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Folha de São Paulo, Ilustrada, quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Negros não passam de 4% nas últimas cinco bienais

Obra de Emanoel Araujo é
raridade na cena de arte contemporânea do país

Afrodescendentes estão fora
das grandes galerias e têm presença tímida nos acervos dos maiores museus do
país

SILAS MARTÍ, DE SÃO PAULO

Um enorme livro branco lançado
na semana passada esmiúça a trajetória do maior artista negro vivo no Brasil.

No texto, o crítico Paulo
Herkenhoff chama a obra de Emanoel Araujo de "superação da melancolia sem
expectativas" num "ambiente contemporâneo com presença escassa de artistas
negros".

Nome consagrado,
institucionalizado e agora em vias de digestão pela história da arte, o baiano
de Santo Amaro da Purificação se firmou como escultor construtivo depois de
sólida trajetória no campo da gravura, também alicerçada na geometria.

"Essa é uma linguagem
universal", conta Araujo. "Mas juntei geometria e um simbolismo afro-brasileiro,
partindo dos mitos e lendas de um vocabulário religioso."

Herkenhoff enxerga o mesmo uso
dessa "inteligência plástica africana" na obra de Rubem Valentim, morto há 20
anos, que também figura na historiografia pouco farta dos negros da arte
brasileira.

"Este é um país preconceituoso
em tudo, que tem pouca memória e onde as pessoas são mortas-vivas", diz Araujo
sobre a quase ausência de negros na arte contemporânea daqui. "Ninguém quer
olhar para o Brasil."

Nas últimas cinco edições da
Bienal de São Paulo, a presença de negros escalados para a mostra não passou de
4%, em média, sendo que nenhum deles era brasileiro.

Eles também estão ausentes dos
times das maiores galerias do país -Fortes Vilaça, Luisa Strina e Millan- e têm
presença discreta nos acervos do Masp, do MAM de São Paulo e da Pinacoteca do
Estado, que já foi dirigida por Emanoel Araujo.

"Não existe um botão negro
para fazer pesquisa", diz Teixeira Coelho, curador do Masp, sobre negros no
acervo. "Nunca foi uma preocupação saber se o sujeito é branco ou preto. Temos
algo de arte africana, mas nem sempre o artista é negro."

Coelho também atribui a
ausência ao fato de poucos desses artistas chegarem a "existir como
profissionais".

Na turma que acaba de se formar
em artes plásticas na Fundação Armando Álvares Penteado, em São Paulo, uma das
escolas mais tradicionais do país, não havia negros.

"Tem um que é bem mulato, mas
nenhum negro", diz Marcos Moraes, professor da Faap. "Não há um número
significativo, mas acho que a gente não olha mais com essa perspectiva étnica,
racial."

Nesse ponto, Herkenhoff enxerga
um "vínculo de interesses econômicos" entre universidades e galerias, que causa
uma "obstrução ativa" do mercado para negros.

"Quem perde é a história quando
põe de lado esses artistas", diz Herkenhoff. "Emanoel Araujo mostra como nossa
história é decepada, cheia de buracos. É uma riqueza tratada como um problema."

NEGÃO 100%

Outro problema é identificar um
artista como negro num país miscigenado como o Brasil. Luisa Strina, uma das
galeristas mais poderosas do país, diz que nunca trabalhou com artistas negros
porque não conhece nenhum.

Mas Araujo e Herkenhoff apontam
Marepe, representado por ela, como um exemplo de um bom artista negro. "Se você
achar que negro é um negão 100%, então não há negros", diz o crítico de arte
Rodrigo Naves. "Mas existe esse complicador indiscutível na nossa sociedade."

Naves também lembra o paradoxo
da era colonial, em que brancos não faziam trabalhos manuais, como escultura e
pintura, o que fez com que os mestres do barroco, como Aleijadinho, fossem
negros, filhos de escravos.


EMANOEL ARAUJO ESCULTOR


AUTOR
 Paulo
Herkenhoff


EDITORA
 Via
Impressa

QUANTO R$
160 (324 págs.)

Em suas obras, artistas brancos buscam beleza negra

DE SÃO PAULO

Brancos
olham muito para os negros. Se os negros não costumam estar por trás das obras
em grandes mostras, eles figuram em fotografias, vídeos e telas como objeto da
criação de artistas brancos.

Na Bahia,
ponto de partida de artistas como Emanoel Araujo e Rubem Valentim, fotógrafos
brancos como Pierre Verger e Mário Cravo Neto dedicaram suas carreiras à
documentação de rituais religiosos e da vida cotidiana de afrodescendentes.

Em imagens
em preto e branco, a cor da pele virou elemento plástico, de fortíssimo
contraste, contra o sol esgarçado dos trópicos.

Cravo Neto
explorava essa pele escura com destreza, criando composições quase táteis, em
que os poros de seus retratados pareciam se fundir com a película fotográfica, o
que críticos chamaram de "carnalidade da imagem".

Esse mesmo
elemento também fascinou o norte-americano Robert Mapplethorpe, que tratava seus
modelos quase como esculturas de mármore, identificando no corpo dos negros um
aspecto pétreo que tentou imortalizar em sua fotografia.

Miguel Rio
Branco, em fotografias coloridas, também explorou essa beleza de cores vibrantes
quando retratou boxeadores no Nordeste.

Íntimo do
apartheid, o sul-africano Pieter Hugo, branco descendente de holandeses,
fotografa negros com ar exótico em vários países africanos, como atores da
indústria cinematográfica da Nigéria ou grupos que criam hienas e outros animais
selvagens como bicho de estimação.

Na
contramão disso tudo, a última Bienal de São Paulo abriu espaço para alguns
artistas angolanos, todos negros, que refletem sobre questões políticas, em
especial resquícios sangrentos da guerra civil, em suas obras.

Mas, mesmo
nesses trabalhos, parece prevalecer um olhar mediado, a busca por uma espécie de
futurismo africano, plástico e fantástico, que não agredisse olhos europeus
-mais um abismo em preto e branco.


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