Portal UOL, Do Gamehall,  https://jogos.uol.com.br/ultimas-noticias/2017/05/23/eles-sao-pagos-para-jogar-videogame-mas-odeiam-essa-vida.htm, São Paulo, 23/05/2017 10h41

Eles são pagos para jogar videogame, mas odeiam essa vida

 Já pensou em jogar “GTA” 80 horas por semana? Não é tão divertido quanto parece

Victor Ferreira

 À primeira vista, a ideia de ganhar a vida jogando videogame pode parecer tentadora, seja para quem queira ingressar realmente na parte profissional da indústria ou simplesmente porque acha ser um trabalho simples e sem stress.

O Twitch e o YouTube oferecem algo neste sentido, mas as chances de retorno financeiro são bem baixas, e há até possíveis riscos de saúde por uma vida tão sedentária. Outra possibilidade é a de cobertura profissional da indústria – basicamente o que UOL Jogos faz.

(Spoilers: a carreira envolve menos jogar videogames e mais pesquisa, entrevistas e elaboração de textos até altas horas da noite)

Mais uma alternativa, bem mais comum em países como EUA, Canadá, Reino Unido e lugares com uma indústria de jogos mais robusta, é tentar sua sorte como QA (de “Quality Assurance”, ou Controle de Qualidade), um emprego que, em certos casos, pode levar a uma carreira dentro de um grande estúdio.

Como o próprio nome indica, QAs tem como objetivo garantir que o jogo saia com o maior polimento possível, o que significa que os funcionários devem ficar testando diversas versões à procura de bugs e outros problemas.

Há um porém: este emprego pode rapidamente virar um inferno.

“Quando alguém pergunta se é divertido testar games, eles geralmente não imaginam jogar mais 1.500 níveis de ‘Gauntlet II”, diz um depoimento no site “The Trenches”, que de 2011 a 2015 relatou histórias de horror ou simplesmente bizarras de quem já trabalhou neste setor da indústria ou em empregos parecidos.

Por ter como objetivo encontrar problemas que possam afetar a experiência e divertimento do consumidor comum, QAs precisam passar horas e mais horas explorando as mesmas partes de uma versão conceitual do game, fazendo e combinando ações que podem fazer com que o personagem atravesse o ambiente, o jogo trave, e em casos extremos façam até com que o videogame ou computador pare de funcionar – relatando todas estas falhas à equipe de produção.

“O que mais me lembro foi aprender a diferença entre testar e jogar um jogo”, diz outra declaração. “Eu normalmente não sento para jogar um game de beisebol e fico empatando por 99 innings para saber se ele vai pirar se chegar a 100.”

“Você aprende a odiar todos os jogos que testou (com algumas pequenas exceções). Você vai dormir pensando neles, acorda pensando neles e até tem sonhos com eles. Horas são passadas em salas sem janelas com pouca ventilação.”

“Eu testei por dois anos e meio e parei para trabalhar em construção”, diz um comentário na rede social reddit. “Construção era bem melhor e me deu mais satisfação como emprego do que qualquer coisa de QA.”

Assim como em outros setores da indústria de games, o trabalho pode ser intenso, podendo chegar a até a 80 horas semanais em fase de “crunch” (quando o desenvolvimento do jogo deve ser acelerado para que seja entregue no prazo).

Ah, e é bem possível que vários dos bugs verificados (mesmo que tragam problemas) não sejam corrigidos antes do lançamento do jogo.

Tim Schafer, designer de jogos como “Full Throtle” e “Psychonauts”, começou a carreira como game tester da futura LucasArtsImagem: Reprodução

 Subindo de vida

Com todas estas reclamações, quais são os benefícios de se trabalhar como QA de games?

A maior motivação destes trabalhadores é por ser justamente uma das grandes portas para trabalhar como desenvolvedor na indústria de games.

Um dos casos mais famosos é o de Tim Schafer, que foi de game tester para a LucasFilm Games até criar clássicos como “Full Throtle”, “Grim Fandango”, chegando até a fundar seu próprio estúdio, o Double Fine.

“A maior parte dos meus amigos que seguiram para fazer grandes coisas na indústria de games são pessoas que começaram comigo na área de QA muitos anos atrás”, disse o ex-tester Jermaine Davis, em entrevista com o site IGN. “Acredito verdadeiramente que QA é o melhor ponto de entrada na indústria.”

Ainda assim, o tamanho desta entrada depende especificamente de onde você arranjar um trabalho como testador de games. Quem trabalhar em empresas terceirizadas, por exemplo, terá uma chance muito menor de progredir na indústria do que alguém que já trabalha para um grande estúdio ou publisher, como a Rockstar e a Electronic Arts.

Mesmo assim, algumas pessoas podem passar anos como QA sem nunca seguir carreira como desenvolvedor, e os riscos de ser demitido ainda são constantes. E, ao contrário de outros setores de indústrias de tecnologia, estes funcionários são pouco respeitados por membros da própria equipe de desenvolvimento, que além de ignorar os problemas e erros do software por vezes também se sentem insultados ao receberem avaliações sobre a qualidade do jogo.

Sem falar que, ao menos nos EUA, os salários não são muito bons, variando de US$ 18 mil a US$ 55 mil – ou R$ 58 mil a R$ 179,5 mil – por ano,dependendo do seu cargo e experiência, e em geral sem benefícios como plano de saúde ou hora extra mesmo no ápice dos “crunches”.

Ainda assim, o trabalho de Controle de Qualidade é extremamente importante para que um jogo dê certo, e várias pessoas conseguiram fazer carreira por meio desta área. Mas engana-se quem acha que o trabalho consiste basicamente em só ficar sentado e se divertindo com um game.

 


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