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O Estado de São Paulo, Domingo, 27 maio de 2007


METRÓPOLE



O guarda-roupa que resume quase um século do teatro paulistano



Acervo histórico do Municipal, em fase de ampliação, conta com figurinos
raros, que passaram décadas nos baús


Uma doação muito especial desembarcou no Teatro Municipal de São Paulo, no
início da semana passada. Eram cinco roupas usadas em cena pelo tenor
Armando de Assis Pacheco, que morreu em 2005, aos 96 anos, vítima do mal de
Parkinson. Pacheco interpretou mais de 50 óperas durante a carreira, entre
elas O Rigoletto, A Traviata, Madame Butterfly, Aída e Palhaço. Foram
justamente os figurinos dessas óperas que chegaram ao teatro.


A doação potencializou o fôlego de um acervo que esconde verdadeiras
preciosidades. O guarda-roupa, que tem 96 anos de história, nem sempre foi
bem cuidado. “As roupas eram armazenadas em caixotes e ficavam entulhadas
numa sala com cerca de 50 metros quadrados”, diz Jamil Maluf, diretor
artístico do Teatro Municipal. “Há três anos, criamos a Central de Produção
Chico Giacchieri, com o objetivo de melhor administrar o acervo.”A central
funciona num galpão de 2.200 metros quadrados, na Vila Guilherme, zona
norte. No térreo, reúne os cenários – que estavam em galpões espalhados pela
cidade – e no primeiro andar 37 mil roupas de 85 óperas realizadas no
principal palco da capital paulista.



CATÁLOGO


Ali, os figurinos começaram a ser devidamente higienizados, recuperados e
protegidos da poeira e da luz. Aos poucos são catalogados e fotografados em
arquivos digitalizados. Quarenta óperas já passaram pelo processo. Nessa
lista está a roupa usada por Assis Pacheco, em O Rigoletto, que passou a ser
a mais antiga do guarda-roupa. Ela é de 1942.


As peças com mais de 20 anos são consideradas de museu. Não podem ser
emprestadas ou alugadas como as mais recentes. Mas é justamente nessa parte
do acervo que há verdadeiras surpresas. Ninguém imagina, por exemplo, que o
arquiteto e paisagista carioca Burle Marx já deu uma de estilista. Ele
desenhou todo o figurino de um balé montado para as comemorações do IV
Centenário de São Paulo.


Burle Marx não é o único brasileiro de expressão, não especializado na arte
da costura, que emprestou seu talento aos bastidores do Municipal. Nas
araras do galpão da Vila Guilherme, há exemplares de alguns dos mais
importantes artistas modernistas. “O pintor Di Cavalcanti e o arquiteto
Flávio de Carvalho estão no time de modernistas famosos que produziu
cenários e figurinos para as comemorações do IV Centenário”, comenta Rita
Benitz, instrutora cultural do acervo do Teatro Municipal. “Há roupas
vanguardistas, como a de Di Cavalcanti, que criou um macacão com peitos
sobrepostos.”


Também se destacam itens assinados por estilistas conhecidos, como Denner, o
queridinho das socialites da década 70, e de Conrado Segreto, que despontou
na segunda metade dos anos 80 como grande nome da moda. Há outras raridades,
como roupas pintadas à mão na Europa para uma produção nacional de Aída.


“Antes a produção do cenário e do figurino eram terceirizadas”, diz Elisa
Galvão, de 45 anos, coordenadora da Central de Produção. “Hoje, temos uma
equipe de costureiras que faz todas as roupas.” O mesmo acontece com o
cenário, fabricado por marceneiros da casa. Contratar uma equipe para o
trabalho interno foi o meio que o teatro encontrou de diminuir custos.



REAPROVEITAMENTO


“A Central de Produção foi criada também para reaproveitar o material que
vai para o depósito”, explica Maluf. Todas as peças com menos de 20 anos
podem ser alugadas ou trocadas com outros teatros. Para uma ópera são
produzidos aproximadamente 300 figurinos. Carla Camurati, por exemplo,
fechou a locação do figurino completo de duas óperas, Madame Butterfly e
Carmen, esta encenada em 2002 com a direção cênica da própria atriz. Os
figurinos também são reaproveitados pelas novas produções do Municipal, o
que diminui os custos em até 30%. “Uma ópera chegava a custar R$ 1 milhão”,
lembra Jamil.


Até o final deste ano, a central mudará de endereço. Um galpão de 4.400
metros, próximo ao Shopping D, na zona norte, está em reforma para
instalação de ar-condicionado, entre outras benfeitorias. Em 2008, o acervo
será aberto ao público para pesquisa. Antes disso, o paulistano só poderá
ver algumas peças, ao menos as do tenor Assis Pacheco. Para homenagear o
artista, no dia do aniversário do Teatro Municipal (11 de setembro) haverá
uma exposição no saguão principal.



De Burle Marx para o balé Pétrouchka (1954)


O arquiteto desenhou o figurino e o cenário do balé. Em Pétrouchka, de Igor
Stravinsky, um músico se apresenta com três bonecos numa praça da Rússia: um
palhaço, chamado Pétrouchka, é apaixonado pela bailarina, que ama o mouro. A
roupa acima, de seda amarela, é de Pétrouchka.



A mais antiga do acervo, de autoria desconhecida (1942)


Pertencia ao tenor Armando de Assis Pacheco, um dos nomes mais importantes
da ópera no País, que morreu em 2005. Foi usada na encenação de O Rigoleto,
uma das 50 óperas que interpretou. Ela chegou ao guarda-roupa do Teatro
Municipal no início da semana passada, com mais outros quatro trajes do
tenor.



De Di Cavalcanti para A Lenda do Amor Impossível (1954)


O balé místico fazia parte de uma série de comemorações do IV Centenário de
São Paulo. O pintor Emiliano Di Cavalcanti desenhou o figurino e o cenário
da peça, que acompanha o estilo audacioso da roupa acima. O macacão,
confeccionado com malha retilínea, recebeu a aplicação de seis peitos de
espuma forrados de algodão.



De Conrado Segreto para Suor Angelica (1990)


Um dos estilistas mais importantes do Brasil da segunda metade da década de
80, Conrado Segreto fez todo o figurino de Suor Angelica, de Giacomo
Puccini. No vestido acima, a mistura de matérias dá um exemplo da
criatividade do estilista: mangas de palha, saia de crepe de seda e blusa de
shantung de seda.



Do costureiro Denner para a ópera Lakmé (1972)


Precursor da alta-costura brasileira, o paraense Denner foi o grande sucesso
da moda na década de 70. E foi escolhido para desenhar o figurino de Lakmé,
de Leo Delibes, ópera cômica de Paris, do século 19. Mas as roupas seguem o
estilo dos 70, como a peça acima: túnica de tapeçaria com gola de crochê e
pedraria.



De Flávio de Carvalho para A Cangaceira (1954)


Conhecido por suas performances, o arquiteto Flávio de Carvalho chegou a
sair de saias para lançar o traje do executivo dos trópicos na década de 30.
Contrariando as expectativas, para o balé criou um visual de cangaceira
suntuosa, com veludo cristal e seda, apesar do cinturão e das botas da
bailarina.


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