Revista
Época, CIDADES
– 13/01/2012 20h57 – Atualizado em 13/01/2012
22h22
Arquitetura
da
reconstrução
Como grandes
projetos assinados por “arquitetos estrelas” podem
resgatar bairros, e até cidades, do abandono e do
esquecimento
MAURÍCIO MEIRELES
Um olho, um tronco humano
se retorcendo, um pássaro alçando voo, as
pétalas de uma bromélia – o bloco de
rascunhos do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, dizem, parece mais
de um
estudante de artes plásticas que passou a tarde no museu.
Quem vê duvida que
sejam os primeiros esboços de qualquer
construção. Mas basta olhar os
edifícios
projetados por ele para entender: Calatrava inspira-se em formas da
natureza. O
olho virou um planetário em Valência, na Espanha;
o tronco, um prédio de 54
andares em espiral na Suécia; e a bromélia
será o Museu do Amanhã, na zona
portuária do Rio de Janeiro. O prédio de 15.000
metros quadrados – que custará
R$ 215 milhões e abrigará um museu de
ciência dedicado à sustentabilidade –
deverá ser inaugurado antes da Copa do Mundo de 2014.
A arquitetura pode ter
várias funções. Em nossas casas,
intimista, pode servir para criar conforto; em
uma catedral gótica, monumental, lembra a
insignificância do homem diante de
Deus. E, nas cidades, pode resgatar áreas abandonadas pelos
habitantes e pelo
poder público. É o que se espera que o museu de
Calatrava faça pelo Porto do
Rio. É uma área de
industrialização antiga, que vem perdendo
relevância
econômica ao longo das últimas décadas.
A ideia é que o museu – cujo projeto é
tocado em parceria com a Fundação Roberto
Marinho, instituição sem fins
lucrativos ligada ao mesmo grupo que publica ÉPOCA
– sirva de âncora para a
revitalização.
Espera-se também que a edificação se
torne um dos símbolos da cidade.
O projeto para a
região
portuária do Rio é inspirado na
transformação pela qual passou a cidade
espanhola de Bilbao a partir de 1977. O maior símbolo da
mudança é o Museu Guggenheim,
projetado pelo arquiteto Frank Gehry em 1992, um marco da arquitetura
contemporânea. Na Idade Média, a cidade fora um
centro comercial, graças à
atividade portuária. Manteve esse status na primeira
Revolução Industrial, para
perdê-lo a partir dos anos 1980. Ficou entregue à
ferrugem de suas máquinas.
Havia dúvidas de que o museu, com suas curvas sinuosas,
estrutura caótica e
fachada de titânio, pudesse ser construído.
Só com softwares modernos o cálculo
estrutural pôde ser feito. Valeu a pena. Só no
primeiro ano, mais de 1 milhão
de turistas visitaram a cidade para conhecer o edifício.
Desde 2001, ela recebe
cerca de 100 mil por mês. O fenômeno ganhou nome:
“Efeito Bilbao”. E cidades em
declínio tentam copiá-lo. O Rio perdeu
espaço e prestígio a partir dos anos
1960, com a mudança da capital federal para
Brasília. Nos últimos anos,
sobretudo com a escolha da cidade, em 2010, para sediar as
Olimpíadas de 2016,
a metrópole fluminense vive uma
recuperação econômica. O museu
desenhado por
Calatrava pode servir como um marco dessa nova fase.
“É verdade
que um museu
muda o olhar que as pessoas têm sobre um lugar. Mas um
simples prédio não é
capaz de mudar nada. É preciso pensar em seu
entorno”, afirma João Calafate,
professor da Faculdade de Arquitetura da PUC-Rio. É verdade
que um edifício em
si não muda muita coisa. Em Bilbao, o Guggenheim
não chegou sozinho: veio
acompanhado de um planejamento urbano maior. Outras obras –
como o aeroporto,
assinado pelo próprio Calatrava – e investimentos
foram necessários. Se o Rio
tem de lidar com a violência do tráfico de drogas,
Bilbao precisou lutar contra
ataques terroristas de separatistas bascos. Foi o primeiro passo para a
mudança
de uma era industrial para uma pós-industrial, com uma
economia voltada para serviços.
Hoje, a cidade tem mais de 800 mil habitantes em sua zona metropolitana.
Em Bilbao, uma obra de
arquiteto de grife mudou a história de uma cidade.
Há outros exemplos em que a
revitalização se restringe a um bairro. Foi o que
ocorreu com a região do Marais,
em Paris. Apesar da arquitetura imponente, o Marais se tornou um reduto
proletário depois da Segunda Guerra Mundial. Seus
prédios históricos, no
período, estavam muito degradados. Para ter uma ideia da
imagem do lugar, a
música infantil que diz “eu sou pobre de
marré”, vem do francês “pauvre
du
marais”. Tudo mudou a partir de 1977, quando foi inaugurado
perto do bairro o
Centre Georges Pompidou, o principal museu de arte moderna da cidade.
Além de
seu acervo, a construção – projetada
pelo italiano Renzo Piano – é considerada
um marco da arquitetura contemporânea. Seu esqueleto de tubos
coloridos fica
visível na fachada. Hoje, alguns dos melhores bares e
restaurantes da cidade
ficam no bairro, que também virou um polo internacional de
turismo gay. A praça
em frente ao museu fica cheia de artistas de rua, entre
músicos e os famosos
clowns franceses. Perto dali, uma fonte foi construída em
homenagem ao
compositor Igor Stravinski – e se tornou outro ponto
turístico.
“A arquitetura gera
uma
inquietação na paisagem. A ideia dessas
construções é criar uma zona de
fruição
urbana e estética”, afirma Hugo Barreto,
secretário-geral da Fundação Roberto
Marinho, um dos responsáveis pela pesquisa que criou o
conceito do Museu do
Amanhã. Como os exemplos de Bilbao e Paris mostram, duas
coisas mudam quando um
prédio desses é construído. Uma
é o apelo visual da construção em si,
seu valor
como arte. São bonitos de olhar. Isso faz o local entrar nas
rotas
internacionais dos turistas interessados em arquitetura. Seus
arquitetos são
encarados como grandes escultores – e alguns transitam entre
a construção e a
escultura mesmo. O próprio Frank Gehry, do Guggenheim,
assina a escultura Peix
(peixe, na tradução do catalão) no
Porto Olímpico de Barcelona,
revitalização
que também inspira o que vem acontecendo no Rio de Janeiro.
O Museu do Amanhã,
como
todos os projetos citados até aqui (leia
os exemplos abaixo),
não está sozinho. Nem poderia. A
região portuária é
protegida pelo Patrimônio Histórico Nacional.
Nenhum prédio pode bloquear a
visão do Mosteiro de São Bento para quem chega de
navio pela Baía de Guanabara.
Na outra ponta do porto, vai ficar o Museu de Arte do Rio (Mar), a
outra âncora
de revitalização da área, formando um
corredor cultural.
Oscar Niemeyer, Santiago
Calatrava, Frank Gehry, Zaha Hadid – a arquitetura
contemporânea transformou
seus autores em celebridades internacionais. Em inglês,
existe até a expressão
“starchitect” (algo como arquitetos estrelas) para
defini-los. Há também quem
se refira ao fenômeno como “arquitetura do
espetáculo”. Com a crise econômica,
as encomendas aos “starchitects”
diminuíram bastante na Europa e nos Estados
Unidos. Seriam o Brasil e os outros emergentes os próximos
destinatários das
grandes construções? Ainda é cedo para
saber. Mas o Museu do Amanhã pode ser um
sinal.
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