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Revista Isto É,
MEDICINA & BEM-ESTAR,
|  N° Edição:  2309 |  21.Fev.14 – 20:50 |  Atualizado em
27.Fev.14 – 17:06

A vacina brasileira contra a Aids


Cientistas da
USP dão um passo importante e, pela primeira vez, o Brasil produz um imunizante
com potencial para conter o avanço do HIV

Cilene
Pereira (cilene@istoe.com.br) e Mônica Tarantino (monica@istoe.com.br)

Encontrar uma vacina
contra a Aids é uma das batalhas mais desafiadoras já travadas pela ciência. O
HIV, vírus causador da doença, ainda detém a vantagem por sua incrível
habilidade de se modificar e, assim, escapar da mira dos imunizantes em estudo.
Na semana passada, a divulgação dos resultados positivos de um teste com uma
nova vacina deu mais fôlego às esperanças de se chegar, um dia, a uma substância
capaz de impedir a contaminação pelo vírus. E a boa notícia vem da Universidade
de São Paulo, resultado de um trabalho feito por pesquisadores brasileiros. O
recurso, desenvolvido e fabricado por especialistas da Faculdade de Medicina
(FMUSP), foi ministrado a quatro macacos Rhesus da colônia do Instituto Butantan,
em São Paulo.


PROMESSA


Cunha
Neto testa em macacos uma vacina feita com conjunto de fragmentos do vírus HIV.


A
imunidade dos animais aumentou mais do que se esperava

Os efeitos do
imunizante, conhecido pela sigla HIVBr18, surpreenderam até mesmo o cientista
que lidera o estudo, Edécio Cunha Neto, professor de imunologia da FMUSP. “Não
esperava uma resposta tão boa dos macacos quando abri o estudo. Eles tiveram um
aumento importante da imunidade”, diz o cientista. “No pior resultado, a
imunidade deles contra o HIV aumentou entre três e cinco vezes em relação a
testes anteriores com camundongos. No melhor, a capacidade de identificar o
vírus e produzir anticorpos específicos aumentou até dez vezes.” As defesas dos
primatas têm grande semelhança com o sistema imunológico humano. Além disso,
esses animais são vulneráveis ao SIV, vírus com características muito parecidas
com as do HIV. “As boas respostas do organismo dos macacos indicam que há
maiores chances de dar certo também em humanos”, anima-se o pesquisador.

Não é a primeira vez que
na luta contra a Aids se produz uma vacina eficiente em macacos. Mas o fármaco
criado pela FMUSP é o único a reunir uma coleção tão grande de fragmentos do
vírus – os pesquisadores combinaram em um mesmo imunizante 18 pequenos pedaços
das proteínas (peptídeos) presentes no HIV. Isso qualifica a pesquisa
brasileira. Em outros estudos realizados por centros de pesquisas
internacionais, avaliaram-se conjuntos bem menores de proteínas do vírus. São
esses peptídeos que provocam o sistema de defesa a produzir anticorpos contra
eles. O corpo aprende a reconhecer o inimigo e a impedir seu avanço.

Outra especificidade do
imunizante criado na universidade paulista é que as amostras foram extraídas de
regiões do HIV mais preservadas de mutações. Isso é uma forma de dificultar
tentativas do vírus de fugir do alcance da vacina usando suas mutações como
subterfúgio e também de fazer com que o imunizante funcione para um número maior
de pessoas. “Testes feitos in vitro com amostras de sangue de 32 portadores de
HIV com condições genéticas e imunológicas bastante variadas mostraram que, em
mais de 90% dos casos, pelo menos um dos peptídeos foi reconhecido por células
de defesa do organismo”, conta Cunha Neto. O grupo desenvolveu então uma versão
da vacina com fragmentos de todos os subtipos capazes de induzir respostas do
organismo.



PERSPECTIVA


O
americano Fauci acredita que novos dados sobre o funcionamento do corpo e do
vírus irão revigorar a busca da vacina

Até o final de 2014, o
estudo feito com os quatro animais será ampliado para um total de 28 macacos.
Nessa fase, os cientistas irão testar outros meios para inserir os fragmentos do
HIV no organismo. A finalidade é escolher aquele que induzirá uma resposta mais
forte antes de começarem os estudos em humanos. “Até agora usamos um adenovírus
(causa resfriado). Vamos experimentar outros vírus, como o da vacina da febre
amarela”, disse o especialista. Se tudo correr bem nesta etapa, a previsão é de
que os testes em humanos comecem em três anos. Serão feitos com uma população
saudável e com baixo risco de contrair o HIV. O objetivo é investigar a
segurança do fármaco, a resposta imunológica que provoca e por quanto tempo os
anticorpos permanecem no organismo.

A criação de uma vacina
contra a Aids feita totalmente no Brasil é um marco na história da ciência
nacional. É consenso: independentemente dos resultados finais que apresentará, o
imunizante é uma prova de que importantes descobertas podem ser feitas quando o
País consegue unir pesquisadores capacitados e recursos (estes, por sinal, na
maioria das vezes estão aquém do necessário). De saída, a ciência brasileira já
ganhou mais conhecimento sobre o vírus, sobre as técnicas capazes de estudá-lo e
sobre as ferramentas usadas para criar uma vacina contra ele. É uma evolução e
tanto.

Por outro lado, em
relação às expectativas dirigidas ao desempenho final da vacina, prevalece a
cautela. E é normal que seja assim, visto que a experiência da FMUSP se encontra
ainda em etapa bastante preliminar. “O experimento com o grupo maior de macacos
pode trazer dados interessantes e indicar se o trabalho irá em frente”, diz o
virologista Ricardo Diaz, da Universidade Federal de São Paulo. “Já vimos muitas
vacinas não passarem das fases iniciais de estudos”, observa o infectologista
Artur Timerman, do Hospital Edmundo Vasconcellos, de São Paulo. O próprio
responsável pelo trabalho também é ponderado. “Os resultados com os macacos são
promissores, mas ainda existem muitas etapas a serem vencidas antes de realmente
termos uma vacina eficaz em humanos”, diz.

Em artigo publicado
recentemente na revista científica “The New England Journal of Medicine”, o
cientista americano Anthony Fauci também se pergunta sobre o futuro das vacinas.
Um dos pioneiros na pesquisa da Aids, ele está à frente do Instituto Nacional de
Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos. Em seu artigo, Fauci comenta
que o número de mortes e de pessoas infectadas pela Aids caiu cerca de um terço
no mundo todo em relação aos seus momentos de maior pico. “Essa diminuição
ocorreu sem uma vacina, o que coloca a questão se ela é necessária para acabar
com a pandemia”, afirma o especialista.

Para ele, medidas como a
terapia antirretroviral, a distribuição constante de preservativos e agulhas
limpas, a prevenção da transmissão mãe-filho e as terapias preventivas de
pré-exposição feitas com os próprios medicamentos antirretrovirais permitiram a
redução do número de casos e mortes. Fauci defende, porém, que o mundo continue
a buscar uma vacina para reforçar ainda mais as defesas. Ela será
particularmente importante em lugares como muitos países africanos, onde a
doença avança e faltam recursos de prevenção e de tratamento. “É essencial,
ainda que não seja fácil de obter”, diz o pesquisador. “A única garantia de um
final sustentado para a pandemia de Aids é uma combinação da prevenção com a
implantação de um fundo suficiente e eficaz para a vacina de HIV”, argumenta o
cientista. Fauci encerrou seu artigo convocando a comunidade envolvida na luta
contra o HIV a se comprometer com a busca da vacina.


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