Folha de São Paulo, Mercado, quinta-feira, 04 de agosto de 2011
SILVIO MEIRA
Trabalho, emprego, custos e robôs
Os próximos
anos serão marcados pela transição entre o trabalho manual e o automático na
indústria
NUMA FESTA,
sexta passada, o presidente da montadora disse que a empresa vai usar mais robôs
na linha de produção. Muito mais robôs. E em breve.
Não é que a
empresa tem um robô, hoje, e serão cem no futuro. E o breve não é nos próximos
15 anos, é 2014. Até a Copa. Parece que tudo vai acontecer até a Copa.
O presidente é
Terry Gou e a empresa é a Foxconn, maior empregador da China, com mais de 1
milhão de trabalhadores. Só uma de suas fábricas, em Shenzen, emprega meio
milhão de pessoas.
A Foxconn
também é o maior exportador chinês, fabricando sob encomenda para Apple,
Nintendo, Intel e Microsoft.
A empresa já
tem fábricas aqui e ganhou destaque com a negociação para trazer uma grande
planta para o Brasil, que produziria equipamentos da Apple.
E Brasília
reforçou que os 100 mil empregos previstos seriam "para brasileiros". Será que a
FoxConn estaria pensando em empregar chineses, em massa, aqui?
Lá na festa,
Gou disse que a Foxconn vai passar dos 10 mil robôs já em suas fábricas para 300
mil no ano que vem e 1 milhão em 2014.
E disse por
que: o aumento do custo do trabalho China está diminuindo a competitividade e a
lucratividade da empresa. Isso porque, depois do suicídio de 17 empregados, a
Foxconn duplicou os salários dos montadores, que agora está perto de R$ 500.
Considerando
que -mesmo duplicados- os salários chineses estão entre os menores do mundo e,
mesmo assim, o maior fabricante mundial de eletrônicos diz que eles são muito
altos, a ponto de justificar a substituição de humanos por robôs em suas linhas
de produção, alguma coisa está mudando, de vez, na economia industrial.
Segundo Andy
Grove, um dos fundadores da Intel, as economias devem ser centradas em criação,
manutenção e evolução do trabalho e emprego (veja em http://bit.ly/qla21p).
Para Grove,
boa parte do problema americano é o sumiço (para a China) do emprego industrial,
inclusive o de baixos salários e complexidade como o das montadoras. Para cada
empregado da Apple nos EUA, há dez chineses montando seus produtos na Foxconn.
Os próximos
anos serão marcados pela transição entre o trabalho manual e o automático na
indústria.
De um lado,
pessoas realizando operações repetitivas que, em muitos casos, podem ser
automatizadas. São indivíduos que têm expectativas, planos, desejos, projetos de
vida, família e… os tais custos trabalhistas dos quais até a Foxconn, na
China, reclama.
De outro, a
automação. Tratada como a inovação na linha de produção, será financiada pelos
bancos de desenvolvimento e programas de melhoria de competitividade.
E pode elevar
a eficácia, a eficiência e os resultados dos processos industriais e de outros,
entre as tantas coisas repetitivas e semi-humanas que ainda continuamos fazendo,
como herança de um passado fabril e manual distante, em plena economia do
conhecimento.
De um certo
ponto de vista, a solução para os elevados custos trabalhistas em economias
ineficientes como o Brasil pode ser a substituição do trabalho manual, nas
fábricas, por robôs. Investido um certo montante, os custos operacionais caem
para perto de zero.
Vai ver que
era disso que o governo tratava quando dizia que os 100 mil postos de trabalho
da fábrica-que-vem seriam para "brasileiros". Ou seja, pessoas, ao invés de
robôs.
Sem gente na
linha e com alguns outros incentivos, é capaz de uma fábrica de eletrônicos no
Brasil ser mundialmente competitiva.
De outro ponto
de vista, como diria Grove, precisamos todos de economias centradas em trabalho
e emprego, com as redes de produção mais integradas, da concepção e projeto até
a montagem fazendo parte do mesmo ecossistema. Pode ser, faz sentido.
Mas será que o
trabalho da classe "Tempos Modernos" das montadoras de eletrônicos deveria ser
parte da nossa contemporaneidade?
Durante quanto
tempo ainda aceitaremos que não é o mesmo tipo de trabalho dos escravos nos
engenhos de açúcar da colônia?… Daqui a quanto tempo diremos que é um trabalho
"apenas para robôs"?…
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