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http://revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2012/03/edward-glaeser-preservar-casinhas-e-insustentavel.html
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ENTREVISTA –
 
23/03/2012
16h29
 
Atualizado em
 26/03/2012
16h52

Edward Glaeser: “Preservar casinhas é insustentável”

Um entusiasta das metrópoles,
o economista de Harvard defende arranha-céus cada vez mais altos. Eles são
ecologicamente mais corretos e servem para baixar o preço dos imóveis

RODRIGO TURRER

O modelo de cidade para o economista americano
Edward Glaeser é Hong Kong. Basicamente porque cresce para cima, não para os
lados. Professor da Universidade Harvard, Glaeser, de 44 anos, é um entusiasta
das metrópoles verticais. Em seu livro Triumph
of the city
 (O
triunfo da cidade
, sem previsão de lançamento no Brasil), ele diz que os
prédios gigantes diminuem as emissões de carbono porque concentram a população e
reduzem os deslocamentos de casa para o trabalho, alargados quando as pessoas
vivem longe do centro. Em visita ao Brasil para participar do Arq.Futuro,
um seminário sobre arquitetura e urbanismo que acontecerá nesta semana no Rio de
Janeiro, Glaeser concedeu esta entrevista a ÉPOCA.

ÉPOCA – Por que as cidades são um
triunfo da humanidade?

Edward Glaeser – Ao
longo da história, as cidades permitiram que as pessoas alcançassem verdadeiros
milagres juntas. Permitiram que elas ficassem próximas, compartilhassem ideias,
aprendessem a trabalhar conjuntamente. As metrópoles foram e são cruciais para
gerar novas ideias, disseminar conhecimento e espalhar a prosperidade. Elas têm
enormes desvantagens: o estresse, a poluição, a violência. Mas essas
desvantagens não devem nos cegar para seu extraordinário papel na história. Se
compararmos todos os países do mundo, veremos que aqueles com uma urbanização
acima de 50% têm mais renda, melhor desenvolvimento humano e menor índice de
mortalidade infantil que os países com urbanização inferior a 50%.

ÉPOCA – O senhor defende os arranha-céus
e diz que quanto mais altos, melhor. Qual a lógica?

Glaeser – Para
progredir, uma cidade não pode ter restrições excessivas. Limitar alturas e
construções tem um custo alto. Construir para cima é uma maneira eficaz de
driblar a falta de espaço em nacos pequenos de terra. As pessoas ficam mais
próximas umas das outras, mais conectadas umas às outras. Isso possibilita que
as cidades fiquem mais acessíveis. E prédios mais altos e com mais capacidade
são a melhor coisa para o meio ambiente.

ÉPOCA – Por quê?

Glaeser – Uma
casa de uma só família num subúrbio americano (áreas
residenciais mais afastadas do centro, de classe média ou alta)
 consome
88% mais energia que um apartamento. Uso Hong Kong, na China, como modelo: é uma
cidade tão rica quanto as maiores dos Estados Unidos, mas tem emissões de
carbono radicalmente baixas porque se expande para cima, não para os lados. Não
adianta nada ter árvores plantadas no jardim se o impacto ambiental de sua
locomoção ao trabalho é enorme. Outra coisa: a construção de mais arranha-céus
reduz o preço dos imóveis, tanto comerciais quanto residenciais, porque aumenta
a oferta de apartamentos e escritórios. Como a quantidade é maior, amplia-se a
oferta de moradia.

ÉPOCA – Nas principais metrópoles do
Brasil, vivemos um momento de aumento de oferta de imóveis com preços muito
altos…

Glaeser – Hoje,
os preços dos imóveis estão em alta no mundo inteiro por causa da demanda.
Enquanto a demanda for alta e o crédito também, os preços continuarão subindo.
Não deve haver restrições a tamanhos de novos empreendimentos imobiliários.
Preservar vilas e casinhas e incentivar os subúrbios não é exatamente a maneira
ideal de evitar que o preço aumente. O excesso de restrições para a construção
torna uma cidade insustentável, porque ela continua crescendo para os lados.
Pior: torna as cidades excessivamente caras, porque todos querem morar nela, mas
apenas os mais ricos conseguem pagar os preços exorbitantes dos imóveis em
regiões centrais e privilegiadas. Vemos os custos de restrições excessivas não
apenas em países desenvolvidos, mas em lugares como Mumbai, que tem as leis mais
draconianas do mundo para a construção. As limitações excessivas levaram Mumbai
a ter um dos metros quadrados de aluguel e compra mais caros do mundo. A cidade
cresceu para os lados, facilitando o aumento de favelas no entorno. É claro que
o Brasil está com preços de imóveis exorbitantes. O país cresceu, sua economia
melhorou, a ascensão social fortaleceu a demanda. Mas pode ter certeza de que a
situação será ainda pior em relação aos preços se os governos limitarem as
construções.

ÉPOCA – Isso não favorece a especulação
imobiliária?

Glaeser – Sempre
há especulação imobiliária em cidades que estão crescendo. Isso é inevitável,
seja em Buffalo (Estados Unidos),
São Paulo ou Mumbai (Índia).
As cidades são, por excelência, o lar das desigualdades. Haverá sempre a cidade
dos ricos e a cidade dos pobres, não importa o que se faça. Não acho que uma
construção possa fazer uma cidade mais justa ou injusta. Uma construção tem,
sim, o poder de moderar os extremos de preços. Por isso, é importante fugir das
regulações. Se você comparar as cidades americanas que têm um regime de
construção mais liberal, como Chicago, Dallas ou Houston, verá que as diferenças
de preço dos imóveis não são tão brutais como as de cidades mais restritivas,
como San Francisco e Nova York.


Sou
cético em relação à herança de eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
O povo não pode se iludir com as promessas de investimentos mágicos "

ÉPOCA – A construção de novos prédios
implica destruir outros. Como preservar a história de uma cidade? O que dizer de
lugares como Roma ou Paris, que conservam seus patrimônios e não têm muitos
arranha-céus?

Glaeser – Roma
e Paris são espetaculares, centros culturais e financeiros vibrantes. Não há
nada de errado com elas. Preservar a história é fundamental. Os legados
culturais da humanidade não podem ser destruídos. Mas temos de ser cuidadosos.
Toda vez que dizemos “não” para uma nova construção que exige uma demolição
recusamos uma família que ajudaria no progresso de nossa cidade. Congelar
grandes parcelas da área urbana por decreto é matar a cidade. É preciso
equilibrar a preservação do passado com as necessidades do futuro.

ÉPOCA – O senhor descreve as favelas do
Rio de Janeiro como um sinal de “vitalidade urbana”. Já esteve numa favela?

Glaeser – (Risos.) Conheço
as favelas, já visitei o Brasil muitas vezes. Sempre digo que as cidades não
fazem as pessoas ficar pobres. Elas atraem os mais pobres com a promessa de
oportunidade econômica, de serviços sociais melhores. As favelas certamente não
são os melhores exemplos de sucesso de uma cidade. Representam uma falha de
planejamento do Poder Público. Mas não há futuro nenhum na pobreza rural. Por
isso, essas pessoas vão morar nas favelas. No livro, apresento dados que
comprovam as diferenças de renda e de gastos de famílias que vivem em favelas e
áreas rurais. A receita dessas famílias, mesmo nas favelas, compensa a
precariedade de sua moradia.

ÉPOCA – Que outras cidades brasileiras o
senhor conhece?

Glaeser – Conheço
bem suas principais capitais, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro. As duas
cidades são espetaculares e muito diferentes. Sou fã de ambas. O potencial
brasileiro para o futuro está em suas grandes cidades, que concentram pessoas
altamente criativas, empreendedoras e capazes. Todas têm enormes desafios
sociais. A segurança é um problema sério, além do transporte e da poluição. É
necessário que haja políticas públicas e planejamento de longo prazo para
solucionar isso tudo.

ÉPOCA – A Copa do Mundo e a Olimpíada no
Brasil são boas oportunidades para o governo investir nessas áreas?

Glaeser – Como
economista, sou muito cético em relação à herança deixada por eventos
gigantescos como esses. Fico preocupado com os exageros dos governantes em
querer mostrar um país diferente do que realmente é. Os benefícios são inúmeros,
é verdade: a exposição internacional, o crescimento do turismo. Mas é preciso
ser realista. O povo não pode se iludir com as promessas de investimentos
mágicos que, segundo os políticos, mudarão tudo. É preciso investir naquilo de
que a população precisa.

ÉPOCA – No Brasil, os mais pobres
geralmente são empurrados para as bordas das cidades, formando um cinturão na
periferia. Alguns ricos procuram casas de alto padrão em bairros também
afastados do centro. E o trânsito caótico dificulta a locomoção casa-trabalho
para ambos. Qual seria a solução?

Glaeser – Congestionamento
é um problema complexo. Requer uma difícil solução que combine investimento em
transporte público, principalmente Veículo Leve sobre Trilhos (VLT),
e restrição severa em espaços urbanos excessivamente concentrados. Um dado
estatístico comprova que, para cada quilômetro de via construída, o número de
veículos que a ocupa aumenta de forma correspondente. O rodízio é eficaz, mas
não basta. O pedágio urbano é uma boa alternativa. Cingapura e Londres fazem
isso, e funciona. Mas é preciso haver um sistema de transporte público eficaz.

ÉPOCA – Com tecnologias de informação e
comunicação cada vez mais acessíveis e baratas, o papel das cidades não tende a
diminuir? As pessoas não poderiam morar em lugares mais tranquilos?

Glaeser – Isso
poderia ser verdade há uns 30 anos. Nos anos 1980, muitos especialistas previam
que as pessoas se retirariam das cidades para ir morar nos subúrbios, e as
cidades seriam apenas depositórios de escritórios. A tecnologia permitiu às
pessoas estar conectadas on-line, mas elas querem também se encontrar
fisicamente. O Vale do Silício é um exemplo disso. Aquela região da Califórnia
cresceu drasticamente não apenas porque empresas de tecnologia se concentraram
lá, mas porque os jovens que trabalhavam nessas empresas quiseram estar juntos
também, nas mesmas cidades. A razão pela qual o avanço da internet e a
globalização fizeram e continuam fazendo as cidades crescer é que somos, acima
de tudo, uma espécie social. Queremos estar juntos e ficamos mais inteligentes
quando estamos ao lado de outras pessoas.


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