Folha de São Paulo, Opinião, quinta-feira, 17 de novembro de 2011
RAUL
JUSTE LORES
Arquitetura nas favelas
SÃO PAULO –
Após demandar moradias populares na prefeitura, o líder de uma favela não
titubeia. "Queremos que os prédios sejam desenhados pelo Marcos Boldarini", diz.
"As Cohabs do Boldarini são as melhores."
Aos 36 anos, Boldarini é o
Isay Weinfeld dos nossos subúrbios. Em seis anos, o arquiteto projetou 1.500
apartamentos para a Secretaria da Habitação. Tem outros mil na prancheta, com
formas e cores antimonotonia, parquinhos e até solário onde os vizinhos fazem
seus churrascos.
Sua maior empreitada é o
Cantinho do Céu, no Grajaú, área em processo de urbanização às margens da
represa Billings, a 30 km ao sul da avenida Paulista, onde vivem 40 mil pessoas.
O arquiteto concebeu um
parque linear de 7 km (2 km prontos), com deques de madeira, bancos, jardins,
quadras de futebol, aparelhos de ginástica para os idosos e playgrounds para
crianças. No dia 3, ganhará um cinema ao ar livre, raridade na área, primo dos
antigos drive-ins.
As ruas ganharam um declive
no meio para escoar as águas -e não nas laterais, onde as chuvas alagavam as
casas. Nas calçadas, há tijolos com alta permeabilidade antienchente. Vi mais
design ali que em muitos empreendimentos privados do circuito Morumbi-Itaim.
A obra vai na contramão de
sufocar rios e várzeas, como na bilionária ampliação da marginal Tietê. Tampouco
lembra os condomínios do Minha Casa, Minha Vida, que recordam a produção em
série do malufista Cingapura. Quem diria que justo Kassab urbanizaria favelas
com arquitetos de ponta?
Na semana que vem, São Paulo
abriga o seminário "Arq.Futuro" (www.arqfuturo.com.br),
que traz alguns dos maiores arquitetos e críticos do mundo. É uma rara ocasião
para se recordar que a arquitetura não é item supérfluo. Com ela, Boldarini faz
pedagogia do olhar em uma cidade embrutecida, onde poucos na elite conseguiriam
citar seu arquiteto favorito.
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