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Folha de São Paulo, The New York Times, segunda-feira, 31 de outubro de 2011 

O design na luta contra a pobreza


A vida em favelas pelo mundo afora é refeita a partir da base


O design ajuda a salvar o mundo; uma favela por vez 

HAAS&HAHN


Designers estão intervindo em algumas das áreas urbanas mais pobres e caóticas
do mundo, ajudando seus moradores a criar soluções inventivas para problemas de
moradia, acesso, serviços e ensino; um projeto de pintura levou arte ao morro
Santa Marta, no Rio de Janeiro; abaixo, imagens de antes e depois da reforma de
uma passarela em La Vega, na cidade de Caracas, na Venezuela 


Por MICHAEL KIMMELMAN


Para a maioria das pessoas, a palavra "design" é sinônimo das coisas belas que
uma sociedade rica faz para ela mesma, como iPads, joias caras ou automóveis
clássicos.


"Design With the Other 90 Percent: Cities" (design com os outros 90%: cidades),
uma mostra inspirada -embora seu título seja infeliz-, trata de outro tipo de
design. Ela foi organizada pelo Museu Nacional de Design Cooper-Hewitt, em Nova
York, e agora está instalada no saguão de visitantes do prédio das Nações
Unidas.

Os
objetos mostrados aqui tendem a parecer toscos e às vezes embaraçosamente
simples, suscitando reações do tipo "por que ninguém teve essa ideia antes?".
Sua beleza é de outra natureza: se deve ao fato de trazerem soluções
inteligentes e econômicas a alguns dos problemas enfrentados por milhões das
pessoas mais pobres do mundo.

São
criações que procuram trazer respostas a crises que sempre pareceram refratárias
-pandemias globais como a proliferação de favelas e doenças infecciosas.


Trata-se, em outras palavras, de uma mostra de design para refazer o mundo. E
isso é emocionante, quer esteja acontecendo em Cupertino, Califórnia, ou em
Uganda, onde centenas de pessoas são contaminadas com o HIV todos os dias. Nesse
país, a novidade mais recente no tocante à telefonia celular é a criação e
distribuição de um sistema de mensagens de texto que divulga informações sobre
saúde.


"Text to Change" (Torpedos para a Transformação), como é chamado o projeto,
requer a colaboração de dois especialistas holandeses em comunicações e
tecnologia com operadoras locais de telefonia celular e organizações que prestam
assistência médica. Em Kibera, uma área de Nairóbi, Quênia, que abriga uma das
favelas de maior densidade demográfica da África, o desafio era outro. Ali, as
fogueiras tradicionais feitas com madeira e carvão causavam doenças
respiratórias em grande parcela da população. As ruas são cheias de lixo.


Então um arquiteto de Nairóbi projetou um fogão comunitário que é movido pelo
lixo recolhido pelos moradores, que em troca podem usar o aparelho. 

Na
Tailândia, um programa público chamado Melhoria da Comunidade Baan Mankong vem
há oito anos melhorando as condições de vida em centenas das 5.500 favelas do
país, além de envolver moradores, governo e organizações não governamentais em
um esforço para projetar moradias mais seguras e limpas.

Às
margens do canal Bang Bua, em Bangcoc, onde milhares de famílias vivem há anos
em palafitas precárias ligadas por passarelas frágeis, arquitetos da
Universidade Sripantum projetaram fileiras de casas geminadas e semigeminadas,
seguindo linhas sugeridas pelos moradores.


Centenas de estruturas decrépitas foram demolidas e casas novas erguidas em seu
lugar. As novas casas, feitas de madeira e portas recicladas, foram construídas
em terra firme próxima das palafitas anteriores, para não dividir comunidades ou
deslocar famílias. A estratégia seguida em Bang Bua incluiu ainda empréstimos a
juros baixos e arrendamentos por 30 anos (com possibilidade de renovação),
fazendo com que os moradores tenham direitos legais sobre os imóveis em que
vivem e tenham interesse em sua conservação.


Isso ajudou a pôr fim ao ciclo de despejos (usados para abrir espaço para
shopping centers e vias expressas) que deixava os pobres impotentes e
desesperançados.

"As
cidades são muito complexas, e o que fazem os melhores designers é dar forma a
ideias que às vezes são muito simples", disse a curadora da mostra, Cynthia E.
Smith. 

"O
bom design requer não apenas lançar um olhar novo sobre os problemas, mas,
sobretudo, ouvir as pessoas que vivem nessas comunidades. Estamos falando de 1
bilhão de pessoas que hoje vivem em comunidades informais." O bilhão de pessoas
está projetado para dobrar até 2030 e triplicar até 2050, segundo o Programa de
Assentamentos Humanos das Nações Unidas.


Isso significa que uma em cada três pessoas no planeta viverá em lugares como as
favelas do Brasil, os "barrios" do Equador, os "shack settlements"
sul-africanos, os "bidonvilles" tunisianos ou os "chapros" do Nepal.


Cynthia Smith passou dois anos estudando o que designers vêm fazendo para
melhorar as condições de vida nesses lugares. Como foi feito em Bang Bua, uma
lição pareceu muito óbvia: a necessidade de pedir que as pessoas que vivem na
pobreza sugiram suas próprias soluções. Projetos de renovação urbana sempre
funcionam melhor quando são feitos de baixo para cima.


Somsook Boonyabancha, diretor da Coalizão Asiática de Direitos Habitacionais,
escreveu no catálogo da mostra: "Os pobres são criadores e implementadores dos
sistemas mais amplos e abrangentes para solucionar problemas de pobreza, moradia
e prestação de serviços básicos".

Em
Diadema, cidade industrial na periferia de São Paulo, 30% da população vivia em
favelas. O governo pediu conselhos à população para definir prioridades para
construções, que empregavam trabalhadores residentes nas comunidades. 

Um
programa fundiário deu aos moradores o direito de viverem por 90 anos em seus
imóveis, para incentivar manutenção e investimentos. Assim, os moradores
ajudaram a ampliar e pavimentar ruas e instalar sistemas de água e esgotos.
Hoje, segundo Smith, 3% dos moradores de Diadema ainda vivem em favelas, e o
índice anual de homicídios caiu do pico de 140 por 100 mil habitantes, na década
de 1990, para 14,3.


Medellín, na Colômbia, foi no passado a capital mundial dos cartéis de drogas,
homicídios e desespero. Há dez anos, íderes políticos progressistas decidiram
fazer investimentos mais pesados nas piores favelas, construindo um sistema de
teleférico para ligar o centro da cidade com as áreas isoladas e cheias de
criminalidade que cobriam os morros.

Em
volta dos pilares do sistema de transporte foram construídos novos parques,
bibliotecas, escolas públicas e passarelas de pedestres, de modo que as obras de
arquitetura pública mais belas e ambiciosas foram erguidas nos bairros mais
pobres. Medellín tornou-se uma cidade mudada. E em La Vega, uma das favelas nas
encostas que cercam Caracas, na Venezuela, uma equipe de arquitetos, engenheiros
e geólogos criou uma série de novas escadarias e praças, de modo que a subida
dos morros, antes muito árdua, foi facilitada.

Em
Pune, uma das muitas cidades indianas em franco crescimento, trabalhadores
constantemente se deslocam com suas famílias de um assentamento informal para
outro, seguindo as obras de construção.

A
consequência disso é que com frequência os filhos não são matriculados na
escola. Uma equipe de designers decidiu uma década atrás levar as escolas às
crianças, por meio de ônibus equipados com salas de aula para 25 alunos que vão
buscando os alunos, onde quer que morem.

Em
Bangladesh, o arquiteto local Mohammed Rezwan projetou "barcos salva-vidas
comunitários" que fazem as vezes de escolas, bibliotecas e ambulatórios de saúde
flutuantes.

Com
o nível do mar em ascensão, a previsão é que até 2050 quase 20% da terra do país
esteja submerso. O delta do Ganges-Brahmaputra, a área mais densamente povoada
do mundo, será inundado.


Trabalhando com construtores de barcos da região, Rezwan adaptou a embarcação
fluvial tradicional, feita de bambu e com fundo chato. Ele equipou as
embarcações com tetos à prova d água e painéis solares, instalando computadores,
internet com conexão rápida e lâmpadas solares portáteis feitas de lanternas de
querosene recicladas.


Materiais tradicionais, técnicas de construção civil locais e fontes de energia
renováveis renderam um paradigma de design contextual. 


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