Folha de São Paulo, Ciência, sábado, 04 de dezembro de 2010
Brasil prepara centro de biologia "ET"
Espaço terá pesquisas semelhantes às da Nasa, que acaba de anunciar bactéria com
bioquímica alternativa
Centro, que está sendo montado no Instituto de Astronomia da USP, em Valinhos,
deve ser inaugurado em 2011
SABINE RIGHETTI, DE SÃO PAULO
O
país terá, no ano que vem, o seu primeiro centro de astrobiologia -área que
estuda a origem, a evolução e a distribuição da vida no Universo, inclusive fora
da Terra.
O
espaço ficará em Valinhos, no interior de São Paulo, e aproveitará a
infraestrutura do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da
USP.
Lá,
num terreno com cerca de 1 milhão de m2, que inclui áreas com reserva florestal,
está sendo reformado um prédio com aproximadamente 800 m2 para abrigar os
laboratórios de astrobiologia.
Inicialmente, serão inauguradas apenas algumas máquinas. Uma delas é uma câmara
de simulação. Nela, será possível testar a sobrevivência de organismos, como
bactérias, em situações que imitam ambientes extraterrestres equivalentes à
nossa Lua ou a Titã (lua de Saturno que, acredita-se, pode ter condições
favoráveis à química necessária para a vida).
O
dinheiro- cerca de R$ 1,5 milhão- é de instituições de apoio como o CNPq
(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a Fapesp
(Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Isso
além do apoio do Inespaço, um dos INCTs (Institutos Nacionais de Ciência e
Tecnologia) criados recentemente pelo governo federal.
Com o
centro em funcionamento, e com mais recursos entrando, serão comprados os
equipamentos mais complexos. "Cada brinquedinho desses custa uns US$ 200 mil",
conta Douglas Galante, astrobiólogo que está envolvido no projeto de Valinhos.
ASTROTUPINIQUIM
O
Brasil já tem cientistas que trabalham com astrobiologia e com a correlata
astroquímica, mas ainda não tem um lugar que reúna equipamentos para pesquisas,
como acontecerá em Valinhos.
Na
maioria das vezes, os pesquisadores têm de usar laboratórios de fora do país ou
o acelerador de partículas do LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), que
fica em Campinas.
Talvez por isso, hoje só há dois grupos "oficiais" nessas duas áreas cadastrados
no CNPq (numa base de dados com 26 mil grupos do país).
Um
deles- de astroquímica- é coordenado por André Silva Pimentel, na PUC-RJ
(Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).
Lá,
ele estuda as reações químicas que acontecem na atmosfera dos planetas e no meio
interestelar. O outro grupo, de astrobiologia, do qual Galante faz parte na USP,
inclui até análise de dados obtidos em Titã.
Em um
dos seus trabalhos, Galante coleta organismos e os testa em condições similares
às extraterrestres.
Foi
mais ou menos isso que fizeram os pesquisadores da Nasa, cuja descoberta de uma
bactéria que sobrevive sem fósforo foi anunciada nesta quinta-feira.
Na
América Latina, só existe um centro de astrobiologia até hoje, que fica na
Colômbia. Lá, pesquisadores estão estudando bactérias do rio Tinto capazes de
sobreviver nas condições adversas do planeta vermelho.
Faltam alunos que se interessem pela área
DE SÃO PAULO
De acordo com André Silva Pimentel, da PUC-RJ, há
dificuldade para atrair alunos de química à astronomia.
"A astroquímica é uma área interdisciplinar e os
alunos preferem pesquisa experimental", diz o cientista.
A falta de interesse se deve também à escassez de
estrutura para pesquisa nessas áreas. "Parece que o estudo do Sistema Solar
ainda não é foco do país", afirma ele.
"É mais fácil achar químicos interessados em
problemas cotidianos, como poluição ambiental", completa.
A expectativa é que o anúncio da bactéria com DNA
"ET" feito pela Nasa atraia mais estudantes- e recursos- para astroquímica e
para a astrobiologia.
"Esse foi um dos objetivos da Nasa ao fazer barulho
na divulgação da bactéria", diz Douglas Galante, da USP. (SR)
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