vantagem — compartilhar experiências e colaborar com o outro”, diz.

“Essa é a tecnologia com maior sintonia com essa essência do Homo Sapiens. É o smartphone que nos dá a possibilidade de exercitar esse anseio, essa necessidade de socialização da espécie, seja noite ou dia e em qualquer lugar”, completa Ribeiro-Neto.

Inovar é criar algo que, ao ser adotado pelas pessoas, muda o comportamento delas. E o artefato de tecnologia que causou o maior impacto pelo mundo foi o smartphone, com o lançamento do iPhone por meio da genialidade do Steve Jobs. E, para mim, outros eventos não passam nem perto. Nada alterou mais como a gente trabalha, se relaciona, as relações no seio familiar do que a introdução dessa máquina

Berthier Ribeiro-Neto

5. REDES SOCIAIS E O FENÔMENO FACEBOOK

Uma vez da rede, o usuário foi de expectador a produtor de conteúdo, graças às redes sociais.

Elas surfaram a onda da internet colaborativa, que geraram ícones como a Wikipédia, ao fazer dos eventos pessoais o centro do mundo online. E o Facebook captou bem o espírito ao englobar Instagram e WhatsApp e construir um império de plataformas que moldam interesses, gostos e trajetórias.

E as coisas passam a acontecer nelas. Outro dia, uma moça mais nova disse: ‘se não tá no Instagram, não aconteceu’. Opinião dela, mas esse é o mundo em que a gente vive hoje, né?”Virgílio Almeida

Não sem percalços: a nova realidade trouxe desafios à privacidade e devido à exposição exagerada a algoritmos. “Hoje, eles decidem do caminho que vamos tomar ao que veremos, gostaremos e até os políticos visíveis e invisíveis.”

6. STREAMING

Se o iTunes viabilizou financeiramente a venda de música quando a pirataria era regra, o streaming é a vitória do acesso sobre a posse. Com um toque, filmes e músicas podem ser vistos em um celular que não guardava arquivo nenhum. Basta uma conexão — e um cartão de crédito.

O consumidor só precisa aproveitar a experiência, enquanto a plataforma mata no peito a complexidade da operação (que aparelho vai executar o arquivo? Qual a velocidade da internet? Em qual data center está esse filme?).

Se a Netflix foi pioneira, hoje o streaming mexeu com cinema, TV e música. Criou termos como “binge watching” (“maratonar” por aqui), abalou lançamentos, alterou a produção e contratos de celebridades, internacionalizou os meios de distribuição.

Depois da Netflix, plataforma própria virou obrigação para produtoras de conteúdo (Disney+, HBO+, Globoplay, Paramount+UOL Play), novos players surgiram (Hulu, Amazon Prime, Apple TV+) e a competição com plataformas nativas digitais apertou.

7. UBERIZAÇÃO

O que acontece na rede fica na internet? Sim, até a Uber fazer o digital atropelar o mundo físico. Do choque, nasceu a uberização. “Ela cria a palavra e o conceito”, diz Virgílio Almeida. A combinação de smartphone, internet, geolocalização e força de trabalho flexível desestruturou setores tradicionais e inventou uma nova relação de trabalho.

O RH deu lugar ao algoritmo, e o custo homem-hora virou taxa dinâmica. Se a Uber remodelou o transporte de pessoas, outras empresas levaram a lógica a outras áreas, como o iFood e a nossa dieta alimentar.

Contudo, o pioneirismo nessa seara não é unânime. Para Berthier Ribeiro-Neto, a Amazon é a plataforma inaugural dos ambientes digitais de oferta de serviços ou produtos por distintos fornecedores.

Nessa visão, a Uber é um marketplace, sim, mas vertical, por agregar um só serviço. “A uberização tem um impacto grande nas nossas vidas. Mas o marketplace horizontal muda radicalmente nosso comportamento. Olha o número de vezes que a gente deixa de sair para comprar algo e receber em casa, só pela conveniência de escolher o produto ali na interface.”

A principal mudança é toda a sociedade conviver a todo momento com alguma coisa, algum dispositivo digital. Um notebook, um smartphone, um carro de aplicativo. Essa ubiquidade das tecnologias digitais na sociedade é a grande diferença. Já não falamos que alguém sabe computação, pois hoje em dia todo mundo trabalha com alguma coisa de de computação

Virgílio Almeida

8. LEIS PARA A INTERNET

O avanço tecnológico trouxe conflitos que exigiram respostas civis. O Brasil foi pioneiro ao criar o Marco Civil da Internet (2014), a LGPD (2018) e o ECA Digital (2025). Esses nortes legais nasceram da compreensão dos desafios da internet, mas só invadiram a esfera pública após escândalos políticos estourarem, nota Virgílio Almeida.

Na ordem: o caso Edward Snowden (a Casa Branca recorria à big techs para espionar líderes mundiais, como a presidente Dilma Rousseff); o caso Cambridge Analytica (dados roubados do Facebook usados para influenciar eleições); e a adultização exposta pelo influenciador Felca.

Há um descompasso entre avanço tecnológico e capacidade de criar normas para ordená-lo. Quando se refere às tecnologias emergentes, é possível e factível criar regras quando elas estão surgindo. Agora, porém, não sabemos quais serão seus impactos. Mas, quando sabemos, já é muito difícil criar legislação, por causa dos interesses já consolidados. É um paradoxo”

Virgílio Almeida

9. SISTEMA BANCÁRIO DIGITAL E PIX

A digitalização bancária é um marco da intersecção entre internet e finanças. O refinamento tecnológico do sistema financeiro remonta à hiperinflação dos anos 1990, mas o ápice é, sem dúvida, o Pix, simultaneamente um meio de pagamento e a infraestrutura para fazer as transferências.

“Se a internet, a web, são os trilhos por onde flui a informação, o Pix são os trilhos onde corre o dinheiro. E, sem fricção, o que é fundamental. Com ele, aqueles R$ 10 que começaram a manhã no seu bolso podem terminar o dia no Amapá, mas, nesse intervalo, você não chega ao Amapá. O papel moeda emitido pelo Banco Central não viaja tanto quanto a moeda digital anda nos trilhos do Pix”, reflete Berthier Ribeiro-Neto, hoje diretor de uma startup que se apoia no Pix para oferecer crédito.

10. INTELIGÊNCIA ARTIFICAL GENERATIVA

O marco mais recente é a inteligência artificial generativa. Para Virgílio Almeida, suas várias encarnações, como chatbots tipo ChatGPT, colocam nas mãos das pessoas um gigante poder computacional.

É unânime a impressão de que a IA está em sua infância. Ainda a usamos como ferramenta, mas, no futuro, ela será o ecossistema, como é internet hoje, avalia Cris De Lucca.

Se a busca foi um um portal para um monte de gente entrar e se informar na internet e a rede social foi uma mudança expressiva por fazer todo mundo virar produtor de conteúdo de uma hora para outra, a inteligência artificial potencializa tudo. Mas ainda precisa encontrar seu formato”Cris De Lucca

O saldo do impacto dessa tecnologia vai ficar para a retrospectiva dos próximos 30 anos, mas Berthier Ribeiro-Neto tem aposta certa da primeira área a sofrer ela. “Os carros sem motorista serão o primeiro setor da economia onde essa tecnologia vai ter um impacto monumental.” Quem viver não dirigirá.

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