REVISTA ÉPOCA, 04/09/2009 – 11:03 – Atualizado em
04/09/2009 – 18:21
O galpão onde crescem talentos
Projeto criado por economista na Zona Portuária do Rio oferece oficinas de arte
e bolsas de estudos a 300 jovens por ano
Rafael Pereira
Esta é uma
reportagem do Projeto Generosidade. Todas as revistas e sites da Editora Globo
participam desta ação por um mundo melhor. Conheça os detalhes do projeto em
projetogenerosidade.com.br
O Galpão Aplauso é
um armazém colorido destacado na degradada Zona Portuária do Rio de Janeiro. O
portão do terreno, pintado de roxo, passa o dia todo aberto. Parece um cenário,
imenso. O lugar servia para descarregar minério de ferro de trens e os trilhos
ainda estão intactos no chão. Lá dentro, jovens entre 15 e 24 anos, todos
pobres, dividem o espaço sem paredes agrupados em animadas rodas de dança,
música, teatro, acrobacias de circo e artes plásticas. Eles vêm de toda parte. A
localização facilita. O armazém fica próximo do principal terminal rodoviário da
cidade e das duas maiores estações de trem.
Centenas de jovens
confluem diariamente para o galpão colorido por causa de Ivonette Albuquerque.
Aos 54 anos, ela é uma típica representante da classe média do Rio de Janeiro.
Teve sucesso na carreira como economista e mora no Leblon, bairro nobre da Zona
Sul da cidade. Apaixonada por arte, é a editora de uma revista sobre teatro
chamada Aplauso. Em meados dos anos 90, Ivonette teve seu apartamento no Leblon
invadido por jovens bandidos. Sofreu ameaças de morte e foi trancada com seu
filho no banheiro. Levaram tudo, de obras de arte à coleção de CDs. Ela resolveu
alugar seu apartamento e foi morar de aluguel em outros bairros. Quase dez anos
depois resolveu que voltaria para casa e enfrentaria o trauma. Não sem antes
encher todos os espaços de acesso com placas blindadas e câmeras de segurança.
O ponto de corte em
sua vida foi a oferta de um amigo. “Ele estava comprando um carro blindado de
última geração e me propôs a venda de seu carro antigo, também blindado”, afirma
Ivonette. “Só consegui dar uma volta no quarteirão. Senti que não adiantava me
blindar.” Naquele mesmo dia, Ivonette conta que foi para casa, sentou à frente
do computador e escreveu, de um só fôlego, o projeto do Galpão Aplauso.
A ideia inicial era
atender apenas 20 jovens, dando formação artística. Os destaques nos cursos
seriam divulgados em sua revista Aplauso, que deu nome ao projeto. Só que
o primeiro e até hoje principal patrocinador da ideia, o Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), só firmava a parceria se fossem 300. “Eu disse ‘Claro!’,
mas não tinha a menor ideia de onde abrigar todo mundo”, afirma ela. Procurou a
Companhia Docas do Rio de Janeiro, onde tinha trabalhado, e conseguiu o armazém,
então abandonado.
No armazém,
funciona o projeto principal, onde turmas de 300 alunos – 150 pela manhã e 150 à
tarde – se revezam por um ano em oficinas de todos os tipos de arte. Todos
ganham bolsa mensal de R$ 100. As exigências são renda familiar inferior a dois
salários mínimos e matrícula escolar.
Aqueles que se
destacam em cada área vão para as oficinas profissionalizantes, em prédios
anexos, no mesmo terreno. Lá, quem sobressai na dança, na música, no circo ou no
teatro vai para a Cia. Aplauso. Quem tem talento nas artes plásticas vai para o
coletivo Centro Espacial. Quem não tem talento artístico digno dos palcos vai
para os bastidores. Há oficina de costura para o figurino, de serralheria e
solda para a montagem da estrutura dos espetáculos e até de áudio e iluminação.
“Minha principal intenção é que este seja o último projeto social dos jovens que
entram aqui”, afirma Ivonette.
Uma das mais
expressivas atrizes da companhia chama-se Tania Cristina de Lima, de 23 anos.
Ela entrou no projeto em 2005. “O que mais me atraiu foi a bolsa de R$ 100, não
vou mentir”, afirma Tania. Ela mora com a família no Morro do Pinto, uma das
favelas vizinhas ao armazém do projeto. Até assistirem ao espetáculo, nenhum
parente seu tinha pisado em um teatro. Seus pais têm problema de alcoolismo e,
desde criança, Tania conviveu com a sombra de um avô violento, que batia na
mulher e em sua mãe. “Tive de aprender a me virar desde cedo”, afirma. O cachê
dos espetáculos é fundamental para sustentar os pais, três irmãos e dois
sobrinhos.
REAÇÃO POSITIVA
Tania, aluna que se
destaca como atriz (à esq.), e Ivonette, criadora do Galpão Aplauso, na sede do
projeto. Tudo começou depois de um assalto traumático
O jovem Leonardo
Oscar da Silva, de 20 anos, veio de Magé, no interior do Estado, para o Rio à
procura de emprego. Na escola, enchia os cadernos de desenhos. Cresceu, e a arte
começou a perder espaço para a necessidade prática de uma renda própria. Entrou
no Aplauso para fazer uma oficina de grafite e, dois anos depois, já tem no
currículo uma exposição individual de seus quadros. “Aqui aprendi a entender
arte contemporânea. Entendi a genialidade de caras como (Marcel) Duchamp
(um dos precursores da arte conceitual)”, afirma Leonardo. Entre suas
principais influências, cita ainda Jackson Pollock, pintor expressionista, e
Andy Warhol, o papa da pop art. “Eles trabalham com o diagnóstico de que o jovem
vive encurralado em becos, e não se imagina em outra realidade”, diz o
economista André Urani, diretor executivo do Instituto de Estudos do Trabalho e
Sociedade (Iets). “O fato de não ser dentro da comunidade pobre faz com que
esses jovens circulem pela cidade. Ali, as diferentes realidades se encontram”,
afirma.
Ivonette
Albuquerque ainda mora no Leblon, e não abre mão das portas blindadas e das
câmeras de segurança. Mas identifica o assalto a sua residência como um passo
importante para a criação do projeto. “Acelerou um processo que, naturalmente,
eu enfrentaria”, diz. “(Os assaltantes) eram todos jovens, como esses
meninos. Temos 20 milhões de jovens excluídos no Brasil. Quem vai pagar essa
conta?”
1 comentário
Os comentários estão fechados.