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Folha de São Paulo, Poder, domingo, 13 de fevereiro de 2011 



ENTREVISTA
 JESSÉ
SOUZA 

É um erro falar que existe nova classe média no Brasil 



PARA SOCIÓLOGO, OS 30 MILHÕES QUE ASCENDERAM NA ERA LULA FORMAM UM GRUPO SOCIAL
DIFERENTE, DE “BATALHADORES

UIRÁ MACHADO, DE SÃO PAULO


Autor do livro “Os Batalhadores Brasileiros”, o sociólogo Jessé Souza afirma que
a ascensão social de 30 milhões de pessoas no governo Lula não produziu uma
“nova classe média”, mas uma classe social diferente, que ele chama
provocativamente de “batalhadores”. Assim como fizera em seu livro anterior,
Souza procura determinar as características dessa classe por um recorte
diferente do que ele chama de economicista e quantitativo, fugindo tanto de
análises pelo consumo e renda quanto de abordagens marxistas “unidimensionais”.
Abaixo, trechos da entrevista sobre a classe que, para ele, “parece se
constituir, com o resgate social da ralé, na questão social, econômica e
política mais importante do Brasil contemporâneo”.



Folha – Em seu livro “Os Batalhadores Brasileiros”, o senhor questiona a
afirmação de que o governo Lula alçou 30 milhões de pessoas à classe média e diz
até que se trata de uma mentira. Por quê? 



Jessé Souza –
 Não
nego que tenha havido a ascensão social de 30 milhões de brasileiros nem que
esse fato seja extremamente importante e digno de alegria. O que questiono é a
leitura dessa classe como uma classe média. A classe média é uma das classes
dominantes em sociedades como a brasileira porque é constituída pelo acesso
privilegiado a um recurso escasso de extrema importância: o capital cultural.
Seja sob forma de capital cultural técnico, como na “tropa de choque” do capital
(advogados, engenheiros, administradores, economistas etc.), seja pelo capital
cultural literário de professores, jornalistas, publicitários etc., esse tipo de
conhecimento é fundamental. Tanto a remuneração quanto o prestígio social
atrelados a esse tipo de trabalho são consideráveis. 



E os batalhadores? 


A vida deles é outra. É marcada pela ausência dos privilégios de nascimento que
caracterizam as classes médias e altas. Não falo só do dinheiro transmitido por
herança. Os privilégios envolvem também o recurso mais valioso das classes
médias: o tempo. 


Os batalhadores, em sua esmagadora maioria, precisam começar a trabalhar cedo e
estudam em escolas públicas de baixa qualidade. Eles compensam a falta do
capital cultural e econômico com esforço pessoal, dupla jornada e aceitação de
todo tipo de superexploração da mão de obra.


Essa é uma condução de vida típica das classes trabalhadoras, daí nossa hipótese
de trabalho desenvolvida no livro que nega e critica o conceito de “nova classe
média”. 



Como surgiu o nome dessa nova classe? 


Nesse estudo, o que impressionou foi o esforço de superação de condições
adversas. O título foi uma homenagem à luta cotidiana e silenciosa desses
brasileiros. O termo “batalhadores” sinaliza o fato de que o que perfaz o
cotidiano dessas pessoas é a necessidade de “matar um leão por dia” como forma
de vida de toda uma classe social que tem que lutar diariamente contra o peso da
própria origem. 



Quais são os valores dessa classe batalhadora? 


A principal diferença em relação aos excluídos e abandonados sociais é a
constituição de uma ética articulada do trabalho duro. 


Os batalhadores são quase sempre vindos de famílias pobres, mas bem
estruturadas, com os papéis de pais e filhos reciprocamente compreendidos,
exemplos de perseverança na família e estímulo consequente para o estudo e para
o trabalho.


Temos nas famílias dessa classe a incorporação da tríade disciplina,
autocontrole e pensamento prospectivo que sempre está pressuposta em qualquer
processo de aprendizado na escola e em qualquer trabalho produtivo. Sem
disciplina e autocontrole é impossível, por exemplo, concentrar-se na escola
-daí que os membros da ralé diziam repetidamente que “fitavam” o quadro negro
por horas sem aprender. 


Assim, ainda que falte a essa classe o acesso às formas mais valorizadas de
capital cultural -monopólio das “verdadeiras” classes médias-, não lhes falta
força de vontade, perseverança e confiança no futuro, apesar de todas as
dificuldades. 



Uma das características dos batalhadores parece ser a precariedade da situação
econômica e social. O que o governo pode fazer?


Eu acho fundamental o aprofundamento mais consequente tanto da política social
quanto de políticas de crédito e estímulo. 



A religião é mais importante para os batalhadores que para a classe média
tradicional? 


O tema da religião é tão importante para essa classe que dedicamos toda uma
parte do livro a essa temática. Mas é preciso cuidado, pois esse tema pode
servir para que se construa uma nuvem de preconceitos contra essa classe. É, sem
dúvida, correto que as religiões evangélicas -como, aliás, todas as religiões em
alguma medida- exigem o sacrifício do intelecto, o que, efetivamente, não ajuda
no exercício da tolerância nem no desenvolvimento das capacidades reflexivas dos
seres humanos. 


Em troca, no entanto, essas religiões oferecem o que a sociedade como um todo, o
Estado ou mesmo algumas das famílias menos estruturadas dessa classe jamais
deram a eles: confiança em si mesmos, autoestima, esperança e força de vontade
para vencer as enormes adversidades da vida sem privilégios de nascimento. 


Nesse sentido, tudo leva a crer que a religião seja mais importante para esses
setores do que para as classes médias estabelecidas, ainda que nunca tenhamos
feito nenhum estudo sistemático. 


E não apenas as religiões evangélicas, que são importantes especialmente nos
núcleos urbanos. Também a católica, no interior do Nordeste, ainda forte, cumpre
uma função fundamental de baluarte da solidariedade familiar e como fundamento
de uma ética do trabalho em muitos aspectos semelhantes à do protestantismo. 



A nova classe batalhadora faz surgir um novo tipo de preconceito no Brasil? 


Sim, basta olhar as revistas que analisam o padrão de consumo dessa classe sob a
égide da visão de mundo da classe média estabelecida. Ela aparece sempre como um
tanto vulgar e sem o “bom gosto” que caracterizaria os estratos superiores.



FOLHA.com 



Leia a íntegra da entrevista




folha.com.br/po874777



RAIO-X



JESSÉ SOUZA
 



FORMAÇÃO
 



Graduado em direito pela UnB, mestre em sociologia pela UnB, doutor em
sociologia pela Universidade de Heidelberg (Alemanha) e livre docente em
sociologia pela Universidade de Flensburg (Alemanha)



CARREIRA
 



Sociólogo, professor titular de sociologia da UFJF (Universidade Federal de Juiz
de Fora) e coordenador-geral do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade Social da
UFJF




OBRAS
 



Autor de “Os Batalhadores Brasileiros” e “A Ralé Brasileira”, entre outros
 


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