Jornal da Unicamp, Campinas, 12 a 18 de abril de 2010 –
ANO XXIV – Nº 457
Antropologia, ciência
e tecnologia
A antropologia, nos últimos anos, tem sido convocada para pensar
uma diversidade enorme de temas para além daqueles tópicos que lhe são mais
tradicionais: sociedades não ocidentais, povos isolados, ou grupos subordinados.
Um desses temas, que ultimamente tem gerado um grande interesse na disciplina, é
o estudo de temas relacionados à ciência e a tecnologia. Poucos tópicos, no
entanto, poderiam ser pensados como mais distantes do foco tradicional da
etnografia e da antropologia: a ciência é tida como a forma mais ocidental de
pensar o mundo, sendo na nossa sociedade contemporânea a detentora do monopólio
da verdade sobre a natureza, em detrimento de conhecimentos tidos como
“tradicionais” ou “folclóricos”.
A tecnologia, por sua vez, é percebida como a legitimadora desse
monopólio: a inovação constante, que gera formas de domar os processos naturais
em favor do homem, é pensada por muitos como a prova de que a ciência é capaz de
compreender e prever a realidade como nenhuma outra forma de conhecimento. Além
disso, a tecnologia é pensada como a forma de resolução de grande parte dos
problemas humanos, desde a fome até a doença, chegando agora até na
possibilidade de reconstrução total do humano pela via da genética e na
superação da morte.
“Na melhor tradição antropológica, as mais recentes etnografias de
práticas científicas buscam repensar e tornar mais complexa a nossa
compreensão acerca de como o conhecimento gerado em laboratório
circula socialmente e ajuda a produzir a própria sociedade”
Seriam então a ciência e a tecnologia temas pouco passíveis de
compreensão pela antropologia, por meio do método etnográfico? Deveríamos então,
enquanto antropólogos, nos ater ao nosso campo já consagrado de estudos?
Gostaria aqui de argumentar que, pelo contrário, a antropologia tem o potencial
de enriquecer drasticamente as nossas compreensões dos dilemas trazidos pelo
desenvolvimento científico e tecnológico. Com o aumento da relevância e alcance
das novas tecnologias, é cada vez mais necessário incorporar essa temática nas
análises realizadas pelas ciências sociais. Nesse contexto a antropologia
poderá, a partir de seus métodos, trazer para a discussão uma perspectiva que
contribui tanto para enriquecer nosso conhecimento acadêmico, quanto para
auxiliar nas discussões em torno de políticas e regulação dessas novas
tecnologias.
A antropologia da ciência e da tecnologia é bastante associada
ainda aos chamados “estudos de laboratório”. O nome de Bruno Latour, o mais
conhecido etnógrafo de laboratório, permanece uma referência obrigatória para
todos aqueles interessados em estudar ciência e tecnologia nas ciências sociais,
e geralmente é tido como a “porta de entrada” para esse tipo de estudos.
Polêmicos, apesar de cada vez mais populares, os estudos etnográficos da
“ciência na prática” têm renovado o campo conhecido hoje como Estudos Sociais da
Ciência e da Tecnologia (ESCT), trazendo cada vez mais pesquisadores
interessados nas complexas relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
Tais estudos geralmente focam laboratórios de ciências básicas,
aquelas conhecidas como “ciências duras”, mostrando como o conhecimento
científico sobre a natureza, mais do que mera revelação de um real passível de
observação direta, é construído a partir de um processo que envolve uma
variedade de elementos “extra-científicos”, ou geralmente tidos como
relacionados à sociedade ou à cultura. Desde as opções feitas pelos
pesquisadores no decorrer de suas práticas de laboratório, até os equipamentos
que utilizam e as formas pelas quais interpretam os resultados (números,
imagens) obtidos pelos experimentos, todo tipo de nuança da prática laboratorial
tem sido cada vez mais explorada por estudiosos ligados aos ESCT. Tal
conhecimento tem acrescentado ao debate das ciências sociais uma gama de novas
perspectivas sobre a ciência, e seu impacto sobre nossa percepção dessas
práticas de conhecimento ainda está sendo digerido dentro e fora do mundo
acadêmico.
Mas o potencial do estudo antropológico ou etnográfico sobre a
ciência não se resume à perspectiva dos estudos de laboratório, ou a uma
“microssociologia” da ciência, como a vêem alguns. Mais do que focar as
micro-práticas envolvidas na construção do conhecimento e na elaboração de novas
tecnologias, a antropologia traz para o debate o potencial para compreender as
complexas relações entre os laboratórios e a cultura mais ampla na qual se
inserem. c, além de perceber como nossas concepções culturais interferem na
forma pela qual construímos experimentos e interpretamos seus resultados. Essa
ponte entre o macro e o micro é uma das principais fontes de conhecimento
inovador que a antropologia traz para o debate público e acadêmico sobre a
ciência e a tecnologia.
Dessa maneira, o conhecimento etnográfico sobre a ciência e
tecnologia tem muito a oferecer para a elaboração de políticas públicas sobre
inovação, por exemplo. Alguns dos temas que podem ser explorados são as atitudes
e percepções de grupos sociais a respeito de novas tecnologias. Ou mesmo como as
atitudes e concepções dos cientistas são indissociáveis das formas pelas quais
analisam e formulam problemas de interesse (em contraste com aqueles tidos como
pouco interessantes), e a partir das quais desenham e implementam novas soluções
tecnológicas. Dentro dessa perspectiva, a etnografia da ciência e da tecnologia
não busca dizer qual conhecimento é correto ou incorreto, nem impor um
relativismo vazio, do tipo “nada existe, tudo é construído”. Pelo contrário, a
boa etnografia da ciência ajuda a perceber como determinados conhecimentos
adquirem uma significância particular, em detrimento de outros, e por quê.
Associado a isso, a etnografia pode também revelar muito sobre as
atitudes de grupos afetados por políticas públicas ligadas à ciência, tecnologia
e inovação, desde grupos excluídos, agricultores, catadores de lixo e até
empresários. Mais do que simplesmente efetuar um levantamento de opiniões, a
etnografia ajuda a esboçar as formas pelas quais tais atitudes participam do
processo de constituição das tecnologias e dos saberes, e como elas estão
implicadas também nos efeitos materiais de tais práticas, definindo como novas
técnicas de fato funcionam na realidade.
No tocante a uma compreensão etnográfica a respeito da construção
do conhecimento científico, tais pesquisas podem colaborar em muito também para
um debate informado sobre tecnologias emergentes, que desafiam nossas atitudes e
percepções a respeito do mundo. Um exemplo recente são as pesquisas ligadas à
biotecnologia, incluindo desde alimentos transgênicos até o uso de células
tronco embrionárias. Além de desafiarem nossas compreensões a respeito da nossa
relação com o mundo natural, tais pesquisas prometem mudar nossa relação com a
natureza e com a nossa própria biologia. A antropologia da ciência atual tem se
debruçado sobre esses temas, produzindo conhecimento que nos ajuda a compreender
como tais dilemas afetam a construção do conhecimento nessa área, além de
explorar como tais tecnologias estão reconfigurando as relações sociais.
De forma mais geral, outra contribuição da pesquisa antropológica
é a de permitir o entendimento da ciência e da tecnologia enquanto práticas
sociais. Nesse sentido, nem a produção de saberes científicos nem a aplicação
destes em tecnologias são externas às realidades sócio-culturais nas quais se
inserem. Por conta disso, a antropologia nos auxilia a tomar partido no que diz
respeito às direções que queremos dar para o desenvolvimento científico e
tecnológico.
Que tipo de tecnologia queremos? Devemos buscar tecnologias que
diminuam a destruição do planeta, por exemplo, ou que reduzam as desigualdades
sociais? De que forma podemos alcançar tais objetivos, sem deixar de lado a
necessidade de produzir inovações que melhorem a vida das pessoas e ajudem a
tirar o Brasil de seu atraso relativo ao resto do mundo industrializado? De que
maneira os políticos que formulam políticas podem ficar mais informados sobre
como pensam os cidadãos a respeito de novas tecnologias? Como são de fato e na
prática implementados os recursos e as políticas voltadas à inovação? Por que
determinadas políticas, apesar de teoricamente contemplarem os objetivos
desejados pela sociedade, na prática não funcionam da maneira esperada? Enfim,
esses exemplos são alguns dentre a multiplicidade de questões para as quais a
antropologia pode auxiliar a buscar respostas.
Marko Monteiro é professor do Departamento de Política
Científica e Tecnológica (DPCT) do Instituto de Geociências (IG) da
Unicamp
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