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Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,lifelong-learning-aprender-sempre-e-chave-para-o-profissional-do-futuro,1132808, 21/11/2020

LIFELONG LEARNING: APRENDER SEMPRE É CHAVE PARA O PROFISSIONAL DO FUTURO

Transformação do mercado de trabalho e longevidade inspiram cursos mais flexíveis para atender às novas jornadas de aprendizagem e educação continuada

Texto: Nathalia Molina e Fernando Victorino, especiais para o Estadão / Ilustrações: Marcos Müller

Você é o que você é em tudo o que você faz. E isso vai se modificando ao longo da vida. Diante do aumento da longevidade e das mudanças velozes do mundo do trabalho, surge a necessidade de um novo mindset. Aquela mentalidade de que, à medida que envelhecemos, aprendemos menos deve ser superada, sugerem os especialistas. Lifelong learning, ou aprendizado contínuo, faz bem para o lado profissional e também para o pessoal.

“Existe uma dificuldade que é conciliar os desafios de longo prazo das empresas com a possibilidade de as pessoas serem autoras de sua jornada de aprendizagem. As organizações tendem a fazer o top-down, de cima para baixo, como quem tem o controle do processo”, diz o jornalista e escritor Alexandre Teixeira. “A arte da aprendizagem corporativa contemporânea está em combinar essas duas necessidades.”

Teixeira escreve sobre aprendizado contínuo em Aprendiz Ágil: Lifelong Learning, Subversão Criativa e Outros Segredos para se Manter Relevante na Era das Máquinas Inteligentes, seu mais recente livro, publicado em parceria com Clara Cecchini. O especialista participou da série de entrevistas ao vivo do projeto Sua Carreira. Confira um trecho neste vídeo e detalhes da entrevista no fim desta página.

Alinhada à ideia de o profissional decidir o que estudar conforme seu momento, a Saint Paul Escola de Negócios mantém o LIT, que usa a tecnologia de inteligência artificial IBM Watson para permitir que cada pessoa personalize sua jornada com as dicas do tutor Paul. São 150 cursos e 10 trilhas de MBA, com assinatura mensal a partir de R$ 112,50, no plano anual – até o dia 24 de novembro, o LIT tem valores especiais de Black Friday, com 60% de desconto.

“Na Saint Paul, temos em torno de 10 mil alunos por ano. Pensando em um Brasil de 210 milhões de pessoas, nos pareceu que deveríamos fazer mais”, afirma José Claudio Securato, CEO da Saint Paul Escola de Negócios e idealizador do LIT. “Estamos democratizando a educação de qualidade a preços competitivos.”

De acordo com Securato, a ideia é que o aluno seja o protagonista do aprendizado. “Essa é uma necessidade em um mundo cada vez mais complexo e incerto, e também a base para as competências do futuro, que exigem aprendizagem ao longo da vida.”

Agora em dezembro, Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) vai lançar uma plataforma de pós-graduação com centenas de cursos. “Cada disciplina da nossa pós dá direito a um badge (selo de comprovação digital). Serão 300 opções de caminhos. E esses badges vão automaticamente para o currículo do aluno no LinkedIn”, explica Tatsuo Iwata, diretor da pós-graduação da ESPM. “Abrir disciplina de pós para curso livre não é novidade, a própria ESPM faz. O que vai mudar é a forma de aquisição e reconhecimento dos cursos.”

Iwata, da ESPM: instituição vai lançar em dezembro plataforma de pós com centenas de cursos

Na primeira fase do projeto, entre 100 e 200 disciplinas serão oferecidas. O aluno tem liberdade para se ater a um campo de atuação ou mudar de área conforme sentir necessidade em seu momento de carreira.

“Depois da pandemia, não sei em que velocidade o comportamento dos profissionais em relação à escolha de cursos vai se alterar. A gente pensou, então, em montar uma plataforma de educação, pronta e flexível para acompanhar a mudança.” Como o conhecimento é perecível – competências adquiridas hoje podem não valer mais em dois anos –, Iwata diz que espera-se que os profissionais deem preferência a cursos mais curtos.

Para Paulo Lemos, diretor de Educação Executiva da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), a educação continuada é necessária para não ficar para trás no mundo corporativo. “À medida que o profissional vai subindo em uma organização, tem conhecimentos demandados”, afirma. “Lançamos no fim de 2019, o MBA Personalizado em Gestão. Normalmente, os MBAs são montados visando um público alvo específico, como finanças ou empresarial. Com um pacote totalmente aberto, o interessado vai ter uma análise da carreira para definir o que cursar. A partir daí, decola.”

‘À medida que o profissional vai subindo em uma organização, tem conhecimentos demandados’, diz LemosPITI REALI/FGV/DIVULGAÇÃO

Em uma sociedade em rápida evolução, a pessoa desempenha diferentes carreiras ao longo da vida, diz Maristela Vieira, coordenadora pedagógica de Educação Continuada da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). “Não tem mais aquilo de se formar em administração e para o resto da vida fazer a mesma coisa. O indivíduo vai precisar se atualizar ou vai querer estudar por prazer. Aqui temos muitos médicos, por exemplo, fazendo especialização em filosofia.”

De cursos livres a opções de pós, a PUC-RS investe em programas de ensino a distância, muitos com nomes conhecidos entre os convidados, como o historiador Leandro Karnal, colunista do Estadão. Ele e André Duhá, coordenador-geral de MBAs e especializações da instituição, estão à frente de Mentalidade do Desenvolvimento Contínuo, uma das quatro propostas de aulas livres remotas da universidade. “A nossa maior concentração de alunos é online, e a maioria é da capital paulista”, conta Maristela. “O EAD demanda organização e autonomia, competências exigidas do profissional do século 21.”

‘O indivíduo vai precisar se atualizar ou vai querer estudar por prazer’

Maristela Vieira, coordenadora pedagógica de Educação Continuada da PUC-RS

Plataformas profissionais e de atividades extracurriculares apresentam várias oportunidades de aprendizado de habilidades, tanto técnicas quanto socioemocionais. O aplicativo da Casa do Saber tem 135 cursos, com neurociência e conhecimento geral entre os assuntos. A série Grandes Questões da Humanidade, com o escritor Clóvis de Barros Filho, analisa aspectos da sociologia e filosofia, abordando temas relacionados a valores sociais, religião e justiça.

Quem tem LinkedIn Premium conta com acesso gratuito aos cursos da área Learning. A cada programa concluído, o certificado pode ser adicionado ao perfil da pessoa na rede social. Dos cerca de 16 mil cursos, em torno de 200 são em português. LinkedIn e Microsoft fizeram uma parceria para alcançar 25 milhões de pessoas no mundo até o fim de março de 2021 – cerca de 13 milhões já acessaram os conteúdos nos últimos três meses. No Brasil, com base nas profissões mais demandadas e nas soft e hard skills mais desejadas no mercado, as nove rotas de aprendizagem se desdobram em 96 cursos em português.

LONGEVIDADE E MERCADO DE TRABALHO

Transformar a longevidade em recurso humano melhor aproveitado em meio à quarta revolução industrial é o desafio de países como o Brasil, alerta o médico Alexandre Kalache, ex-diretor do Departamento de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), fundador e presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC). “O maior bem de qualquer país são as pessoas”, afirma. “Hoje, temos 14% da população com mais de 60 anos. Nós teremos inversão da pirâmide, com 31% de idosos em 2050. Esse é o material humano que vai ter de fazer com que o País arranque. Não vamos ter jovens para isso.”

Kalache explica mais no vídeo abaixo e na entrevista que você lê no fim desta página.

Para o especialista em envelhecimento, tornar-se viável para o mercado de trabalho passa pela aprendizagem constante. “Você tem três revoluções em paralelo: da longevidade, a quarta revolução industrial e falta a da educação, para quebrar esse paradigma e fazer as pessoas a aprenderem a aprender, sempre no contexto do seu dia a dia.”

Paula Braga, coach há nove anos e autora do blog MBA de A a Z no Estadão, lembra que uma das quebras de paradigma provocadas pelo conceito de lifelong learning é que o saber não está apenas nos meios acadêmicos. “Esse é o ponto: encontrar valor naquilo que está fazendo. Bater papo com amigos pode ser aprender, principalmente quando você tem amigos fora de uma mesma bolha.” Mas ela recomenda que o profissional desfrute da jornada, em vez de focar apenas no resultado final. “Ver tudo como oportunidade de aprendizado é o viés de olhar a vida.”

ENTREVISTA
ALEXANDRE TEIXEIRA – JORNALISTA E ESCRITOR

‘Ninguém está formado: é preciso aprender sempre’

‘O indivíduo tem um papel importante de autoria no seu processo de aprendizagem’, diz Teixeira

A forma como fomos criados para entender a aprendizagem já não vale mais. Não se trata de estudar para seguir um só caminho, percorrer uma trajetória dada. Hoje, ninguém está formado porque o aprendizado é perecível. Entenda melhor com Alexandre Teixeira, jornalista, escritor e expert em lifelong learning.

  • O conceito de lifelong learning está estruturado dentro das empresas?

Nas boas empresas, se nós olharmos as maiores e melhores, em alguma medida existe essa ideia bem estruturada. Porém, talvez de um jeito um pouco antiquado, que peça uma reinvenção. Essa reinvenção que eu estou sugerindo envolve um desafio grande que é ou conciliar os desafios e as necessidades de longo prazo das organizações ou a possibilidade de as pessoas serem autoras da sua jornada de aprendizagem. As empresas tendem a fazer não só top-down, de cima para baixo, como têm um peso muito grande no controle do processo de aprendizagem dos seus funcionários. Elas criam esse programa de cursos, não consultam as pessoas para saber se isso está adequado para elas, se isso é instigante para elas, e aí cobram que haja presença, se o curso for presencial, ou que se assista a um número xis de aulas ou de vídeos até o fim. Existem mecanismos e métricas para verificar se as pessoas cumpriram cada passo dessa trilha. Na prática isso funciona mal. Em geral, a gente sabe que quanto mais imposto, mais desinteressadas as pessoas ficam.

  • Ou seja, aprender o que você gosta do jeito que você gosta é bem melhor?

Simples de falar, difícil de fazer. Se você está pensando na aprendizagem corporativa, você está falando de desenvolver habilidades que sejam úteis para a empresa. Aí tem esse desafio que estou mencionando: como eu concilio essa necessidade real e legítima das organizações com a necessidade que todos nós, enquanto indivíduos, profissionais e aprendizes temos de aprender do jeito que a gente gosta, aprender as coisas que a gente tem interesse por elas?  A arte da aprendizagem corporativa contemporânea está em combinar essas duas necessidades.

  • As deficiências do sistema educacional brasileiro atrapalham o processo de aprendizagem do brasileiro? Ele sai atrás nesse sentido? 

É uma boa pergunta, eu não tenho convicção sobre isso. É possível que sim, mas não sei se exatamente por esse caráter tão presencial. No livro a gente sustenta a ideia de que há espaço para autoria de nossa aprendizagem. Mas não gostamos da visão um tanto salvacionista de que o nosso sistema educacional é terra arrasada e, portanto, é você contra todos. Evidentemente, há problemas tremendos no sistema educacional brasileiro, não é por acaso que a gente aparece mal em geral nos rankings internacionais, mas tem havido avanços importantes. E acho que em todos os níveis têm uma distribuição de responsabilidades, ou papéis, em pelo menos três ou quatro instâncias. A gente acha que o indivíduo tem um papel importante de autoria no seu processo de aprendizagem. Tem uma dimensão que, se a gente olhar para o mundo corporativo, tem muito a ver com o papel de líderes e de gestores que é de facilitar esse processo de aprendizagem, o que nem sempre é feito. No nível organizacional, criar estruturas de aprendizagem mais ágeis. Mas tem uma dimensão nacional em que entra política pública. É preciso fazer um esforço para tornar o processo de aprendizagem mais autoral e, portanto, mais estimulante.

ENTREVISTA


ALEXANDRE KALACHE – MÉDICO E ESPECIALISTA EM LONGEVIDADE

‘É aprender a aprender sempre, porque nós vamos ter uma inversão da pirâmide etária’

‘Não vamos contar com uma população jovem por muito tempo, ela vai envelhecer rápido’, afirma Kalache

A aprendizagem precisa ser contínua porque a vida agora é muito mais longa e o profissional precisa se manter viável para o mercado de trabalho. É o que pensa o médico Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil (ILC-Brazil). “Se você não aprender a aprender, aprender sempre, você vai dançar, vai virar obsoleto”, diz o médico, que foi Diretor de Envelhecimento e Curso de Vida da Organização Mundial da Saúde (OMS).

  • O conceito de lifelong learning parece óbvio, mas por que precisa ser ensinado?

É exatamente por conta da longevidade que isso assume um papel muito mais importante. O maior bem que temos em qualquer país é o material humano. Se você não aprender a aprender, aprender sempre, você vai dançar, vai virar obsoleto. Não é só quem vai fazer o mestrado, mas o mecânico de automóveis que sabe tudo de motores há 20 anos, mas não aprendeu eletrônica. Ele tem de aprender no contexto do trabalho, do dia a dia. A empresa dele deve investir para que ele possa ter a chance de chegar aos 43 anos, abrir o capô do carro e entender o que está vendo. Não é só para o profissional. É aprender a aprender sempre porque nós vamos ter uma inversão da pirâmide, 31% da população brasileira em 2050 vai ter mais de 60 anos. Esse é o material humano que vai ter de fazer com que o País continue ou arranque para se desenvolver. Não vamos contar com uma população jovem por muito tempo. Ela vai envelhecer rápido.

  • A visão do envelhecimento como algo negativo ainda não mudou no País?

Vivemos em uma sociedade hedonista, que cultua o jovem, que tem uma tirania de não poder ter ruga, cabelo branco, ficar careca. Para a mulher, então, essa tirania é ainda pior. Somos um país idadista. Não tem racismo, sexismo, homofobia? Existe o idadismo e isso está comprovado no contexto da covid: ‘Deixa morrer, já viveu’. Temos de lutar contra isso porque uma sociedade que vai envelhecer tão rapidamente está na contramão da história. Nos países desenvolvidos, que já envelheceram, eles primeiro enriqueceram para depois envelhecerem. Nós estamos envelhecendo mal, precocemente. Temos de ajudar essa população a envelhecer melhor, para que todos continuem contribuindo para a sociedade por meio do trabalho, seja ele formal ou voluntário.

  • Por que o brasileiro envelhece mal?

Primeiro, envelhece mal. Depois, envelhece rapidamente. E esse contexto da covid mostra isso claramente. Você não precisa chegar aos 60 anos para ter as chamadas comorbidades: hipertensões, obesidade, problemas cardiovasculares e respiratórios, por exemplo. Isso reflete uma perspectiva de curso de vida. Você já vem acumulando deficiências, negligências do setor público, da educação, assim como da saúde. Então, você envelhece precocemente. E mal porque você chega aos 60 anos como a soma dos eventos que te precederam, seja por escolhas pessoais de vida, seja pelo contexto social. Um país que tem 50% da população sem esgoto sanitário não pode envelhecer bem.

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