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Revista Isto É,
TECNOLOGIA & MEIO
AMBIENTE,
|  N° Edição:  2135 |  08.Out.10 – 21:00 |



Planeta aquário

A
maior pesquisa sobre a biodiversidade marinha já realizada registra 1,2 mil
novas espécies – e mostra como sabemos pouco sobre os oceanos

André Julião

Engana-se quem pensa que
os peixes formam a comunidade mais rica dos oceanos. Enquanto cerca de 16 mil
espécies deles são conhecidas em todo o mundo, estima-se que em apenas um litro
de água salgada haja 18 mil tipos de bactérias. Mais: segundo os cálculos dos
cientistas, quase um bilhão de espécies desses seres microscópicos habitam os
mares. A informação é apenas uma das surpresas levantadas pelo maior estudo
sobre a biodiversidade oceânica já realizado. Divulgada na semana passada e
batizada de Censo da Vida Marinha, a pesquisa durou dez anos e envolveu 2,7 mil
pesquisadores de 670 instituições, provenientes de mais de 80 países.

“O mais surpreendente é a
constatação de que os oceanos são riquíssimos, muito mais interconectados do que
se pensava e passam por mudanças que ainda não compreendemos”, diz Paul
Snelgrove, um dos cientistas participantes do estudo e autor do novo livro
“Discoveries of the Census of Marine Life” (“Descobertas do Censo da Vida
Marinha”), uma das publicações resultantes da pesquisa. “Há bastante trabalho
sendo feito, mas também existe uma urgência quanto à sustentabilidade”, afirma.

Outro exemplo de como a
vida nos oceanos é interligada é uma criatura de meio milímetro. O Ceratonotus
steiningeri é parecido com uma lacraia e nunca tinha sido visto até 2006. O
invertebrado foi achado a 5,4 mil metros de profundidade, na costa atlântica da
África. Para surpresa dos biólogos, ele foi encontrado novamente a uma distância
de 13 mil quilômetros, no Pacífico Central. Outro registro intrigante diz
respeito ao deslocamento de certas espécies. A migração do atum de barbatana
azul do Pacífico, por exemplo, nunca havia sido monitorada em detalhes antes do
censo. Sabe-se agora que esses peixes de até 15 quilos cruzam três vezes o
oceano em 600 dias. 

No Brasil, embora as
pesquisas tenham avançado nos últimos tempos, há pouco sendo feito para conhecer
profundamente a fauna marinha. Nosso olhar para o oceano pode ser explicado em
parte por uma frase proferida por um cientista francês à bióloga Lucia Campos,
uma das brasileiras que colaboraram com o estudo. “Ele disse que nós vamos à
praia, mas muitas vezes sentamos de costas para o mar”, conta Lucia. Segundo a
pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, existem cerca de dez mil
espécies brasileiras catalogadas, mas esse número deve representar apenas 28% de
nosso patrimônio. 

 “É importante que haja
mais investimentos no conhecimento da nossa biodiversidade marinha, seus
benefícios e papéis no funcionamento dos ecossistemas”, afirma a bióloga. Esse
conhecimento é essencial para a conservação. O País participa entre 18 e 29 de
outubro da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) das Nações Unidas, no
Japão, sem ter cumprido a meta de preservar 10% dos ecossistemas costeiros e
marítimos – apenas 1,5% dos hábitats marinhos dispõe dessa proteção. A
importância de novas pesquisas é resumida pelo canadense Snelgrove: “Conhecer a
vida nos oceanos pode nos tornar melhores guardiões do que temos sido até
agora.”


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