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O ESTADO DE S.PAULO, teh economist,
26 Junho 2016

De novo a questão das máquinas



Após muitos passos em falso, a inteligência artificial ganhou embalo. Será que
vai causar desemprego em massa ou destruição da humanidade?



algo de familiar no receio de que as máquinas acabem deixando todo mundo sem
emprego, beneficiando apenas um grupo seleto de pessoas e pondo a sociedade de
pernas para o ar. Há dois séculos, quando a industrialização começava a se
disseminar pela Grã-Bretanha, essas preocupações rendiam discussões acaloradas.
Naquela altura, não se falava em “revolução industrial”, mas na “questão das
máquinas”. Inicialmente colocada pelo economista David Ricardo em texto de 1821,
tal questão dizia respeito à “influência das máquinas nos interesses de
diferentes classes da sociedade” e, em particular, à “opinião, comum entre a
classe laboriosa, de que o uso de maquinário é amiúde prejudicial a seus
interesses”. Escrevendo em 1839, o historiador e filósofo Thomas Carlyle
denunciava o “demônio do mecanismo”, cujo poder desestabilizador resultava na
“opressão de vastas multidões de trabalhadores”.



Os carros elétricos da Tesla usam as mais avançadas tecnologias de
inteligência artificial


Pois
a questão das máquinas voltou com toda a força, ainda que sob nova roupagem.
Especialistas em tecnologia, economistas e filósofos agora discutem as
implicações da inteligência artificial (IA), uma tecnologia em acelerado
desenvolvimento, que permite às máquinas executar tarefas que antes só os
humanos tinham condições de realizar. Seu impacto pode ser profundo. A IA põe em
risco o emprego de pessoas cujas atividades pareciam impossíveis de serem
automatizadas, de radiologistas a assistentes judiciários. Em estudo largamente
citado, publicado em 2013, Carl Benedikt Frey e Michael Osborne, da Universidade
de Oxford, mostram que, nos Estados Unidos, 47% dos empregos podem “dar lugar a
capital computacional”. Mais recentemente, o Bank of America Merrill Lynch
divulgou a projeção de que, até 2025, “o impacto desestabilizador criativo
anual” da IA pode ficar entre US$ 14 trilhões e US$ 33 trilhões, incluindo:
redução de US$ 9 trilhões em custos trabalhistas, possibilitada pela automação
de funções antes desempenhadas por trabalhadores do conhecimento; reduções de
custo num total US$ 8 trilhões na indústria e na saúde; e US$ 2 trilhões em
ganhos de eficiência resultantes da utilização de carros autônomos e drones. Por
sua vez, o McKinsey Global Institute diz que a IA vem contribuindo para uma
transformação da sociedade que está acontecendo “dez vezes mais rápido e em
escala 300 vezes maior, ou com impacto aproximadamente 3 mil vezes mais
abrangente” que a Revolução Industrial.


Tal
como aconteceu há 200 anos, muitos temem que as máquinas tornem milhões de
trabalhadores dispensáveis, gerando desigualdade e problemas sociais. Martin
Ford, autor de dois best-sellers sobre os perigos da automação, tem medo de que
os empregos da classe média desapareçam, que não exista mais mobilidade
econômica e que uma plutocracia endinheirada venha a “isolar-se em condomínios
fechados ou em ‘cidades de elite’, possivelmente defendidas por robôs e drones
militares autônomos”. Outros receiam que a IA represente uma ameaça existencial
à humanidade, pois computadores superinteligentes talvez não compartilhem dos
mesmos objetivos que os seres humanos, podendo se voltar contra seus criadores. 


Esse
tipo de apreensão vem sendo veiculada por gente como o físico Stephen Hawking.
De maneira ainda mais surpreendente, até o empreendedor do setor de tecnologia
Elon Musk, que fundou a companhia de foguetes SpaceX e a montadora de carros
elétricos Tesla, ecoa Carlyle e adverte que, “com a inteligência artificial,
estamos evocando o demônio”. Os automóveis Tesla usam as mais avançadas
tecnologias de IA para se conduzirem a si mesmos, mas Musk teme que no futuro a
IA se torne poderosa demais para que os humanos consigam controlá-la, passando a
ser dominados por ela. “Não tem problema se você tiver um Marco Aurélio como
imperador. Mas a coisa muda de figura se for um Calígula”, diz ele.



A todo vapor.
 Essas
preocupações são motivadas por avanços impressionantes que vêm acontecendo na
IA, uma área até outro dia famosa por inúmeras promessas não concretizadas. “Nos
últimos dois ou três anos, a coisa explodiu”, diz Demis Hassabis, CEO da startup
de IA DeepMind, que o Google comprou em 2014 por US$ 400 milhões. No início
deste ano, o sistema AlphaGo, desenvolvido pela empresa, derrotou Lee Sedol, um
dos melhores jogadores do mundo de Go – um jogo de tabuleiro extremamente
complexo, que não se esperava que os computadores conseguissem dominar, senão
daqui a no mínimo dez anos. “Por muito tempo eu olhava para a IA com ceticismo,
mas agora o avanço é real. Os resultados são reais. A coisa funciona mesmo”, diz
Marc Andreessen, do fundo de capital de risco Andreessen Horowitz, do Vale do
Silício.


Em
particular, uma técnica de IA chamada “aprendizagem profunda” (deep learning),
que possibilita que os sistemas aprendam e se aperfeiçoem por meio do
processamento de grande número de exemplos, em vez de terem de ser
explicitamente programados, já vem sendo empregada para potencializar mecanismos
de buscas na internet, bloquear e-mails indesejados (spams), sugerir respostas a
e-mails, traduzir páginas da web, reconhecer comandos de voz, detectar fraudes
em cartões de crédito e conduzir carros autônomos. “É espetacular”, diz Jen-Hsun
Huang, presidente e CEO da NVIDIA, cujos chips municiam muitos sistemas de IA.
“Em vez de os softwares serem programados por pessoas, são os dados que fazem
isso.”


Onde
alguns veem perigo, outros enxergam oportunidades. Os investidores já fazem fila
para entrar no pedaço. Gigantes de tecnologia vêm comprando startups de IA e
competem entre si para atrair os melhores pesquisadores da área. Em 2015,
segundo a empresa de análise de dados Quid, foram gastos US$ 8,5 bilhões em
companhias de IA; um valor recorde, quase quatro vezes superior ao total gasto
em 2010. Também em 2015, o número de rodadas de investimento em startups de IA
foi 16% maior que em 2014, ao passo que o setor de tecnologia como um todo
registrou queda de 3%, diz Nathan Benaich, do fundo Playfair Capital, que tem
25% de sua carteira investida em IA. É como se o modelo de negócios padrão das
startups, nos últimos tempos centrado na universalidade potencial do conceito do
Uber (“Uber for X”), tivesse dado lugar à noção de que tal universalidade é
ainda mais potencializada com a IA (“X plus IA”). Google, Facebook, IBM, Amazon
e Microsoft tentam estabelecer ecossistemas em torno de serviços de IA
oferecidos em nuvem. “Essa tecnologia será utilizada em praticamente todos os
setores que mexem com algum tipo de dado”, diz Richard Socher, fundador da
MetaMind, uma startup de IA recentemente adquirida pela gigante de computação em
nuvem Salesforce. “A IA vai estar em toda a parte.”

© 2016 THE ECONOMIST
NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER,
PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM


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