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O TEMPO – 06/05/2019 – BELO HORIZONTE, MG

Professores são despreparados para enfrentar choque cultural

POR CLARISSE SOUZA 

A professora Luísa Torres Furtado, 36, aprendeu na prática, ao longo de quatro anos como educadora em uma escola municipal de Belo Horizonte, que lecionar geografia é apenas parte do desafio diário a ser enfrentado em sala de aula. Muitas vezes, antes de ensinar o conteúdo da grade curricular, ela tem de lidar com aspectos da vida dos alunos, como violência doméstica, dificuldade financeira e até mesmo fome.

“Não me sinto preparada para lidar com isso”, admite Luísa, que fez parte do Observatório do Professor, estudo a ser publicado nesta semana pelo Instituto Península, que revela que o educador brasileiro se sente incapaz de enfrentar a realidade dos alunos da escola pública, além de solitário, por não ter com quem compartilhar experiências. A pesquisa coletou dados de mais de 1 milhão de professores de todo o país.

Idealizados como protagonistas no processo de formação de crianças e adolescentes, os professores ouvidos pelo estudo apontaram que a formação nas universidades não os prepara para intervir quando o aprendizado é prejudicado pelo contexto social dos estudantes. “É o aluno, por exemplo, que tem 9 anos e cuida de irmãos de 1 ano, que tem que providenciar comida para ele mesmo comer. A gente tem isso. É o aluno que tem o pai e a mãe que bebem, que vê o pai ir preso ou morrer na frente dele”, exemplifica a professora da Bahia Lorena Santos, em depoimento à pesquisa.

A diretora executiva do Instituto Península, Heloisa Morel, afirma que há um grande choque cultural nas escolas, o que tem impacto na relação entre aluno e educador: “Muitas vezes, os professores não se percebem reconhecidos no mundo das crianças, por viverem em uma realidade (social) muito diferente da deles. Isso gera um afastamento, e o professor não sabe como se colocar no lugar do aluno, ter empatia.”

Solidão. Para complicar, o estudo revela que o professor da rede pública não encontra espaço para dividir experiências entre os colegas. Isso torna mais difícil encontrar soluções que ajudem os profissionais a lidar com as adversidades, o que, segundo a pesquisa, provoca um profundo sentimento de solidão. “(Os professores) não se sentem parte de um sistema integrado e tentam lidar sozinhos com casos que surgem em sala de aula e que precisariam do apoio de outros profissionais da área de saúde e assistência social”, aponta um trecho do estudo.

Para a diretora executiva do Instituto Península, o resultado da pesquisa preocupa: “Nosso entendimento é que essas questões impactam o ensino. Quando se desenvolve o professor por inteiro, ele é capaz de lidar com o princípio da educação, que é o desenvolvimento humano”.

Produção. A maior parte da pesquisa é baseada em netnografia, estudo que usa a internet como ferramenta antropológica. Também foi feito trabalho de campo com imersão na rotina de professores.

O que diz a PBH

Em conjunto. A Secretaria Municipal de Educação (Smed) de BH diz que atua de forma conjunta com as áreas de saúde e assistência social para atender as necessidades dos alunos.

Raízes. “A educação não pode responder sozinha pela vulnerabilidade de um país com problemas sociais de raízes profundas”, afirma Eliane Vilassanti, gerente de Clima Escolar da Smed.

Formação acadêmica adequada ajudaria a resolver deficiência

A gerente de projetos do Instituto Península, Lia Glaz, avalia que o caminho para sanar a sensação de impotência dos professores diante de tantas variáveis no ambiente escolar deve começar na formação acadêmica dos educadores. “O professor, quando passa por formação, não é preparado para dar garantia de aprendizagem nesse ambiente de vulnerabilidade”, aponta. Para ela, é preciso preparar o corpo docente brasileiro para atuar no desenvolvimento humano dos alunos da educação básica.

Heloisa Morel, diretora executiva do instituto responsável pelo Observatório do Professor, concorda. “É preciso assumir que o ofício do professor precisa de aprimoramento contínuo e de estimulação da parte humana. É necessário conectar esse profissional com o propósito que o fez se tornar professor”, acredita.

Aula de humanidade. A professora Luísa Torres Furtado, que dá aula para estudantes da rede pública no bairro Santa Tereza, na região Leste de BH, considera que “a falta de valores humanos essenciais” é uma barreira para o aprendizado e acredita que alunos e professores ganhariam muito mais se o ensino não fosse tão engessado. “Dentro de uma hora de aula, 20 minutos é aula de humanidade. Muitas vezes, o conteúdo (dos livros) não traz um significado para a realidade do aluno”, afirma.

Quem são os educadores?

Professores de escolas públicas municipais, estaduais e federais nos ensinos infantil, fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Trabalho de campo

Dez professores foram acompanhados por pesquisadores por 48 horas. Outros 20 enviaram relatórios diários sobre sua rotina pela internet. Por meio de grupos em redes sociais, pesquisadores coletaram dados de outros 1.129.156 educadores.

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