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O Estado de São Paulo, 31 de março de 2013 | 22h 04

 “Online pode ser melhor que curso presencial”

Professor do
MIT que virá ao Brasil fala sobre a onda dos cursos digitais de acesso gratuito

Carlos Lordelo, do Estadão.edu

Antes de assumir o edX, Agarwal foi diretor do
Laboratório de Inteligência Artificial do MIT

SÃO PAULO – As principais universidades
norte-americanas se lançaram de cabeça no ensino online gratuito. Ano passado,
Harvard e o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) criaram o edX, uma
plataforma de cursos abertos para massas (MOOCs, na sigla em inglês). Cada
instituição se comprometeu a investir US$ 30 milhões. Meses antes nascia o
Coursera, que hoje reúne cursos de 62 universidades, como Stanford e Columbia.
Não à toa, 2012 foi eleito o ano dos MOOCs pelo jornal The New York Times.

Só o edX já tem 800 mil alunos inscritos – incluindo
23 mil brasileiros – em 23 cursos: sete do MIT, seis de Harvard, seis da
Universidade da Califórnia e quatro da Universidade do Texas.

O mais popular é o de Circuitos e Eletrônica,
ministrado por Anant Agarwal, com cerca de 150 mil alunos. Professor do MIT, o
indiano foi convidado para ser o primeiro presidente do edX. “Tudo que o aluno
precisa é ter vontade de aprender e conexão à internet”, disse ele ao Estado, em
sua primeira entrevista à imprensa brasileira.

Os cursos não têm apenas videoaulas expositivas, mas
também exercícios e avaliações virtuais. Ao contrário do ensino a distância
tradicional, nessa modalidade não há a figura do tutor e grande parte da
aprendizagem se dá pela interação entre os alunos nos fóruns de discussão.
Quando aprovados, os estudantes recebem um certificado do edX.

“Num futuro não tão distante será comum para as
universidades reconhecerem créditos dos MOOCs”, diz Agarwal, que fará na
quinta-feira a conferência de encerramento do Transformar, um evento em São
Paulo sobre inovação e tecnologia na educação.

Para que servem os MOOCs
e quais as vantagens deles?

Promover o acesso de alunos de qualquer lugar do
mundo à educação é um grande benefício. Outro, para a universidade, é que ela
não precisa sair do câmpus para oferecer cursos. E quando você tem um curso
online combinado com ajuda pessoal de um professor, no formato híbrido (blended),
descobrimos que a qualidade supera de longe a dos cursos tradicionais
presenciais. Assim, um dos grandes benefícios para as universidades também é
poder aumentar muito a qualidade da educação no câmpus.

Há quem critique a falta
de contato entre aluno e professor.

Mais de uma geração de alunos cresceu com as redes
sociais, enviando mensagens de texto e batendo papo virtualmente. São pessoas
que se sentem confortáveis em aprender online. Fizemos uma pesquisa com alunos
que completaram o curso de Circuitos e Eletrônica. Pedimos para eles compararem
o curso online com o tradicional. Os resultados foram surpreendentes: 36% dos
alunos disseram que a experiência online foi melhor que a presencial e 63%
acharam tão bom quanto. O curso online é muito bom, mas ter contato com um
instrutor só melhora o aprendizado.

Como motivar os alunos?

Os cursos do edX são rigorosos. São os mesmos
ensinados nos câmpus e a taxa de aprovação varia de 5% a 20%. Isso significa que
até 95% dos alunos podem não ser aprovados porque abandonam ou não têm
desempenho suficiente. Fora isso, muitos terminam os cursos e não pedem o
certificado. Não sabemos quantos podem estar fazendo isso. Então, precisamos ter
cuidado com estatísticas. Além disso, os alunos têm de levar o curso a sério e
ser ativos, clicar em pelo menos um exercício ou dever de casa. Para os alunos
com postura ativa, mas que não conseguem passar, temos várias ideias para
engajá-los. Um professor, por exemplo, acessa os fóruns dos alunos, identifica
as dificuldades e toda semana produz um vídeo com os pontos fracos. Outra
maneira é oferecer material que ajude o aluno, porque às vezes ele não tem o
background para acompanhar o curso. Para fazer meu curso de Circuitos é
necessário saber equações diferenciais. Mas não ensinamos isso no edX. Então eu
sugiro que o aluno assista às videoaulas de Salman Khan (que, aliás, foi meu
aluno no MIT). Podemos ainda oferecer cursos híbridos, com apoio de um professor
local, o que aumenta a taxa de sucesso. Fizemos isso com a Universidade Estadual
de San Jose, da Califórnia. Os alunos assistiram aos vídeos, fizeram exercícios
e depois seguiram para aula discutir com o professor. Os resultados foram
incríveis. Tradicionalmente este curso tinha uma taxa de reprovação de 21%, mas
com o edX caiu para 9%.

Como construir uma relação mais íntima com os
alunos?

Acho que a intimidade já existe. Eu, por exemplo,
gravo as aulas no mesmo estilo de Salman Khan, escrevendo em um tablet. Recebo
e-mails de alunos dizendo que sentem como se estivessem ao meu lado me vendo
explicar os conceitos. Eles acham essa relação muito pessoal. É melhor do que
ficar na última fileira de um auditório para 500 pessoas vendo uma aula.

Vocês pesquisam o impacto dos MOOCs na
educação superior. O que descobriram?

Estamos capturando dados dos alunos no edX: como eles
aprendem, de onde vêm, quais exercícios acertam e quais erram, que tipo de
material usam. Com isso podemos melhorar o modo pelo qual eles aprendem. Em um
curso, separamos os alunos em dois grupos para verificar quem se sairia melhor
de acordo com as ferramentas que utilizavam. Em outro caso, um professor de
Harvard quis saber, com base nos dados gerados pela plataforma, quais recursos
os alunos utilizavam em diferentes momentos. Ele descobriu que, quando os alunos
resolvem o dever de casa, acessam bastante os vídeos. Mas quando fazem o exame
final, olham muito o livro-texto.

O governo de São Paulo
lançou um programa de inclusão de alunos de escolas públicas nas universidades
estaduais que prevê, para parte dos cotistas, um curso semipresencial de dois
anos, com certificação. Se aprovado, haverá uma formação generalista com o
objetivo de chegarem mais preparados à universidade. O projeto recebeu críticas
porque, entre outros motivos, os alunos de escolas públicas teriam menos atenção
nesse modelo. Qual sua opinião?

Acho que uma maneira de o ensino superior se
desenvolver é, em vez de trazer os alunos para os câmpus por quatro anos,
deixá-los fazer disciplinas online por um ano, depois passar dois anos na
universidade e, no último ano, fazer um estágio e mais atividades online. Esse
projeto parece uma boa ideia, mas eu teria de olhar mais a fundo a plataforma,
para saber como ela é. Muitas ainda estão em desenvolvimento. Ela terá um
componente social forte? Haverá fóruns de discussão? Como será a interface do
usuário? Tudo isso é importante para manter o aluno motivado. Eu teria de
conhecer esses aspectos, mas pode ser uma boa ideia se a plataforma for muito
boa.

Alunos brasileiros destacam flexibilidade de plataforma

LUIZA DIAS VIEIRA , ESPECIAL PARA O ESTADO – O Estado de S.Paulo

O piauiense Fleyáriston Salazar, de 21 anos, é
calouro de Engenharia Elétrica de uma faculdade particular de Teresina (PI) e
sempre sonhou em estudar nos Estados Unidos. Quando ouviu falar do edX,
encontrou uma opção. "Vi o MIT envolvido e não acreditei", conta. Ele agora é
aluno do MOOC de Circuitos e Eletrônica do MIT, com duração de 14 semanas.
Segundo o estudante, as aulas são gravadas, inclusive as práticas em
laboratório. "Mesmo que eu só possa acompanhar a distância, não deixa de ser uma
grande oportunidade."

No caso da biomédica paulista Ellen Souza, de 35, o
primeiro contato com esse tipo de curso ocorreu por acaso. Ela procurava na
internet a data de inscrição de um curso de inverno quando descobriu o Coursera.
"A plataforma reúne universidades de prestígio internacional, às quais muito
provavelmente não conseguiria chegar", diz. Ela já terminou os cursos de
Introdução à Genética e Evolução (10 semanas) e Ciência Genômica Experimental
(14 semanas). Agora faz Introdução à Fisiologia Humana (12 semanas). Ellen
acredita que o Brasil ainda está atrasado em relação ao exterior. "Muitas
matérias só são ensinadas na pós-graduação."

O engenheiro de software Davi Barbosa, de 27, que
trabalha no escritório do Google em Belo Horizonte, é aluno assíduo de MOOCs.
Ele já fez diversos cursos, tanto no Coursera quanto no Udacity, plataforma
focada em ciências exatas e tecnologia. "Com aulas de universidades renomadas,
professores que estão entre os mais famosos de suas respectivas áreas,
acessíveis para todos e extremamente didáticas, era óbvio que se tratava de uma
revolução", diz. Barbosa destaca a praticidade de assistir aos vídeos na hora em
que preferir. A falta de certificado não o incomoda. "O que importa é o que você
aprendeu. Eu colocaria no meu currículo. No mínimo indica que você se esforça
para continuar aprendendo."

Categorias: Medicina

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