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Estado de São Paulo,https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-do-emprego/e-preciso-tirar-rotulo-de-que-mulher-nao-serve-para-exatas-diz-vp-da-pepsico/, 30/08/2020

‘É preciso tirar rótulo de que mulher não serve para exatas’, diz VP da PepsiCo

Mentora no programa Mulheres com Propósito, da PepsiCo, Flávia Schlesinger diz que é preciso encorajar time feminino a enxergar pontos fortes; ela é a primeira mulher a ocupar a vice-presidência de Finanças da empresa

Marina Dayrell

Em junho, Flávia Schlesinger se tornou a primeira mulher a ocupar a cadeira de vice-presidente de Finanças da PepsiCo Brasil. Com 46 anos de idade e 27 de carreira, ela faz parte das 44% de mulheres que estão em cargos de liderança na empresa. A meta é chegar a 50% até 2025.

Como forma de impulsionar o crescimento tanto de suas colaboradoras quanto do público externo, a PepsiCo possui diretrizes que vão desde os processos de recrutamento e de plano de carreira transparente até mentorias para o desenvolvimento econômico de mulheres que não fazem parte da organização.

Um deles é o Mulheres com Propósito, programa de educação, empregabilidade e empreendedorismo que oferece cursos com certificação para mulheres acima de 16 anos que desejam desenvolver as suas carreiras. Em uma extensão do programa, funcionárias da PepsiCo, de várias idades e cargos, dão mentorias para as selecionadas. Na última edição, que aconteceu no último mês, Flávia foi uma das 21 voluntárias.

“A gente se vê em um espelho. As angústias de ‘como vou lidar com tudo que eu tenho para fazer?’ Como a gente se questiona se tem capacidade de fazer algo diferente. Você se vê nesses questionamentos e, ao jogar luz nos pontos fortes da mentorada, vê o quanto é importante jogar luz nos seus próprios pontos fortes. Essa não é uma cultura na qual as mulheres são muito encorajadas. Temos que encorajá-las a abraçar os seus pontos fortes e ver quais são as suas oportunidades, entendendo que as vulnerabilidades existem até que a gente cresça e que não tem nada de errado em ser vulnerável”, destaca.

Por conta da pandemia, a capacitação do programa (com inscrições abertas até setembro) será de forma virtual. Enquanto lidera uma equipe de cerca de 500 pessoas a distância – a empresa está em home office desde março sem previsão de volta ao escritório presencial -, Flávia conta que, nos próximos passos de seu plano de carreira, a preocupação com o desenvolvimento das mulheres ocupa um lugar central.

“Hoje eu começo a me programar para olhar mais como eu posso contribuir para a inclusão e a maior diversidade das mulheres no mercado de trabalho, seja em cargos de liderança, ou em posições de conselho, que é um tema que tem sido discutido bastante no mundo corporativo”. Confira a seguir os principais pontos da entrevista.

Por que a PepsiCo investe no Mulheres com Propósito?

A gente atua no mercado de bens de consumo, então o consumidor é o nosso cerne.  Esse consumidor está inserido em uma sociedade e é papel da empresa entendê-la e contribuir com ela. O Mulheres com Propósito potencializa o empreendedorismo feminino e a carreira de mulheres e fazendo isso nós estamos contribuindo para uma sociedade melhor e economicamente mais sustentável. Existe um processo de seleção para as mentoras. São 21 voluntárias de diversas idades, cargos e experiências.

O processo é muito mais sobre o quanto você quer e pode estar disponível. Este ano eu finalmente consegui participar. Fiquei muito feliz porque eu sempre quis participar e nunca tinha conseguido. Pela primeira vez fizemos o programa virtualmente. Ele incentiva a mulher a buscar o lugar dela no mercado de trabalho ou a ser empreendedora. O foco é ampliar oportunidades no mercado de trabalho, abrir um negócio próprio, planejar a vida financeira e profissional.

Há sub representatividade de mulheres em cargos ligados às profissões de exatas. Como você vê esse impacto no mercado?

Quando eu comecei, a minha turma de trainee foi uma das primeiras da empresa em que eu trabalhei a ter metade do grupo de mulheres. Existiam pouquíssimas mulheres na empresa. Eu acho que nós conseguimos evoluir. Hoje, olhando para a minha equipe, nós temos 30% de mulheres e, na liderança, temos cerca de 40%. Hoje você tem várias mulheres na engenharia, na matemática, na tecnologia, mas ainda há o estereótipo. A falta de incentivo vem lá de trás, vai além da universidade. Vai muito para as possibilidades que a gente dá para as meninas.

Eu tenho uma filha e vi que existe um jogo americano chamado GoldieBlox que incentiva as meninas a brincarem e montarem carros e edifícios. Uma engenheira criou esse jogo porque ela ficou frustrada de se formar em engenharia e não achar no mercado jogos que incentivassem as meninas a desenvolver as suas habilidades matemáticas. Quando eu vi o brinquedo eu fiquei encantada porque realmente me ocorreu que, mesmo se eu olhar para o mercado brasileiro, tirando alguns poucos brinquedos, a gente não dá oportunidade para que as meninas saibam se elas gostam do STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Existe uma estereotipação, um rótulo.

Qual é o papel das empresas no sentido de diversificar e incluir as mulheres?

A responsabilidade das empresas passa muito por dar a possibilidade de mulheres estarem em funções de STEM. Não estereotipar que a mulher tem mais habilidade sociais do que técnicas. Eu, por exemplo, sou bastante tímida. Eu sou do mundo dos números. É preciso tirar esses rótulos na contratação e dar oportunidades para as mulheres nas funções de liderança para que elas também patrocinem mais a entrada de outras mulheres na empresa. E encorajar também os homens a terem o papel de incentivar as mulheres e a entrar nessa luta conosco. Sem estereotipá-los também. Tirar essa ideia de que o homem é quem fica trabalhando até mais tarde, o que não pode buscar o filho na escola.

Como foi assumir o cargo de VP no meio da pandemia?

A minha filha me perguntou esses dias: ‘Mãe, o que você faz?’ E eu falei assim para ela: ‘Olha, vou te explicar de uma forma bastante simples. Todos os salgadinhos que a Pepsico vende, nós recebemos dinheiro, e para fabricar esses salgadinhos nós também gastamos dinheiro. A função da mamãe é fazer essas duas contas darem lucro’ (ri).

Na PepsiCo, nós temos mil pessoas em home office e eu lidero 500 colaboradores. Já tínhamos uma política de flexibilidade antes da pandemia, então foi mais uma questão de redefinir os escopos e os recursos que a gente tinha em relação à tecnologia da informação e ergonomia. O time passou no nosso drive thru para pegar a cadeira e os equipamentos corretos.

O novo formato trouxe para a gente bastante produtividade. Óbvio que temos que ter todos os cuidados necessários para que as pessoas tenham um equilíbrio nos seus horários de trabalho, então trouxemos diversos programas de bem-estar, inclusive com eventos para filhos de funcionários para que eles pudessem se distrair nas férias. Houve um cuidado porque realmente você corre um risco de estender muito mais o seu horário de trabalho.

Então, tento equilibrar o meu tempo entre reuniões multidisciplinares voltadas para o negócio e os bate-papos com equipe, principalmente durante esse período. Não só relacionados a trabalho, mas para saber como as pessoas estão, do que estão precisando, porque a gente sente falta daquele momento do café.

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