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Revista Veja  »  Edição
2165 / 19 de maio de 2010


Economia


A receita dos
milionários


A subida da maré econômica tira milhões de brasileiros da pobreza
e, no nível superior da pirâmide
social, está produzindo um novo milionário a cada dez minutos

Renata Betti e Larissa Tsuboi


LIÇÃO 1


CRIE UM PRODUTO EXCLUSIVO


A fundadora da MMartan,
 Marilena
Rossini
,
notou que havia espaço no país para oferecer produtos mais refinados de cama,
mesa e banho. Em 1985, abriu um escritório com as filhas
 Mariângela
e Marilise
,
sócias da empresa. Elas recebiam pedidos por telefone e despachavam os artigos
por correio. A expansão do negócio veio com a abertura de franquias, a partir de
2003. Atualmente, são abertas três novas lojas a cada mês, e a previsão de
faturamento para 2010 é da ordem de 235 milhões de reais. No ano passado, a
MMartan vendeu 65% de suas ações à Springs Global, líder mundial no ramo

Passado o breve soluço da crise
internacional, o Brasil voltou a avançar com força renovada. O país iniciou 2010
em ritmo chinês. Diversos setores da economia crescem numa velocidade superior a
10% ao ano. A produção das indústrias, por exemplo, teve uma alta de 20% no
primeiro trimestre. Nesse mesmo período, o comércio registrou uma expansão de
13% no volume de vendas. Mesmo consumindo mais, os brasileiros encontraram folga
para poupar. Sinal disso é que o valor total de recursos captados pelos planos
de previdência privada ganhou 28% nos três primeiros meses do ano. O desemprego
recua aos menores níveis históricos, e a renda dos trabalhadores passa por uma
recuperação paulatina mas constante. Se fosse possível medir a temperatura atual
da economia, esse termômetro exibiria em seu visor o número de 12%. Foi nesse
ritmo que o PIB (produto interno bruto, o total de mercadorias e serviços
produzidos) avançou nos três primeiros meses do ano, de acordo com estimativas
dos economistas do Itaú Unibanco. No ano como um todo, o crescimento do PIB
deverá ficar ao redor de 7%, o que seria a maior taxa desde 1986, quando houve o
Plano Cruzado. Esses números extraordinários representam uma primeira maneira de
retratar o momento promissor, algo não visto em mais de uma geração. Outro
indicativo da saúde do Brasil pode ser visto no interesse inédito despertado
pelo país lá fora (
veja
a reportagem
). Um
modo mais palpável de sentir esse mesmo fenômeno é observar diretamente como os
empreendedores brasileiros têm tirado proveito dessa fase de prosperidade.

Na crise, surgem as melhores
oportunidades de negócios, afirma o dito. A prática, no entanto, mostra que é na
maré alta que as empresas singram novos mares e conquistam territórios. Para a
fábrica de sorvetes Frutos do Cerrado, de Goiás, o boom econômico representou
multiplicar por 20, na última década, a sua produção, hoje avaliada em 70.000
picolés por dia. Já a empresa de cosméticos mineira Kapeh conseguiu dobrar o
número de lojas que vendem seus produtos no último ano. A Tramontini Implementos
Agrícolas, do Rio Grande do Sul, multiplicou por 6 o seu faturamento desde 2006.
A rede Óticas Diniz, nascida há dezoito anos em São Luís, no Maranhão, alcançou
450 lojas em todos os estados e se tornou a maior rede de vendas de óculos do
país. Os exemplos acima, assim como as demais histórias de sucesso recente que
ilustram esta reportagem, dão uma mostra real de como a riqueza se espalha pelo
país, em diferentes setores e regiões. De cada um desses casos é possível
extrair uma lição de empreendedorismo e de como tirar proveito da retomada
econômica para impulsionar os lucros.

Graças à estabilidade e ao retorno
do crescimento, colocar um projeto de pé, batalhar para fazê-lo deslanchar e
transformá-lo em um negócio rentável voltou a ser um sonho realizável. E como.
Estima-se que, no último ano, aproximadamente 50.000 brasileiros tenham
ingressado no clube dos milionários. Milionárias, de acordo com o critério
utilizado por instituições financeiras para identificar possíveis clientes de
alta renda, são aquelas pessoas que possuem um patrimônio equivalente a 1 milhão
de dólares, ou 1,8 milhão de reais, com recursos livres para investir (não se
incluiu, portanto, o valor da residência própria). A cada dez minutos, em média,
brota um novo milionário no país. "Hoje, o Brasil é o destaque do mundo. Tenho
muitos clientes comprando seus concorrentes ou vendendo suas empresas para os
estrangeiros. Isso só fortalece e consolida a estrutura empresarial do país",
afirma Celso Scaramuzza, diretor da divisão de wealth
management 
(ou gestão de
fortunas) do Itaú Unibanco. 


LIÇÃO 2


INSPIRE-SE NOS LÍDERES


Na década de 80, a bioquímica
 Lisabeth
Braun
 percebeu
que os dermatologistas receitavam muitas fórmulas que não existiam prontas no
mercado brasileiro. Em 1992, criou uma pequena fábrica de dermocosméticos. Ela
buscou emular gigantes mundiais do setor. A demanda por esse tipo de produto
aumentou tanto que, em 2006, a filha da farmacêutica, a economista
 Ilana
Braun Srour
,
de 31 anos, decidiu entrar na empresa

Os cínicos poderão condenar o
aumento do número de milionários no Brasil. Verão nele um jogo de soma zero, sob
o prisma equivocado de que "o que é ganho por alguém é perdido por outrem". Esse
não passa de um dos enganos típicos do senso comum descritos pelo economista
americano Thomas Sowell em seu livro Economic
Facts and Fallacies.
 Uma
transação comercial quase sempre é benéfica para ambas as partes, argumenta
Sowell. Tanto quem vende um produto (para ganhar dinheiro) como quem o compra
(por necessidade) sai ganhando com o negócio. Afirma o autor: "Diversas versões
dessa visão de soma zero, da Teoria de Imperialismo de Lenin à Teoria da
Dependência na América Latina, alcançaram uma grande aceitação no século XX e
revelaram-se bastante resistentes diante de evidências em contrário". Foi com
base nessa ideia equivocada que o Brasil embarcou, nos anos 70, na reserva de
mercado e se fechou ao comércio internacional. O resultado foi um crescimento
insustentável, que legou uma economia ineficiente e incapaz de enfrentar a
concorrência externa. Sob o dirigismo do capitalismo de estado, o país emergiu
mais injusto e desigual.

No passado, a riqueza de uns só
podia ser construída a expensas de outros. Não é, em absoluto, o que se vê hoje
no país. Diz o economista Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas
Sociais da Fundação Getulio Vargas: "O brasileiro está com mais dinheiro no
bolso por causa de seu próprio esforço, beneficiado pela melhora no mercado de
trabalho e no aumento do salário real. Esse avanço não se deve simplesmente a
fatores como programas sociais, que não trazem um bem-estar efetivo e
duradouro".


LIÇÃO 3


ENTREGUE MAIS DO QUE ELES PEDEM


O engenheiro
 Rogério
Thomé
,
de 40 anos, deixou um emprego de executivo para fundar a sua própria empresa de
investimentos e assessoria financeira. Em menos de um ano, reuniu 300 clientes.
Mas seu pulo do gato foi ter descoberto uma maneira de atrair e cativar novos
fregueses: oferecer cursos sobre como investir na bolsa. Hoje, tem 3 000
clientes

Segundo um estudo recente do
economista, enquanto o consumo aumentou 14,9% nos últimos cinco anos, a renda
dos brasileiros aumentou praticamente o dobro: 28,6%. Isso dá a medida da
sustentabilidade da atual fase de crescimento. Nos anos 90, o consumo explodiu,
mas a média da renda das pessoas praticamente não mudou. O que aconteceu nesse
período? Apenas o topo da pirâmide social estava gastando (e se endividando)
mais. Agora todo o conjunto da população está com mais dinheiro no bolso (
veja
o quadro
). Desde
2000, 23 milhões de pessoas ascenderam à classe C, deixando os estratos mais
pobres (classes D e E). Projeções de Neri indicam que esse movimento continuará
nos próximos anos. A fatia da classe AB será a que mais engordará até 2014. Já a
classe E, em que estavam três em cada dez brasileiros em 2003, recuará para 8%
da população. Essa transformação se deve à criação de empregos e à formalização
de trabalhadores que antes viviam de bicos. Apenas em 2010 deverão ser criados 2
milhões de empregos com carteira assinada. Serão 2 milhões de consumidores em
potencial a mais. "Se o empresário está contratando num país como o Brasil, com
cargas tributárias altíssimas, é porque ele está otimista com o futuro da
economia", afirma Rodrigo Teles, diretor do Instituto Endeavour, que apóia o
empreendedorismo no país.

A maré, portanto, permanecerá em
alta, impulsionando os negócios – e multiplicando ainda mais os milionários.
Segundo um estudo conjunto da consultoria inglesa Economist Intelligence Unit e
do banco inglês Barclays, em 2017 o clubinho das pessoas com uma conta bancária
superior a 1 milhão de dólares deverá possuir 675
000
sócios brasileiros. Caso essas estimativas sejam confirmadas, nenhum outro país
em desenvolvimento terá tantos milionários quanto o Brasil. Mas como ser um
desses felizardos? Como aproveitar o aumento do consumo e da elevação da
liquidez na economia para fundar um negócio? Como deixar de ser um simples
assalariado, ainda que de vida estável e bem remunerado, e amealhar 1 milhão de
dólares? Em primeiro lugar, deve-se não ser apenas mais um. Ofereça algo novo e
exclusivo num mercado em expansão. A MMartan percebeu que as donas de casa
buscavam jogos de cama e toalhas mais refinados. Tinha um ótimo produto
disponível, e assim cresceu rapidamente quando a demanda ganhou força. Aqui cabe
outra lição. Cedo ou tarde, a maré subirá. Esteja preparado para surfar na
bonança, como a Schaefer Yatchs. "Dediquei toda a minha vida para ser o maior
fabricante de iates do Brasil", afirma Marcio Schaefer.


LIÇÃO 4


SEJA ORIGINAL


Filha de cafeicultores, a farmacêutica mineira
 Vanessa
Araújo
,
de 32 anos, aliou a tradição familiar ao seu desejo profissional de criar
produtos de beleza. Desenvolveu então uma linha de cosméticos cuja fórmula leva
extratos de grãos de café (mas verdes, não torrados). As sementes possuem
propriedades antioxidantes. Vanessa estudou o assunto a fundo e fez quinze
cursos de especialização. Agora, três anos depois, colhe o sucesso de sua marca,
a Kapeh, que significa café na antiga língua dos maias

Atuar num mercado em rápida
expansão é uma das características em comum de todas as histórias desta
reportagem. Escolher bem um segmento, estudar quem são os seus principais
concorrentes e, por fim, saber como se diferenciar (pela qualidade, pelo preço,
pelo atendimento) são, contudo, requisitos vitais. "Empreender é correr riscos
calculados. O verdadeiro empreendedor corre riscos quando sabe que tem grandes
chances de acertar", afirma Renato Fonseca de Andrade, consultor do Sebrae. Além
disso, por mais que os ventos soprem a favor, fazer negócios no Brasil ainda é
um tormento. Quem escolhe se lançar nessa aventura precisa saber que o seu
empreendimento exigirá uma dedicação obsessiva, sobretudo nos estágios iniciais.
"As barreiras burocráticas e cargas tributárias são tão altas no Brasil que, se
não tiver muita paixão e determinação, o negócio não vai dar certo", afirma
Edgar Diniz, criador do canal Esporte Interativo. Segundo David Kallás,
professor de gestão estratégica do Insper, o pequeno empresário precisa viver o
seu negócio incessantemente: "Não há dias de descanso. O empreendedor trabalha
enquanto assiste ao jogo de futebol no domingo à tarde e está conectado com tudo
o que acontece ao seu redor. É assim que ele consegue ter novas ideias".

A boa e nova revelação é que hoje,
no Brasil, o talento e a persistência têm grande chance de ser sobejamente
recompensados. Vale a pena ousar e ir atrás de um sonho antigo, mesmo que
existam dificuldades no início. "Nunca desista. Esteja disposto a mudar de
tática, mas não desista de seu propósito essencial", afirma Jim Collins, um dos
mais admirados consultores da atualidade, nos parágrafos finais de Como
as Gigantes Caem
 (editora
Campus), que acaba de ser lançado no Brasil. No livro, em que o autor americano
analisa os motivos que levam empresas vitoriosas a entrar em declínio, Collins
oferece lições primorosas de como manter um negócio em ascensão. A persistência
em se manter fiel aos seus princípios e aos seus ideais originais, afirma ele, é
essencial, assim como a dedicação e a humildade de rever estratégias quando a
queda começa a se revelar. "O fracasso é menos um estado físico e mais um estado
de espírito", afirma Collins. "O sucesso é cair e voltar a se levantar, vez após
vez." Até conquistar o suado primeiro milhão.

LIÇÃO 5

ANTECIPE-SE ÀS
TENDÊNCIAS

Marcio Pissardo,
50 anos, trabalha com informática desde os 16. Não perde nenhum lançamento de
Steve Jobs. Na apresentação do iPhone, em 2008, decidiu criar aplicativos para
smartphones – um segmento até então inexistente no Brasil. A Livetouch começou
com sorte. Marcio telefonou para a BM&FBovespa e ganhou um cliente de peso logo
no primeiro ano. Seu programa mais popular é o NutraBem, de informações
nutricionais, com 9
000
downloads. Sua empresa, que começou com vendas de 200 000 reais, já fatura três
vezes mais

LIÇÃO 6

SEJA RADICAL

LIÇÃO 7
Alan James
 (na
foto, de camisa clara
),
de 33 anos, ganhava a vida fazendo faixas para anúncios. Viu que levava jeito
para bolar ações publicitárias inusitadas. Em 2003, entrou num programa de
empreendedorismo e conheceu os seus três atuais sócios. Fundaram a Biruta Mídias
Mirabolantes, agência que hoje já tem três escritórios no país

 

O REGIONAL É
GLOBAL

Em meados dos
anos 90, o goiano
 Clóvis
de Almeida
,
56 anos, abriu uma sorveteria com sabores de frutas típicas do cerrado. Com a
ajuda do filho
 Ismael,
a Frutos do Cerrado vende 70 000 picolés ao dia, em sete estados. A partir de
agosto, a marca chegará aos Estados Unidos. O próximo passo é entrar na Espanha
e no Japão. "Meu objetivo é o mundo", resume Ismael

LIÇÃO 8

DESCUBRA UM NICHO

Edgar Diniz,
de 41 anos, decidiu largar um alto cargo no mercado financeiro para fundar a sua
empresa: uma consultoria na área de esportes, sua paixão. Nos primeiros anos, o
negócio não decolou. Edgar e seus sócios decidiram então investir em uma lacuna
que encontraram no mercado. "Não havia no Brasil nenhum canal da televisão
aberta que fosse 100% ligado ao esporte", diz ele. Foi assim que nasceu o
Esporte Interativo. Funcionou

LIÇÃO 9

A CLASSE C QUER
TRATAMENTO A

Em 1992, o
paraibano
 Arione
Diniz
,
49 anos, inaugurou em São Luís, no Maranhão, a primeira loja das Óticas Diniz.
Sua rede é hoje a maior do país, com 450 filiais. Seu segredo? Dar tratamento de
classe A aos consumidores de classe C. Seu faturamento atingiu 285 milhões de
reais em 2009

LIÇÃO 10

PRODUZA EM VEZ DE
REVENDER

O gaúcho Derci
Tramontin
i
abriu uma oficina que construía carretas agrícolas. Passou quinze anos

revendendo tratores e motores. Há dois, com a ajuda
dos filhos,
 Leonardo e Júlio,
começou a produzir seus próprios veículos. Investiu em modelos menores, com
valores semelhantes aos de um carro popular, destinados a pequenos agricultores.
A Tramontini Implementos Agrícolas deverá faturar 45 milhões de reais em 2010,
seis vezes mais do que há quatro
anos

LIÇÃO 11

UM DIA A MARÉ
SOBE. PREPARE-SE

A paixão do
catarinense
 Márcio
Schaefer
 sempre
foi desenhar barcos. "Queria ser o maior especialista em construção de iates no
Brasil", diz. Preparou-se por uma década, antes de abrir o seu estaleiro, nos
anos 90. Em 2001, começou a construir lanchas maiores e a investir em tecnologia
nacional. A Schaefer está entre as maiores fabricantes de iates do país


Com reportagem de André Vargas e Júlia de Medeiro


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