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BBC BRASIL – UOL EDUCAÇÃO -10/06/2018 – SÃO PAULO, SP



Famílias brasileiras apostam em esporte desde cedo para emplacar filhos em
universidades dos EUA



ADRIANA STOCK


Rani Jordão Ganime, 10 anos, acorda antes do amanhecer. Toma o café da manhã, às
vezes mesmo sem fome, e parte de carro com o pai, na Ilha do Governador, para a
sede do Flamengo, na Gávea, Rio de Janeiro, onde integra a equipe de natação do
clube. De segunda a sábado, inclusive feriados, salta às 7h na piscina a céu
aberto para um treino de uma hora e meia – mesmo quando a temperatura cai no
inverno e a água não está nada quentinha.


A disposição para a rotina puxada vem do sonho de um dia participar de uma
Olimpíada e de que o esporte lhe proporcione a oportunidade de estudar em uma
universidade americana.


`Meus pais falam muito comigo. Dizem que, se eu me esforçar muito, vou conseguir
uma bolsa de estudos lá nos Estados Unidos. É um sonho deles e meu`, diz a
atleta mirim, que trocou o jiu-jitsu pela natação porque o primeiro não lhe
garantiria chances de estudar fora por ainda não ser uma modalidade olímpica e
disputada na liga universitária americana.


Assim como Rani, muitas crianças estão se dedicando ao esporte desde cedo com o
objetivo de cursar o ensino superior fora do Brasil.


Escolinhas de futebol, tênis ou natação que antes recebiam apenas meninos e
meninas interessados em aprender os fundamentos da modalidade e se divertir,
agora são procuradas por famílias que planejam investir no esporte como uma
forma de seus filhos estudarem no exterior no futuro.


Esses pequenos atletas querem, acima de tudo, ter a chance de continuar
praticando esporte, mas sem descuidar da educação.


`Eu queria estudar numa universidade boa, mas também queria continuar nadando. O
único lugar para fazer isso era nos Estados Unidos. Infelizmente aqui no Brasil
não tem como: ou você nada ou você estuda. É impossível fazer os dois bem feitos
ao mesmo tempo`, diz a paulista Sofia Sigrist, nadadora do Pinheiros, de São
Paulo, que neste ano ingressa na Universidade de Nova York.


Portfólio atlético


Humberto Badolato, empresário e professor da escolinha de futebol da academia
Bodytech, no Rio de Janeiro, conta que muitos pais o procuram para saber qual o
melhor caminho para estudar lá fora por meio do futebol.


`Alguns me pedem treino personalizado com o objetivo de já ir aperfeiçoando a
técnica das crianças. Eles sabem que meu próprio filho está se preparando para
entrar em uma universidade americana. Só que ele quer a Ivy League (grupo
formado por oito das universidades mais prestigiadas dos Estados Unidos e que
não concede bolsas para atletas)`, conta.


Para Rita Moriconi, coordenadora do Education USA no Cone Sul, os pais estão
certos em despertar esse interesse na infância.


`O esporte sempre ajuda no processo de admissão. Tanto para o aluno atleta, que
vai aplicar para uma bolsa atlética, como também para aquele aluno que não
compete, mas que se sentiria bem indo para uma universidade em que ele tenha
possibilidade de jogar ou nadar, por exemplo`, afirma a educadora.


Filiado ao Departamento de Estado dos EUA, o Education USA tem 35 escritórios no
Brasil e auxilia gratuitamente os candidatos na escolha entre as 4,7 mil
universidades americanas, além de prestar assistência no processo de seleção
(que inclui a apresentação de uma espécie de dossiê com documentação, histórico
escolar, notas de exames SAT/TOEFL e redações).


Uma das dicas de Moriconi é começar a fazer um portfólio atlético desde o início
com fotos e vídeos. `Eles também devem procurar o Education USA quando chegar ao
nono ano do ensino fundamental, uns três ou quatro anos antes de fazer o
application (se inscrever)`, recomenda.


Também é preciso ficar atento às notas da escola desde o ensino fundamental. `Se
você tiver um histórico escolar ruim, vai pesar muito na decisão de admissão.
Eles querem ver uma consistência nas notas e, de preferência, em todas as
matérias`, ressalta Mateus Rabello Benarrós, da empresa de assessoria Apply, com
sede em Manaus.


Na última década, o número de brasileiros inscritos em universidades dos Estados
Unidos aumentou 79,3%, segundo dados do Instituto de Educação Internacional (IIE,
na sigla em inglês). O Brasil escalou seis posições e ocupa o décimo lugar no
ranking dos países com o maior número de alunos estrangeiros cursando ensino
superior no país.


Em 2017, eram 6.310 alunos brasileiros de graduação concentrados nos Estados da
Califórnia, Florida, Nova York, Massachusetts e Texas. Desse total, 584, ou
8,35%, tinham bolsa-atleta nas Divisões 1 e 2 da National Collegiate Athletic
Association (NCAA, na sigla em inglês), a associação da liga universitária
americana. Anualmente, são concedidos US$ 3 bilhões em bolsas-atléticas. As
bolsas por mérito acadêmico somam US$ 11 bilhões.


A ajuda geralmente inclui a mensalidade da faculdade, moradia, alimentação,
material e seguro saúde. O valor a ser recebido varia e depende da performance
do atleta, do quanto necessitam sua posição na equipe e da modalidade.


Modalidades


Entre os brasileiros, as modalidades com maior número de atletas com bolsas são
futebol, natação e tênis.


Os pais de Raquel, de 9 anos, e Luiza, de 7, investem no tênis, um esporte já
praticado pelo casal. Desde os cinco anos de idade as meninas fazem aulas
particulares e, atualmente, frequentam uma academia especializada três vezes por
semana para aperfeiçoar a técnica nas quadras. O custo mensal da aula é de R$
550 por criança.


`Os planos são de que elas ingressem numa universidade dos Estados Unidos com
bolsa de estudos para quem tem bom desempenho no esporte. Os custos de uma
universidade americana são altos e nós temos duas filhas, o que faz com que o
valor dobre anualmente. Eles oferecem bolsas com descontos gradativos, conforme
o desempenho`, conta a carioca Débora Almeida, mãe das meninas.


No Rio Grande do Sul, Vicente, de 11 anos, e Pedro, de 12, competem pelo Clube
Leopoldina Juvenil e colecionam medalhas em torneios estaduais.


`Durante umas férias, fomos assistir ao Rio Open e lá os meninos realmente se
apaixonaram pelo esporte. Pediram para treinar mais e para competir`, conta a
mãe Rosane Menezes Freda. `Nós não temos planos concretos para eles. Mas, após
participar do meio competitivo, ficamos mais atentos a esta possibilidade de
estudar fora. Eles falam que querem`, diz.


No futebol, ocorre de muitas crianças e adolescentes terem o talento para entrar
em uma instituição de ensino nos Estados Unidos, mas barram na dificuldade
financeira. As famílias não conseguem arcar com todos os custos preparatórios,
como curso de inglês e assessoria para o processo seletivo – muito menos
apresentar um saldo bancário na hora do visto para provar que podem sustentar o
filho ou a filha no país, necessário mesmo que eles tenham bolsa de estudo.


`Eles não conseguem pagar nem a passagem. Normalmente, são os melhores
jogadores. Uma vez por ano convido um treinador de uma universidade dos Estados
Unidos para fazer um camping e chamou uns atletas de baixa renda. Os treinadores
se apaixonam tecnicamente por eles, oferecem bolsa integral mas e a passagem, o
visto de estudante e o extrato bancário?`, questiona Amaury Nunes, ex-jogador
profissional que, em 2008, montou a A10, empresa de intercâmbio esportivo.


`Se tivéssemos uma empresa financiando isso, patrocinando um atleta, certamente
conseguiríamos mandar alunos de um perfil mais humilde`, diz Nunes, que
atualmente procura uma parceria pública ou privada para levar pelo menos dez
alunos de baixa renda entre os 100 que manda anualmente para o exterior.


São, portanto, famílias de classe média e classe média alta que procuram a A10
para encaminhar os filhos para fora do país. Os treinos e o curso de inglês saem
por R$ 500 mensais. A assessoria para o processo de seleção e o encaixe em uma
universidade custam R$ 10 mil, com a garantia de conseguir uma vaga para o
aluno.


Nunes se formou nos Estados Unidos com bolsa-atleta e atuou profissionalmente no
país. Enquanto jogava na liga universitária, os técnicos seguidamente lhe pediam
indicações de atletas e assim começou a buscar candidatos no Brasil.


`Existe muita demanda em ambos os lados. Aqui fazemos seletivas nas dez unidades
que temos no Brasil`, diz ele. `Começamos a crescer muito principalmente quando
veio a crise no Brasil. Os pais queriam dar uma oportunidade para os filhos de
estudar. Aqui as universidades estavam em greve o tempo inteiro e as
particulares eram muito caras. Hoje em dia, o aluno com bolsa nos Estados Unidos
paga o mesmo que aqui ou até menos e ainda joga e estuda.`


Desempenho


A performance é outro fator importante para conseguir uma bolsa-atleta. Isso não
significa, no entanto, que apenas aqueles com índices olímpicos podem ser
contemplados.


É o que diz a nadadora carioca Beatriz Olivieri, de 18 anos, que ingressa neste
ano no Rollins College, na Florida, com todos os custos cobertos por duas
bolsas, uma atlética e outra acadêmica.


`Às vezes a gente tem a ideia de que é uma coisa muito difícil. Que para
conseguir você precisa um índice muito forte, tem que ser um recordista
brasileiro, mas na verdade não. Lá existem várias faculdades e eles procuram
perfis diferentes. Você vai achar uma universidade que seja compatível como seu
perfil`, diz a nadadora da equipe do Flamengo, federada desde os dez anos de
idade.


Alguns atletas que se destacam, no entanto, atraem o interesse dos técnicos
americanos. Há casos em que a universidade chega até o aluno.


Foi o que aconteceu com Diego Uchôa, ex-nadador da seleção brasileira e atual
treinador da equipe categoria Petiz do Flamengo.


`Em 2010, eu estava me formando na Unisanta (na cidade paulista de Santos) e uma
universidade dos Estados Unidos me ofereceu uma bolsa integral. O treinador
precisava de um nadador de peito, que era a minha especialidade. Mas, naquele
momento, meus planos eram outros e fui treinar no Minas`, diz Uchôa.


Victoria Chamorro, praticante de esporte desde os seis anos de idade, atraiu a
atenção de um olheiro enquanto participava de um campeonato nos Estados Unidos
pela seleção brasileira de polo aquático, na qual entrou com apenas 16 anos na
posição de goleira.


Em 2014, recebeu o telefonema do técnico da Universidade do Sul da Califórnia,
de Los Angeles. Ele precisava de uma goleira na equipe. Ela aceitou o convite e,
em 2018, se forma em economia – ao mesmo tempo em que foi campeã nacional da
liga universitária americana e participou das Olimpíadas do Rio.


`O esporte foi o que basicamente me trouxe aqui, me deu um diploma universitário
numa das melhores universidades do mundo em termos acadêmicos`, diz a atleta.


`Pretendo ficar mais um ano nos Estados Unidos trabalhando, com o visto de OPT
(que permite estudantes internacionais a ganhar experiência de trabalho) ou ir
jogar profissionalmente na Europa ou Austrália até os Jogos Olímpicos de Tóquio.
Em 2020 estarei completando 24 anos, então ainda estou bem jovem, o que me dá
mais tempo como atleta. Tenho um tempo para decidir, e, graças a Deus, tenho
opções proporcionadas pelo meu diploma.`

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