O GLOBO – 03/11/2019 – SÃO PAULO, SP
Cineastas brasileiros celebram tema da redação do Enem sobre acesso a cinemas
SILVIO ESSINGER E CONSTANÇA TATSCH
A diretora do longa `Que horas ela volta`, Anna Muylaert, e o cineasta Joel Zito, de `Filhas do vento`, disseram que o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ` Democratização do acesso ao cinema no Brasil `, é uma oportunidade para `reflexão` sobre o audiovisual.
Para Muylaert o tema da redação foi surpreendente e ele `vai na contramão` do que o presidente Jair Bolsonaro costuma dizer sobre o setor audiovisual brasileiro. A cineasta considera ainda que os textos motivadores podem suscitar reflexões positivas.
— Olha, acho que esses textos seguidos desta pergunta jogam o aluno num espaço de questionamento sobre si e sobre a importância do audiovisual no mundo contemporâneo, o que me parece algo bem produtivo tanto em termos do indivíduo quanto do modo de pensar a sociedade hoje — afirma ela, acrescentando que o audiovisual tem ocupado parte considerável do tempo das pessoas.
Joel Zito de Araújo afirma que foi uma `ótima proposta de reflexão`, parabenizou os elaboradores da prova e foi além:
— Uma reflexão complementar é a dificuldade de acesso da produção cinematográfica brasileira a estas salas, ou janela. E todos nós sabemos que a cota de tela para o cinema brasileiro não atende a pungência de nossa produção nacional.
O cineasta considera, porém, que o tema não contempla uma análise sobre o momento atual.
— Há uma grande mudança na forma de acesso aos filmes e produção cinematográfica, que é cada vez mais pela internet, pelo celular, no youtube, nos canais de streaming, na assinatura de canais a cabo, do que pelas salas de cinema — afirma. — Acho que vivemos um certo saudosismo, um desejo de volta ao passado, quando ir ao cinema era um ritual até mesmo familiar. Creio que este passado não voltará mais. Nunca se viu filmes tanto quanto hoje, especialmente nos canais a cabo e na internet. O momento é outro. O importante é a população ter consciência que a experiência humana no momento atual já não comporta viver sem cinema, acessado de forma diferente.
Para diretor de Bacurau, redação do Enem sobre acesso ao cinema foi `inesperado`, mas `positivo`