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REVISTA ISTO É,
CULTURA
,
04/04/2007



Deu a louca no cenário

Com idéias inovadoras, cenográfos criam visuais
incríveis para peças, mostras e shows. E quem fica chocado é
o artista

Por
Ivan Claudio

No início da arte moderna, obras muito inovadoras
costumavam escandalizar o público – e davam o que falar. Agora, na abertura da
exposição Itaú contemporâneo, em São Paulo, foram dessa vez os próprios artistas
que se sentiram chocados – o público, ao contrário, adorou. Motivo do espanto:
em um dos segmentos da mostra dedicado a trabalhos abstratos, telas de 25
pintores, entre eles Paulo Pasta, Tomie Ohtake e Arcangelo Ianelli, foram
expostas não nas paredes, mas no chão da Galeria Itaú Cultural. Os visitantes,
por sua vez, aprovaram e gostaram dessa nova forma de se ver uma exposição – que
se trata da maior revolução de espaço e de cenário promovida no Brasil. A autora
da ousadia é a diretora de teatro Bia Lessa, duramente criticada e até ameaçada
de ser processada pelos expositores. Ela se explica: “Como as obras são muito
conhecidas, evitei colocá-las na parede porque seriam vistas em apenas 20
segundos. Na posição horizontal elas podem ser admiradas como se isso estivesse
acontecendo pela primeira vez.” Reações como essa são comuns na trajetória de
Bia, que recusa o título de cenógrafa – ela diz que o que faz é concepção
espacial. Vale lembrar que, quando Bia mergulhou santos barrocos num mar de
flores roxas e amarelas na Mostra do redescobrimento, a crítica alegou que o
efeito visual comprometia a visão das obras – embora também naquela ocasião o
público tenha aprovado a sua idéia. O fato é que hoje a busca de um visual de
forte impacto vai se impondo não apenas em exposições, mas também no teatro, em
óperas, musicais e até desfiles de moda. E é inegável que tais novidades seduzem
o público.

Sem desmerecer o excelente desempenho de Paulo Autran e
companheiros na peça O avarento, em cartaz em São Paulo, muito do sucesso dessa
encenação do espetáculo de Molière se deve ao criativo cenário de Daniela Thomas
que colocou senhores e criados franceses atuando diante, e às vezes dentro, de
caixas de madeira. “As pessoas estão cansadas de ter a mesma experiência e em
resposta a esse fastio você pode ter desde coisas chiquérrimas, como é o
trabalho da Bia, até coisas horríveis, que chamam a atenção apenas para o
decorativo”, diz Daniela, também responsável pela concepção espacial da
exposição do acervo da Tate Modern – com o mérito de que seus painéis com
orifícios empolgaram a curadora do prestigiado museu inglês. Decorativo ou não,
o efeito funciona. E é certo que, depois da polêmica dos quadros no chão, a
exposição teve a sua freqüência aumentada em mais de 500 pessoas no último final
de semana.


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