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Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,muito-alem-do-salario-profissionais-miram-beneficios-ao-escolher-empresas,1127888, 17/10/2020

MUITO ALÉM DO SALÁRIO: PROFISSIONAIS MIRAM BENEFÍCIOS AO ESCOLHER EMPRESAS

Candidatos disputam vagas de trabalho de olho em facilidades como horário flexível e home office, diz pesquisa; do lado de lá, saiba como as corporações fazem para atrair os melhores talentos

Marina Dayrell

Na hora de escolher um novo emprego, é claro que o salário importa. Todo mundo tem contas a pagar e o trabalho, antes de tudo, é a única ou principal fonte de renda da maioria da população. Mas, na hora de planejar a carreira dos sonhos, profissionais também olham muito além dos números.

Ao lado da remuneração, na lista de desejos aparecem benefícios como trabalho flexível e possibilidade de home office, ambiente interno seguro e saudável, propósito da empresa, compromisso socioambiental e com a diversidade, além de valorização da equipe e possibilidade clara de desenvolvimento.

Do outro lado, com vontade de se colocar como apontadoras de tendências e de atrair e reter os melhores talentos, as empresas se empenham para oferecer benefícios competitivos (que incluem até auxílio para fertilização ou adoção de criança), construir uma boa imagem de marca empregadora e, durante a seleção, entender quais candidatos se encaixam no DNA da empresa – o famoso match ou fit cultural.

Mas o que está em jogo na hora de aceitar uma vaga de emprego? Uma pesquisa feita pela Revelo, a pedido do Estadão, perguntou a 378 profissionais o que faz uma empresa ser considerada a corporação dos sonhos. Entre as respostas (cada respondente podia escolher até duas opções), 69% apontaram o horário flexível e o home office; 36% disseram que olham para salário acima da média do mercado; 36%, o compromisso com diversidade, sustentabilidade e outros propósitos da marca; 18%, a participação nos lucros; e 15%, os bônus por performance.

No levantamento, o home office e o trabalho flexível aparecem como prioridade para todos os grupos de idade, com maiores índices entre quem tem de 18 a 23 anos (41%) e de 35 a 40 anos (37%). Já o salário acima do mercado foi mais priorizado pela faixa que tem entre 24 e 29 anos e de 35 a 40 anos, ambos com 20%.

O compromisso com diversidade, sustentabilidade e outros propósitos da marca são mais importantes para os mais jovens, entre 18 e 29 anos. Entre os solteiros, esse item ocupa posição de destaque em detrimento do ganho financeiro.

“Com um novo sistema híbrido surgindo, que nada mais é do que a junção do modelo de trabalho online combinado com o offline, é muito importante entender quais são os benefícios almejados pelos profissionais que vão operar neste novo modelo nas empresas”, destaca Patrícia Carvalho, CMO (chief marketing officer) da Revelo. “Assim, líderes e departamentos de RH podem adaptar os benefícios ofertados, aumentar a atratividade para os candidatos, pois o mercado está disputando profissionais, e garantir melhor adaptação.”

Os 378 respondentes se dividem em variadas idades, com maior presença de pessoas entre 24 e 35 anos, que atuam majoritariamente nos setores de tecnologia, comunicação e serviços. Em relação à localidade, 63% vivem em São Paulo, 14% em outras capitais (com exceção de Belo Horizonte e Rio de Janeiro) e 12% fora de capitais.

Para Amanda Aragão, líder da área de recrutamento e seleção da Mais Diversidade, consultoria de diversidade e inclusão para empresas, três pontos têm aparecido para os candidatos como preferência na hora de escolher um novo emprego, principalmente para os mais jovens: a possibilidade de desenvolver múltiplas carreiras, o senso de pertencimento e o propósito.

Ainda é um peso muito grande escolher uma carreira durante a adolescência e fazer aquela mesma coisa para o resto da vida. Por isso, segundo a especialista, muitos jovens têm optado por empresas que permitem e incentivam a mobilidade entre áreas, inclusive com possibilidade de crescimento dentro delas.

Já o senso de pertencimento vem alinhado a um ambiente que proporciona segurança psicológica. Isso ocorre quando o funcionário entende que ele é bem-vindo naquela empresa.

“A pessoa poder assumir riscos, não se sentir desamparada nem exposta e poder ser ela mesma. Quanto mais a empresa forma esse ambiente, melhor será a diversidade. Neste contexto, por exemplo, o profissional se sente seguro ao falar sua visão em uma reunião mesmo que ela seja oposta à da maioria”, explica.

Segundo Amanda, a preocupação com o propósito significa entender como o profissional irá investir o tempo dele e como isso contribuirá para a sociedade. As empresas de vanguarda têm dado exemplos de que salário e propósito não andam em direções opostas.

“As pessoas estão menos dispostas a investir o tempo delas somente para o resultado financeiro e, além disso, também há uma visão de que é possível conciliar as coisas. Não é preciso abrir mão do salário para o propósito. As empresas que oferecem os melhores pacotes, tanto de salário quanto de propósito, e fazem um bom trabalho socioambiental e de diversidade acabam se diferenciando”, diz.

O QUE ESTÁ EM JOGO PARA VOCÊ?

Para construir a sua carreira, Samantha Almeida, de 39 anos, conta que aprendeu muito cedo a definir as suas prioridades. “Eu entendi os meus ‘inegociáveis’, o que eu faço e o que eu não faço. Seja o que for, no profissional, eu vou empregar as minhas habilidades e eu preciso garantir os meus inegociáveis. A partir dessa definição vem a adaptação, sempre um processo eterno de mimetismo. Eu sempre faço essa conta: prefiro lugares onde eu possa usar a minha perspectiva de mundo, de vida, e as minhas experiências para construir uma terceira coisa”, conta.

Há dois meses, ela ocupa o cargo de diretora do Twitter Next Brasil, área estratégica da marca dedicada ao desenvolvimento de campanhas e formatos publicitários para anunciantes. O que pode ser curioso considerando que ela começou a carreira – ou as várias carreiras, com ela mesma diz – com uma graduação em Design de Moda. “Eu já fiz tanta coisa nessa vida. Às vezes, as pessoas me perguntam ‘mas como você foi parar no Twitter?’ Eu falo ‘não sei. É uma boa pergunta’”, diverte-se.

“O que eu faço hoje não existia quando eu entrei para a faculdade, em 1998. O digital não existia. Eu não tinha como planejar a carreira que eu tenho hoje”

Samantha Almeida, Twitter Next Brasil

Samantha foi se guiando pelos seus inegociáveis e entendendo onde ela poderia ser útil. “Sendo muito honesta, eu nunca me prendi a cadeiras. Eu fiz movimentos horizontais, fiz até retrocessos. Mas eu não teria a bagagem que tenho se não tivesse feito cada uma dessas escolhas. Entendo as pessoas que se preparam para uma cadeira ou para uma empresa, acho justo. Mas eu me preparo para o mundo: o que o mundo vai precisar versus quais as minhas habilidades e como posso disponibilizá-las profissionalmente. Essa equação é que forma o meu próximo movimento.”

Ao longo dos anos, ela foi da moda para a publicidade, das marcas de moda para as marcas de beleza, delas para agência de comunicação, focou no digital e chegou ao Twitter. “Se você pensa nessa lógica, fazem todo sentido as minhas mudanças, mas se você pensa que eu fiz moda especializada em desenho para ser estilista e hoje eu crio formatos publicitários para marcas em uma plataforma digital, você pensa “está louca, né?”, diz.

Hoje, inegociável para ela é o que chama de “trabalhar em empresas que trabalham para pessoas”.

“Eu não vou para um lugar para onde eu não possa trazer a perspectiva da base, da comunidade, onde eu não possa levantar a mão na sala e falar ‘galera, a maioria da população não é assim’, ‘será que isso faz sentido para as mulheres?’ ou ‘isso tem um aspecto elitista, que não conversa com a base da nossa audiência’. Se eu não fizer isso, a galera vai estar me pagando inutilmente, vão perceber e deixar de me pagar. Eu tenho boletos e o círculo não fecha”, explica.

VOLTAR UM PASSO PARA AVANÇAR DOIS

Com a meta de construir uma carreira internacional, a publicitária Isabela Guimarães, de 28 anos, apostou em movimentos de regressão de cargo para chegar onde queria. Ainda na faculdade, em Belo Horizonte, a meta era uma carreira acadêmica, mas os planos mudaram durante um intercâmbio, pelo programa Ciências sem Fronteiras, para os Estados Unidos, quando conseguiu um estágio em uma agência publicitária norte-americana.

Na volta ao Brasil, focou bastante no inglês para conseguir outro emprego no exterior. Por um programa da Aiesec (plataforma global de intercâmbio e liderança jovem), ela foi chamada para uma vaga na Cisco, no Vale do Silício. “Coisa de filme, aí eu fui”, conta.

Depois de um ano, voltou para o Brasil, ainda trabalhando remotamente para a companhia, e começou a procurar um emprego, de novo pela Aiesec, na Europa. “Um padrão no jeito que eu lido com a minha vida profissional é que eu não me importo de dar um passo para trás, ganhar menos, para explorar novas coisas. Claro, eu preciso do dinheiro, nunca aceitei nenhuma vaga sem salário, mas eu não me importo de fazer outro estágio se me der uma oportunidade de outra carreira”, explica.

Nesse processo, ela descobriu que a Electrolux é sueca e passou a se interessar pelos valores e culturas da empresa e do País. “Aqui (ela mora em Estocolmo) existe muita valorização da sua vida fora do trabalho”, conta ela, sobre o item que hoje é inegociável para ela na hora de dar o próximo passo.

“Eu tentei achar no LinkedIn alguém que estava na empresa pelo mesmo programa e ficava fuçando. Via o que eu tinha de experiência e se não tivesse, eu fazia minicursos do próprio LinkedIn, para me preparar melhor para as entrevistas. Eu treino muito, pesquiso muito. Então achei uma funcionária – hoje minha amiga – e mandei mensagem para ela, que me contou como era a vida, o trabalho e eu fui coletando informações.”

Ela está há dois anos e meio na Electrolux e há mais de um ano deixou de ser estagiária para atuar no planejamento de conteúdo da companhia.

“Para mim, é importante entender a cultura da empresa. Por que eu estou fazendo isso? Em que essa empresa pode me ajudar? Em que eu estou contribuindo no que eu acredito? Eu acredito muito na cultura da empresa, eu considero muito o ambiente, se é workaholic ou não – se for, não é para mim. A minha carreira não é uma trajetória muito linear.”

EQUILÍBRIO ENTRE VIDAS PESSOAL E PROFISSIONAL

O ambiente da empresa e o volume de trabalho – se é um lugar que incentiva ou não o trabalho excessivo – também são inegociáveis mesmo para quem está começando a carreira, como a advogada Marina Onetto, de 23 anos. Recém-formada, ela trocou um escritório de porte médio por um menor e que foi criado há poucos meses.

“É uma gestão jovem, o que ajuda a fazer com que o ambiente de trabalho e o respeito pelo colaborador sejam grandes. Isso me motivou, além do escritório ser muito perto da minha casa”, conta. Mas o principal incentivo ao emprego é a possibilidade de ajudar a construir uma nova empresa.

“É muito positivo você poder fazer parte de um negócio desde o começo, ajudar a fazer acontecer. Se tudo der certo, eu estou lá desde o começo, participei disso. Sentir que você fez parte da construção do negócio facilita muito na hora de ser valorizada”, explica. “A questão salarial é muito importante. São Paulo é uma cidade cara, mas percebi que um ambiente de trabalho agradável pesa mais. Gosto de pensar que vale a pena procurar um ambiente em que eu tenha um equilíbrio legal entre vida pessoal e profissional, principalmente no home office. Eu não funciono se eu tiver que ficar 24 horas por dia dedicada ao trabalho.”

O QUE ESTÁ EM JOGO

  • Movimentação horizontal, sem escalar altos cargos, traz conhecimentos
  • Senso de pertencimento ao fazer parte da construção da empresa
  • Cultura da empresa alinhada ao candidato: se um é workaholic e o outro não, não vai dar match
  • Diversidade de pensamentos, para agregar a diversidade do próprio candidato

QUAL É O SEU EMPREGO DOS SONHOS?

Muito além dos inegociáveis e das preferências – e, muitas vezes, por causa deles – também há quem defina a sua carreira pela empresa ou emprego dos sonhos. Essa meta pode influenciar desde a escolha da graduação ou mesmo durante a vida profissional, na hora de decidir os próximos passos.

A publicitária Juliana Muncinelli, de 31 anos, mais conhecida no Twitter como Juzão, é – entre muitas outras coisas – uma influenciadora de carreiras nas redes sociais. É muito comum encontrar tweets de seguidores falando como admiram a sua trajetória profissional e a têm como modelo de carreira.

Muito disso vem pela sua trajetória que passa por grandes empresas. Nascida no interior de Santa Catarina, ela chegou a São Paulo para trabalhar depois de fazer faculdade. De acordo com a sua página no LinkedIn (por razões contratuais, Juliana não pôde nos conceder uma entrevista, já que entrou recentemente na nova empresa), ela saiu da Viber, foi para o Twitter, de lá para a XP Inc. e há três meses ocupa um cargo no time da Alexa (assistente virtual), na Amazon.

O interesse pela sua vida profissional é tanto que, em agosto deste ano, quando ela anunciou que sairia da XP, os seguidores fizeram um bolão para adivinhar o próximo emprego. O curioso: muita gente apostou na Amazon.

Um mês antes, em julho, ela havia feito um tweet chamando os seguidores a elencar as dez empresas dos sonhos deles. Surgiram nomes de vários portes, nacionalidades e áreas de atuação. Muitas delas estão na nossa lista no bloco 3 desta reportagem, entre as empresas desejadas. E, entre as muitas respostas, bastante gente dizia não saber como chegar na empresa dos sonhos.

A empresa dos sonhos

Fora das redes sociais, a estudante de Ciência da Computação Manuela Bernadino, de 20 anos, conheceu a sua empresa dos sonhos há mais de dois anos, durante um evento para profissionais negros na IBM, enquanto ainda cursava o ensino médio.

“Eu fiquei chocada com o tamanho da empresa e muito feliz quando vi mulheres negras falando no evento. Elas entendiam a minha história e se identificavam pelo que eu passei e passo ainda. Eu vi mulheres e homens negros falando sobre tecnologia, sobre diversidade e inclusão, sobre como a empresa realmente não prega só por marketing, mas no dia a dia. Naquele momento, eu decidi que era ali onde eu queria ficar. Saí de lá e pesquisei mais sobre a empresa”, conta.

Ela se candidatou para uma vaga de jovem aprendiz e não foi selecionada. Quis desistir, mas uma das suas mentoras a encorajou a estudar mais sobre a empresa e sobre a entrevista e tentar de novo, o que ela fez por três meses, até abrir uma nova vaga.

“Estudei sobre a IBM, as áreas, o que faziam, como se comportavam fora do mundo corporativo, diversidade e inclusão, bolsa de valores, programação. Eu escrevia uma redação por dia porque caso pedissem uma redação na entrevista, eu ia poder escrever bem. Quando eles me ligaram para chamar para uma entrevista, eu estava no 3º ano (do ensino médio) e não sabia o que fazer da minha vida. Tinha que estudar para o Enem e precisava de um emprego para pagar a faculdade e ajudar em casa”, explica.

 “Na minha mente, eu tinha de saber tudo, vai que eles me perguntavam? A entrevista em si não foi muito difícil, acho que foi mais o meu brilho no olho de querer entrar para a empresa. Mas a preparação me ajudou muito. Eu olho para a Manuela que tentou a vaga antes e vejo que ela não estava preparada. Mesmo na questão da confiança, de saber profundamente se a empresa era realmente aquilo que sonhava. Também estudei bastante sobre como me comportar na entrevista.”

Há dois anos na empresa, Manuela já realizou vários sonhos: foi para os Estados Unidos a trabalho, com tudo pago pela IBM, e há um mês se tornou estagiária de desenvolvimento. Nos planos, mesmo muito jovem, ela já pensa em se aposentar na empresa e a próxima meta é se tornar gerente até os 26 anos, trabalhando com tecnologia focada em diversidade e inclusão.

“Eu não sou apenas um número, eu sou a Manuela e tenho o meu valor”

Além do tema, que é muito caro para ela e para a empresa, Manuela diz que, ao lado do vale-refeição (que usa bastante), a valorização profissional é o que a faz seguir escolhendo a IBM como a empresa dos sonhos.

“Você tem um valor para a empresa independentemente do seu cargo. E há incentivos para o crescimento profissional. A gente tem de ter apoio, ainda mais quando somos jovens, porque muitas vezes estamos perdidos, sem saber o que e como fazer. Então, o apoio da empresa em mostrar caminhos, valorizar, mandar viajar é muito importante. O respeito também é fundamental. No home office, quase todo dia eu recebo mensagem perguntando se eu preciso de algo, se a minha família está bem.”

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