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Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,com-pandemia-participacao-das-mulheres-no-mercado-de-trabalho-e-a-menor-em-30-anos,1130056, 24/10/2020

Com pandemia, participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor em 30 anos

Em função da sobrecarga nas tarefas domésticas e nos cuidados com crianças e idosos, parcela do total de mulheres que estão ocupadas ou em busca de um trabalho chegou a 46,3% no segundo trimestre; desde 1991 número não ficava abaixo de 50%

Texto: Luciana Dyniewicz

Em meio à pandemia, com empresas fechando postos de trabalho, escolas operando a distância e idosos precisando de cuidados extras, a participação das mulheres no mercado de trabalho alcançou o patamar mais baixo dos últimos 30 anos. Os hábitos e a cultura da sociedade têm impedido muitas mulheres não só de trabalhar, mas até de procurar emprego. E, dentro de casa, elas ficaram – ainda mais – sobrecarregadas.

A participação feminina no mercado (indicador que considera mulheres com mais de 14 anos que trabalham ou estão procurando emprego na comparação com o universo total do gênero) ficou em 46,3% no segundo trimestre deste ano. Desde 1991, o número não caía abaixo dos 50% e desde 1990 não atingia valor tão baixo, quando ficou em 44,2%, segundo dados do IBGE.

A obrigação que recai sobre as mulheres de cuidar dos filhos é um dos motivos para essa queda da participação feminina no mercado. Entre as mulheres que têm criança de até 10 anos em casa, esse recuo foi de 7,7 pontos porcentuais entre o segundo trimestre de 2019 e o mesmo período deste ano. Já entre as mulheres em geral, a redução foi de 7,1 pontos porcentuais e, entre os homens, de 6,3 pontos porcentuais.

“Com a pandemia, muita gente deixou de procurar trabalho. Ficou arriscado sair de casa para isso e o mercado não está receptivo. No caso das mulheres, o problema foi agravado porque os cuidados com a casa costumam recair mais sobre elas”, diz o economista Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No caso da paranaense Patrícia Zambon, de 33 anos, que trabalhava no varejo havia 15 anos, foi a necessidade de cuidar dos filhos que a afastou do mercado. Ela era vendedora em uma loja na Rua Oscar Freire, em São Paulo, antes da pandemia.

Nos primeiros meses da quarentena, Patrícia ficou em casa e teve o salário reduzido. Com a reabertura do comércio, a loja pediu para que voltasse, mas ela não tinha mais com quem deixar os filhos – um menino de 11 anos e uma de nove. Antes da pandemia, quando não estavam na escola, eles ficavam na casa da mãe e da avó de Patrícia. Mas, agora, Patrícia não quer arriscar e deixá-los com elas, que têm 62 e 87 anos.

“Enquanto não tiver vacina, não vou colocar minha família em risco”, diz ela, que passou a fazer doces para vender. Com a mudança, porém, a remuneração mensal caiu de R$ 3.000 para cerca de R$ 800.

Além de ter de pedir demissão, Patrícia também tem sofrido com o aumento dos trabalhos domésticos. “As aulas on-line tomam um tempo danado. São dois turnos aqui, duas séries diferentes. Conciliando ainda almoço, limpeza, organização, tempo para as brincadeiras”, acrescenta ela, que diz estar feliz por poder ficar com os filhos, mas exausta.

Antes da quarentena, as mulheres já dedicavam, em média, 10,4 horas por semana a mais que os homens em tarefas domésticas. No ano passado, o tempo médio gasto pelas mulheres com esses afazeres foi de 21,4 horas por semana, enquanto o dos homens foi de 11 horas, segundo o IBGE.

Com a covid-19, a situação piorou. Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz mostra que 26,4% das mulheres entrevistadas afirmaram que o trabalho doméstico aumentou muito, entre os homens o porcentual é de 13%. O levantamento indica ainda que as mulheres estão mais tristes e deprimidas (50%) que os homens (30%).

AUXÍLIO EMERGENCIAL

O auxílio emergencial dobrado para mães solteiras também fez com que um maior número de mulheres deixasse o mercado de trabalho, segundo o economista Marcos Hecksher. O problema é que, quando a ajuda do governo acabar definitivamente, muitas dessas mulheres terão de procurar um emprego novamente e não deverão encontrar.

Por não estarem procurando tanto uma ocupação, as mulheres não registraram um aumento tão significativo na taxa de desemprego. Entre abril e junho, o índice atingiu 14,9%, com uma alta de 0,8 ponto porcentual na comparação com o mesmo período de 2019. Entre os homens, o aumento foi de 1,7 ponto e a taxa chegou a 12%.

A fluminense Joyce Salvador, de 27 anos, é uma das mulheres que conseguiu receber R$ 1.200 por mês de auxílio emergencial. Mãe de um bebê de um ano e meio e uma menina de sete anos, sustentava as crianças sozinha antes da pandemia fazendo trabalhos esporádicos como modelo fotográfica.

Joyce também costumava deixar os filhos com parentes. Os familiares, porém, não fizeram quarentena nos últimos meses. Como os filhos têm problemas respiratórios, ela acabou tendo de ficar em casa com eles e não conseguiu mais trabalhar.

“A pandemia não me colocou em um lugar de fragilidade, eu já vivia isso antes. Mas ela escancarou. Antes, já era difícil eu ter acesso a qualquer coisa. Agora é ainda pior. Antes, eu podia contar com a família. Agora, não, porque essa rede de apoio que eu tinha vive como se não tivesse pandemia”, diz.

Para tentar conseguir alguma renda, Joyce criou canal sobre desafios de ser mãe na pandemia.

Além do auxílio emergencial, Joyce usou para pagar as contas duas parcelas de R$ 150 que recebeu nos últimos meses do projeto social Segura a Curva das Mães, que ajuda 1.734 mulheres em todo o País. Mas, justo quando o auxílio caiu à metade, o projeto também não pode fazer novos repasses às mães por estar sem recursos.

Ainda sem ter com quem deixar os filhos – Joyce entrou na Justiça para conseguir uma vaga em uma escola em seu bairro para a filha mais velha -, a modelo criou um canal no YouTube sobre os desafios de ser mãe durante a pandemia para tentar ganhar alguma renda.

Como inserir as mulheres no mercado

Para economista especialista em questões de gênero, criar creches e escolas integrais permitiria que mães pudessem trabalhar durante todo o dia

O aumento de vagas em escolas e creches, além de projetos que recebam idosos durante o dia, seria um modo de amenizar a situação das mulheres e permitir que elas voltem ao mercado de trabalho, segundo Lucilene Morandi,  coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero e Economia da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense.

“A sociedade entende que a pessoa responsável por cuidar de doentes, idosos e filhos é a mulher. Ela fica sobrecarregada. Isso é histórico e cultural. A solução passa por política pública, desde a questão de creche até estrutura de assistência ao idoso.”

Lucilene destaca a importância de haver creches e escolas no período integral. “Hoje, as creches não são pensadas para ser também um apoio para as mães. Enquanto elas funcionam das 7h30 às 11h30, ajudam no máximo a mãe a ir ao mercado, a tomar banho ou a fazer coisas que uma mulher não consegue com uma criança no colo.”

Enquanto soluções como essas não forem implementadas, a tendência é que as mulheres continuem trabalhando menos horas por dia do que gostariam. Segundo dados do IBGE compilados pela Tendências Consultoria, a taxa de subutilização da força de trabalho (que considera pessoas desocupadas e subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas) entre as mulheres ficou em 34,1% no segundo trimestre deste ano. Entre os homens, foi de 24,9%.

Regina Madalozzo, do Insper: ‘Para quem tem carga adicional com o serviço de casa, acaba sendo insuportável’

Além da necessidade de políticas públicas, também é preciso um trabalho mais ativo das empresas em busca da igualdade de gênero, de acordo com a economista Regina Madalozzo, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero do Centro de Estudos em Negócios do Insper.

“Na pandemia, homens e mulheres estão trabalhando mais. A carga é penosa para todos. Mas, para quem tem uma carga adicional com o serviço de casa, acaba sendo insuportável. Os gestores estão prestando atenção a isso?”, questiona a professora.

Regina diz ainda que, no caso das mulheres que acabaram tendo de pedir demissão, não é possível saber se suas carreiras serão recompostas no futuro. “Em algumas situações, dependendo de como foi a saída, pode ser possível continuar do nível que parou. Mas, dependendo do tempo de afastamento, fica complicado. Com o agravante de que hoje as coisas mudam muito rápido.”

Para Marisa Cesar, presidente do Grupo Mulheres do Brasil, capacitação e acesso a microcrédito também podem ajudar as mulheres, dado que a profundidade da crise obrigará muitas a criarem seus pequenos negócios. “Não estamos pensando na possibilidade de elas juntarem muito dinheiro, mas de poderem sair da vulnerabilidade”, diz a dirigente do grupo criado por Luiza Trajano.

Marisa diz ainda que governos de vários Estados e municípios até têm programas de apoio às mulheres, mas a divulgação é tão precária que a maior parte do público que poderia ser beneficiado não fica nem sabendo. “Tem parcela de investimento mal utilizada. Não estou nem falando que tem pouca verba, mas a comunicação é mal feita. Tem programas, sim. Talvez não na proporção que dê para atender todas.”

Para Marisa Cesar, do Grupo Mulheres do Brasil, governo precisa divulgar melhor programas para mulheresANGELA REZÉ

O economista Marcos Hecksher, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), defende a desoneração temporária da folha de pagamentos para novas admissões. Contratos de jornada com até 20 horas de trabalho por semana ficariam isentos de contribuição previdenciária patronal e a alíquota aumentaria em quatro pontos porcentuais por cada quatro horas a mais incluídas no contrato. O limite seriam 36 horas por semana.

Essa desoneração estimularia as empresas a contratar um maior número de funcionários, ainda que cada um acabe trabalhando menos do que gostaria. A ideia é fazer com que mais trabalhadores tenham acesso a um cargo e, assim, a uma renda. “Mulheres tenderiam a ser mais beneficiadas, porque elas já são mais frequentemente contratadas com jornadas parciais”, diz Hecksher.

ENTREVISTA – MARIA-NOEL VAEZA

DIRETORA REGIONAL DA ONU MULHERES PARA AMÉRICAS E CARIBE

‘As medidas fiscais esquecem das mulheres’

Questões de gênero têm de ser pensadas quando o orçamento público é elaborado, o que é difícil de ocorrer com a baixa presença feminina nos governos, diz diretora da ONU Mulheres

Orçamentos públicos que garantam recursos para sistemas de cuidados de crianças e idosos são essenciais para que as mulheres possam trabalhar fora de casa e avancem no mercado, segundo a diretora regional da ONU Mulheres para Américas e Caribe, Maria-Noel Vaeza. O problema, porém, é que, enquanto não houver mulheres ocupando cargos importantes nos governos, será difícil direcionar investimentos para essas áreas, acrescenta a uruguaia. “Temos apenas duas mulheres ministras da Economia na região e normalmente os ministérios mais importantes estão nas mãos dos homens. Por isso, as medidas fiscais se esquecem das mulheres e de que necessitamos um viés diferente na hora de decidir o orçamento”, destaca. A seguir, trechos da entrevista.

  • A ONU apontou que 71% das medidas relacionadas a gênero identificadas no mundo focam na prevenção da violência contra mulheres, enquanto 10% em fortalecer a segurança econômica feminina. Faltam medidas econômicas, ou é normal essa diferença dada a gravidade da violência?

Primeiro, todas essas medidas são poucas.  Não chegam a 1% dos orçamentos públicos. Criamos um observatório de medidas macroeconômicas adotadas desde que a pandemia começou. Queremos acompanhar essas medidas para nos assegurarmos que elas têm foco nas mulheres. Lamentavelmente são poucas as que têm. Necessitamos de investimento público que ajude a mulher a sair para trabalhar. Se a mulher sai para trabalhar, vamos sair mais rápido dessa crise econômica. Não esqueça que 70% das mulheres que trabalham na América Latina estão no setor informal, ou seja, com trabalho vulnerável. Elas trabalham em áreas mais afetadas pela covid, como o turismo, os restaurantes. Precisamos de medidas  que permitam às mulheres ser empreendedoras. Isso nos leva a pensar por que não se está priorizando as mulheres para que saiamos mais rápido da pandemia.

  • E por quê?

Há uma crença de que as mulheres têm de trabalhar de graça, e sobre os ombros delas paira a economia dos países. Os sistemas de cuidados (de crianças e idosos) sempre foram gratuitos e sob a responsabilidade delas. O trabalho não remunerado das mulheres na nossa região é até quatro vezes maior que o dos homens. Os Estados estão perdendo milhões de dólares ao não dar valor a esse trabalho. Calculamos o valor de tempo que as mulheres destinam ao trabalho doméstico não remunerado. Em muitos países, ultrapassa 20% do PIB. A macroeconomia tradicional ignora isso sistematicamente. Por isso, acreditamos que é o momento para que se estabeleçam sistemas de cuidados que deem a mulher a oportunidade de sair para trabalhar fora, mas sabendo que seus filhos estarão bem cuidados. É óbvio que as mulheres querem sair para trabalhar e querem ganhar dinheiro para manter suas famílias. O que acontece é que elas não têm onde deixar seus filhos e seus adultos que necessitam de ajuda. É preciso integrar esse foco de gênero em todo orçamento público e eliminar o risco de que as políticas de emprego se orientem a setores geradores de emprego masculino. Mas não esqueça que as mulheres não estão nas mesas dos governos para decidir as medidas. Temos apenas duas mulheres ministras da Economia na região e normalmente os ministérios mais importantes estão nas mãos dos homens. Por isso, as medidas fiscais se esquecem das mulheres e de que necessitamos um viés diferente na hora de decidir o orçamento. O investimento em mulheres é triplo, porque é na família, na comunidade e no país.

Maria-Noel: ‘Precisamos revisar o contrato social, que precisa incorporar políticas de cuidado de modo que se criem condições para que a mulher rompa a divisão sexual tradicional do trabalho’.

  • A sra. vê o governo brasileiro fazendo algo para priorizar as mulheres?

Acho que os governos na América Latina estão tomando consciência do assunto. Todos os governos da região estão tomando medidas para subsidiar mulheres que não têm renda. Aos governos, não lhes convém que crianças passem fome. Então é evidente que esses subsídios tenham de ir às mulheres para que elas alimentem suas crianças. Não esqueça que há consciência de um compromisso político porque as mulheres votam. Mas, sim, precisamos analisar e revisar o contrato social. Porque esse contrato que temos precisa incorporar políticas de cuidado de modo que se criem as condições para que a mulher rompa essa divisão sexual tradicional do trabalho e para que o homem seja corresponsável pelo trabalho não remunerado.

  • Um estudo do  McKinsey Global Institute apontou que a crise tornou os empregos das mulheres 1,8 vezes mais vulneráveis do que os dos homens e que as mulheres representam 39% do emprego global, mas responderam por 54% das perdas de empregos. Quais motivos levam as mulheres a ter empregos mais vulneráveis?

Quando há uma crise como a de agora e se ambas pessoas no lar trabalham, normalmente a mulher fica cuidando dos filhos e o homem volta a buscar trabalho. Essa é a tradição. A crise acentuou a desigualdade de gênero que já existia na sociedade e que tem suas origens nesses papéis tradicionais e nos estereótipos de gênero. Isso limita as possibilidades de as mulheres se dedicarem a atividades de capacitação e a empregos no período integral. Além disso, há um conjunto de crenças de que as mulheres não têm capacidade para se dedicar a cargos de liderança. Ainda existem barreiras psicológicas e culturais para que os investidores invistam em empresas dirigidas por mulheres. Os investidores de risco aportam apenas 2% de suas carteiras nos empreendimentos de mulheres. E isso não é porque os empreendimentos de mulheres são um fracasso, mas porque existe uma percepção de maior risco, porque a mulher é mãe ou por distintos fatores culturais que estão no imaginário dos homens. Na realidade, as mulheres são melhores pagadoras de crédito, com até 98% de pagamento de financiamento. Por isso, não podemos fazer com que as mulheres tenham acesso apenas ao microcrédito. Também gostaria de mencionar um dos setores mais afetados pela pandemia, o das trabalhadoras domésticas, que particularmente no Brasil é majoritariamente de afrodescendentes. Das mulheres que trabalham nesse setor, 77,5% estão em condições de informalidade. Elas foram afetadas pela quarentena. Essas trabalhadoras informais correspondem a mais de 26% das pessoas que deixaram de trabalhar. Por isso, temos de promover a consciência em relação às causas da vulnerabilidade dos empregos das mulheres e há que chamar os governos para que façam investimentos concretos, que apoiem a criação de ambientes propícios para que as mulheres desenvolvam seu potencial laboral e sua inserção econômica. Precisamos fazer com que os Estados sejam conscientes de que têm em seu poder a chave para tirar muitas mulheres de situação de vulnerabilidade. Para mudar essa situação, precisamos promover uma mudança cultural radical e investir no sistema de cuidado como parte de uma política fundamental de proteção social, que permita à mulher sair para trabalhar.

Há uma crença de que as mulheres têm de trabalhar grátis, e sobre os ombros delas paira a economia dos países

Maria-Noel Vaeza, diretora da ONU Mulheres para Américas e Caribe

  • As empresas e as instituições civis também podem fazer algo para mudar essa situação de vulnerabilidade das mulheres?

Primeiro, reconhecer o aporte das mulheres. É fundamental que todos na sociedade tornem visível o papel das mulheres no lar, na comunidade e na sociedade. Temos de garantir que as vozes das mulheres sejam escutadas. Muitas vezes escuto: ‘essas feministas  fazem tanto barulho’. Sim, fazemos porque estamos cansadas, porque estamos indignadas que não nos considerem e porque temos direito a fazer barulho e a que escutem nossa voz que demanda participação, que pede que nos tratem de uma maneira digna. É nosso direito estar em espaços de tomada de decisão. Também temos de lembrar que a covid tem impactos muito piores para as mulheres do que para os homens. Depois, o setor privado é quem cria emprego. Obviamente, aumentar o emprego feminino é o que mais precisamos, mas que sejam empregos dignos, de qualidade, que permitam às mulheres se desenvolver profissionalmente.

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