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O Estado de São Paulo,
Domingo, 28 setembro de 2008


ECONOMIA & NEGÓCIOS

 
 


Carro que
revolucionou a indústria faz cem anos


O Ford T inaugurou
o sistema de produção em linha de montagem


 

Cleide Silva

 

Ele foi o primeiro
carro flex, o primeiro carro produzido em série e deu origem à indústria
automobilística americana, que hoje vive uma das piores crises de sua história.
Ontem, o Ford T completou 100 anos. Embora as comemorações do centenário estejam
ocorrendo há vários meses, a data oficial de início de produção é 27 de
setembro. A primeira unidade foi vendida nos Estados Unidos em 1º de outubro de
1908.

 

No Brasil, onde era
chamado de ‘Ford Bigode’, há hoje pelo menos 600 unidades do modelo em mãos de
colecionadores, calcula o presidente do Clube do Fordinho, Mateus Polizel. O
modelo T foi montado no País entre 1919 e 1926 com peças que vinham dos EUA (CKDs).

 

No primeiro ano,
foram montadas 2.447 unidades, no segundo, mais de 4 mil e, no terceiro, 9,9
mil. Daí em diante não há mais dados separados sobre o modelo nem a Ford do
Brasil sabe informar o número total de unidades produzidas nos sete anos em que
o Ford T esteve em linha no País.

 

Inicialmente, os
veículos eram montados em um galpão instalado na Rua Florêncio de Abreu, no
centro da cidade de São Paulo. Em 1921 foi inaugurada uma fábrica no bairro do
Bom Retiro, a primeira linha de montagem brasileira.

 

“O Ford T era muito
avançado para a época, porém, simples. Funcionava com duas marchas e usava um
aço especial que dava grande durabilidade ao carro, que dificilmente quebrava.
Mas, se quebrasse, era fácil de consertar”, afirma José Luis Vieira, autor do
recém-lançado livro A história do automóvel e a evolução da mobilidade humana.

 

Movido a álcool,
gasolina ou a mistura de ambos, o Ford T é considerado o primeiro carro flex do
mundo. Nos EUA, o modelo era abastecido com gasolina, mas algumas unidades
vendidas no Brasil – principalmente em Pernambuco, centro de produção de
cana-de-açúcar na época – rodavam apenas com álcool, relembra Vieira. “Até mesmo
com querosene”, acrescenta Polizel.

 


PRODUÇÃO EM SÉRIE

 

Nos cinco primeiros
anos de produção nos EUA, o Ford T era montado de forma artesanal. Depois de se
inspirar em um matadouro, onde as carcaças dos bois eram levadas por ganchos e
esquartejadas por açougueiros à medida que passavam por diferentes estações de
trabalho, Henry Ford criou o conceito de fabricação em série, com uma linha de
produção em que o operário ficava parado e o carro é que se movia numa esteira.

 

O método foi
adotado em todos os demais setores e, ao longo dos anos, foi sendo aperfeiçoado.
O “toyotismo”, considerado atualmente um dos mais eficientes sistemas de
produção de veículos foi inspirado no “fordismo”, que na época barateou os
preços dos carros, atendendo ao desejo de Henry Ford de popularizar o automóvel.

 

A Toyota é hoje a
maior montadora do mundo. A Ford é a terceira no ranking, atrás da General
Motors, que perdeu o posto para a companhia japonesa no primeiro semestre deste
ano, resultado que tende a se manter até o fim de 2008.

 

O Ford T vendeu 15
milhões de unidades nos 19 anos em que foi produzido, número só superado em
1972, pelo Volkswagen Fusca. Em mais de 30 anos, o Fusca, que nasceu como “carro
do povo”, bateu a marca de 21,5 milhões de unidades produzidas em vários países,
até mesmo no Brasil, onde vendeu mais de 3 milhões de unidades. Nos dias atuais,
quem tenta recuperar o título é o Nano, que será produzido na Índia pela Tata e
deve custar US$ 2.500.

 


DECLÍNIO

 

O centenário ocorre
num momento crítico para a Ford e também para a indústria automobilística
americana, que sempre liderou o segmento e continua sendo a maior vendedora de
carros do planeta, apesar das vendas estarem em declínio.

 

A Ford registrou
prejuízo global de US$ 8,67 bilhões no segundo trimestre deste ano, o pior
resultado de sua história. A companhia passa por ampla reestruturação, com
fechamento de fábricas, cortes de pessoal e, recentemente, anunciou que vai
mudar o foco de produção e converter fábricas de picapes e utilitários em
fábricas de carros de menor porte.

 

No Brasil e na
América do Sul, a marca vive situação oposta, com lucro e envio de dividendos à
matriz.

 

A situação da Ford,
assim como a da GM e da Chrysler (conhecidas como as Três Grandes), se
deteriorou diante da crise econômica nos EUA. As vendas de veículos no país, que
somaram 16,5 milhões de unidades em 2007, este ano não devem passar de 14
milhões de unidades, segundo projeções das montadoras.

 

Em outros mercados,
principalmente nos emergentes chamados de Brics (Brasil, Rússia, Índia e China),
as vendas de automóveis seguem aceleradas. Só o mercado brasileiro vai consumir
este ano volume recorde de 3 milhões de veículos.

 

A Ford, primeira a
instalar fábrica no País, deve responder por cerca de 10% das vendas no mercado
nacional. A líder é a Fiat (com 23% de participação), seguida por Volkswagen
(22%) e GM (20%).


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