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UOL EDUCAÇÃO – 25/10/2015 – SÃO PAULO, SP

Enem: A meritocracia e outras fábulas para ninar adultos

LEONARDO SAKAMOTO

Passando perto de um
local de realização do Enem, neste sábado, parei um pouco para ver o pessoal que
seguia, cheio de pensamentos, para as salas de prova. Perto de mim, dois pais
conversavam sobre o futuro de suas filhas e, claro, sobre o país. Não consigo
reproduzir exatamente as palavras, mas a conversa foi mais ou menos esta:

– Nunca poupamos
investimento na minha família para a educação. Educação sempre em primeiro
lugar. A Paulinha, desde cedo, frequentou os melhores colégios, teve todos os
livros que pediu, viajou para fora para ampliar a cultura…

– Se o Brasil fosse
justo, um lugar em que o mérito fosse levado a sério, nossas filhas estariam com
vaga garantida. Mas essas cotas distorcem tudo.

– É. Acaba entrando quem
não merece, quem não se esforçou o bastante.

Sempre acho que essas
coisas são pegadinha. Olho em volta, procuro câmeras escondidas, fico esperando
surgir o Sérgio Mallandro e gritar “Rá! Te peguei!“. Mas, não. Ele nunca
aparece.

Deu até vontade de,
educadamente, perguntar se eles acreditam mesmo que a meritocracia é
hereditária. E se crêem que suas filhas saíram do mesmo ponto de partida que
outras pessoas às quais foram negadas todas as condições para poderem conseguir
o melhor de si.

Pois, desse ponto de
vista, quem tem o mérito maior: quem saiu do zero e, apesar das adversidades,
conseguiu estar na média ou quem sempre teve todos os recursos à mão, mas
avançou muito pouco, ficando um pouco acima da média?

Pois, se por um lado, as
cotas garantem um acréscimo de condições para o candidato pobre, negro e/ou
indígena, por outro a desigualdade social garante um acréscimo de condições para
os candidatos mais ricos.

Contudo, reclamar do
primeiro é “justiça“ e, do segundo, “inveja“.

A “meritocracia“
funciona em um debate como um coringa num jogo de buraco: quando falta carta
para bater, ela aparece para salvar uma sequência incompleta. Não fica lá a
coisa mais bonita do mundo, mas resolve sua vida porque todo mundo aceita que
aquela carta pode preencher um vazio de sentido.

Não sou contra que
competência e experiência individuais sejam parâmetros de avaliação. Mas muitas
vezes não é o “mérito“ que está sendo avaliado em um contexto que desconsidera
fatores externos. Além do mais, uma coisa é o mérito em si e, outra, um sistema
de poder criado em torno dele como justificativa para manutenção do status quo.

O problema é que o uso
dessa palavra como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas
não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas
individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente,
outros bem atrás.

Há muita gente contrária
a conceder benefícios para tentar equalizar as condições de quem recebeu menos
sorrisos da sorte. Acreditam que a única forma de garantir Justiça é tratar
desiguais como iguais e aguardar que as forças do universo façam o resto.

E esse discurso é tão
bem contado que, não raro, são apoiados por pessoas que, apesar de largarem em
desvantagem, venceram. “Tive uma infância muito pobre e venci mesmo assim. Se
pude, todos podem.“ Parabéns para você. Mas ao invés de pensar que todos têm
que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um
mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso?

Espero que ambas as
filhas tenham ido bem no exame, se tiverem se dedicado para isso, claro. Mas,
olhando como não conseguimos compreender os outros, pensamos primeiro em nossos
umbigos e consideramos que sucesso diz respeito apenas ao esforço individual,
penso que falta muito para deixarmos de ser uma espécie com tamanho nível de
mesquinharia.


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