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O Estado de São Paulo, Terça-feira, 29 abril de 2008


ECONOMIA &
NEGÓCIOS

 


 

Os
empregos do entretenimento


 

José Pastore*

 

Poucos se dão conta de
que a cultura é responsável por uma grande parcela dos empregos. Os indicadores
do IBGE revelam que o setor responde por cerca de 1,6 milhão de empregos formais
no Brasil (Gilberto Gil e Paula Porta, Economia da cultura, Folha de S.Paulo,
3/2/2008).

 

Dentro da cultura, o
subsetor do entretenimento, que reúne cinema, teatro, televisão e música, é um
dos mais intensivos em trabalho.

 

O Banco Mundial estima
que a cultura gere cerca de 7% do PIB global, sendo o entretenimento responsável
por dois terços do total. Esse é um dos setores que mais crescem no mundo. Em
2006, teatro, música, cinema e televisão geraram uma receita de US$ 70 bilhões
nos Estados Unidos – o dobro do registrado em 1990, em termos reais. Cinqüenta
por cento dos empregos e dos salários vieram do teatro de Nova York e do cinema
e da televisão da Califórnia (The arts and entertainment industries, Labor
Monthly Review, outubro de 2007).

 

Há quem estime em 1% a
contribuição do entretenimento ao PIB do Brasil. Esse número deve estar
subestimado pelo fato de uma grande quantidade de atividades ocorrer no mercado
informal de trabalho.

 

Tome o caso do
carnaval. As escolas de samba movimentam verdadeiros exércitos de costureiras,
marceneiros, mecânicos, pintores, aderecistas, iluminadores, técnicos de som e
tantos outros profissionais que trabalham intensamente para pôr os desfiles na
avenida. Além disso, mantêm inúmeros programas sociais para a comunidade. É
trabalho para o ano inteiro.

 

Nada disso é
contabilizado para compor o PIB da cultura ou do entretenimento. O que é
informado para compor as contas nacionais desse setor é a crescente produção
cinematográfica, a montagem de peças em teatro com bilheteria registrada, os
programas de televisão, os conjuntos musicais que emitem nota fiscal, as artes
plásticas apresentadas em galerias, exposições e museus organizados, a dança com
registro nos órgãos públicos e outras manifestações que mantêm registros
contábeis.

 

As atividades
culturais e de entretenimento vão muito além do que é visível e contabilizado.
Se levarmos em conta toda a receita gerada pelas inúmeras formas de
manifestações informais, o PIB da cultura e do entretenimento deve estar perto
dos 3%.

 

Apesar disso, os
profissionais do entretenimento se queixam da instabilidade do seu trabalho. De
fato, esse mercado é oscilante. Ora há trabalho; ora não há.

 

Neste momento em que
se discute a reformulação dos incentivos fiscais à cultura em geral, vale a pena
mencionar que, com os mesmos recursos que o governo destina ao setor, a
quantidade de empregos poderia ser maior e mais estável. Bastaria reorientar os
recursos não para os megaespetáculos e sim para as centenas de milhares de
manifestações dos espetáculos da periferia das cidades e do interior do Brasil.

 

O potencial dessas
áreas é enorme. O programa de calouros de música erudita da TV Cultura –
Prelúdio -, conduzido pelo criativo maestro Julio Medaglia, tem revelado uma
quantidade espantosa de novos talentos que vêm das periferias e do interior.

 

Ou seja, há muito o
que explorar do lado da demanda, assim como há muito o que fazer do lado da
oferta. O setor precisa de profissionais para os quais nem preparação existe. O
consagrado diretor de teatro José Possi Neto tem insistido, com razão, na
necessidade de se criar escolas para preparar os jovens na arte da marcenaria
dos cenários, nos segredos da costura dos figurinos, nas técnicas de iluminação
e sonorização de um espetáculo e tantas outras atividades que, apesar de não
aparecerem na ribalta, são as que garantem a boa qualidade dos espetáculos.

 

Está aí um campo de
trabalho muito promissor para jovens e adultos. Não é preciso montar
superestruturas para preparar esses profissionais. Cursos desse tipo podem ser
dados em locais simples e com pouco equipamento. Tais projetos, assim como as
boas escolas de arte dramática e de música, merecem apoio, pois fazem parte da
tão necessária qualificação de mão-de-obra.

 

Enfim, com os mesmos
recursos (cerca de R$ 1 bilhão por ano) e com um pouco mais de racionalidade, a
cultura e o entretenimento podem dar uma contribuição ainda maior ao emprego. A
demanda por diversão sadia cresce a cada dia. Está na hora de encurtarmos as
discussões e ampliarmos as realizações.

 

*José Pastore é professor
da FEA-USP. E-mail:jpjp@uninet.com.br. Site: www.josepastore.com.br

 

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