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O TEMPO – 17/04/2019 – BELO HORIZONTE, MG

Morador de abrigo passa no Enem e vai cursar engenharia na UFMG

POR PEDRO FERREIRA

A luz que ilumina os caminhos de Cassimiro Gonçalves dos Santos Neto, de 39 anos, vem dos livros. Ele, que aos 8 anos foi internado na antiga Febem, para se ver livre da violência da mãe, e que no ano passado viveu momentos amargos da vida, sem ter nem mesmo onde morar, mergulhou nos livros da biblioteca pública de Belo Horizonte.

Cassimiro estudava enquanto não dava a hora de pernoitar no Abrigo Municipal São Paulo. Agora, é um dos mais novos aprovados no Enem e vai cursar engenharia mecânica na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

No início do ano passado, Cassimiro brigou com a mãe, se desentendeu com a família, começou a beber muito, perdeu o emprego, acabou com o noivado, afastou-se dos amigos e passou a dormir no abrigo para não ficar ao relento. Mas, tudo está “renascendo das cinzas”, segundo ele.

“Fazer uma faculdade sempre foi um sonho que eu fui adiando. Muitas coisas aconteceram nesse último ano, até chegar aqui. Foi uma caminhada bem longa”, conta o técnico em mecânica desempregado, que hoje vive na Casa de Acolhimento Fábio Alves dos Santos, espaço da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) dedicado a homens em situação de rua e em vulnerabilidade social, no bairro Carlos Prates, região Noroeste da capital.

Mesmo sem teto, Cassimiro se inscreveu no programa Educação de Jovens e Adultos (EJA). Como chegava da escola às 22h30 e perdia o horário do jantar no abrigo – que é servido das 19h às 21h – ele procurou a Defensoria Pública para garantir a refeição.

Tarefas

Na casa de apoio, Cassimiro divide o seu tempo com os livros e as tarefas. “O convívio coletivo é bacana. Cada um tem a sua tarefa para manter limpo e organizado o local”, disse.

Trauma

Ao ser deixado na Febem do bairro Horto, aos 8 anos, Cassimiro conta que a mãe saiu da sala e foi embora e ele ficou para trás. “Me deixaram lá. Tipo: ‘Esqueceram uma bolsa aqui’”, conta. Ele ficou por oito meses internado. O sonho dele, agora, é conseguir emprego, reaproximar do três filhos, de 14, 17 e 19 anos, e pegar o diploma de mecânico.

Conquistas

Orgulho. Esse é o sentimento que a coordenadora da Casa de Apoio Fábio Alves dos Santos, Raquel Jannuzzi, disse ter, como profissional, de Cassiano. “Um sentimento de dever cumprido. A gente tenta, todos os dias, transformar vidas no nosso acolhimento”,disse Raquel, lembrando que Cassiano superou todas as vulnerabilidades.

“Isso dá gás para a gente acreditar que vale a pena, sim. São casos promissores que a gente acolhe, pessoas com grandes potenciais, que estão aqui para iniciar do zero, superar e fazer o diferencial na sociedade”, comentou.

O espaço, criado há quatro anos, tem capacidade de 44 vagas e hoje abriga 37 homens e outros sete estão em processo de inserção. O espaço oferece abrigo 24 horas, alimentação, quarto mobiliado com camas e armários, com vagas fixas, sem rotatividade de cama.

Minientrevista com Cassimiro Gonçalves

O que te levou a estudar de novo?

No ano passado, eu estava no BH Resolve procurando emprego e escutei um rapaz comentar que o EJA do Colégio Imaculada Conceição era bom, que era só chegar e estudar. Eu fui lá e consegui.Eu passava o dia no setor de pesquisas da biblioteca pública, estudando, e tinha esperança de passar no Enem. Quase infartei quando fui aprovado na UFMG. Passei em primeiro lugar na minha cota, de pessoa de baixa renda e deficiente. Tenho visão monocular. Só enxergo de um olho.

Você também foi aprovado em um concurso estadual?

Vi o anúncio da concurso da MGS no quadro de aviso do abrigo. Era o último dia de isenção de taxa de matrícula. Estudei, passei e agora espero superar essa crise do governo e ser chamado para o cargo de camareiro hospitalar. Também me preparo para o concurso da Guarda Municipal.

Você gostava de estudar na infância?

Não. Entrei atrasado na escola. Eu errava no dever de casa e apanhava da minha mãe. Tortura, mesmo, espancamento. Um vizinho denunciou e fui para a Febem.

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