O Estado de
São Paulo, 22
de janeiro de 2012|

Programado para morrer

Por Tatiana
de Mello Dias

A
obsolescência programada reduz a durabilidade de produtos
para estimular o
consumo, mas um documentário vem mostrar o lado sombrio
desta prática raramente
admitida pela indústria

SÃO PAULO
– A cineasta
Cosima Dannoritzer usa o mesmo celular há 13 anos.
“Ele nem tira fotos, mas eu
tenho uma câmera para isso”, diz. Depois de ouvir
lendas urbanas sobre
obsolescência programada – a prática da
indústria de determinar uma vida útil
curta em seus produtos para vender mais –, ela decidiu
investigar o tema. E a
realidade se tornou ainda mais estranha para ela.

Em seu documentário,
The
Light Bulb Conspiracy (A conspiração da
lâmpada, em inglês), Cosima mostra que
a indústria tem práticas escusas para determinar
a validade dos seus produtos.
E isso ocorre especialmente na indústria da tecnologia.

O caso da primeira
geração
do iPod é emblemático. Casey Neistat, um artista
de Nova York, pagou US$ 500
por um iPod cuja bateria parou de funcionar 8 meses depois. Ele
reclamou. A
resposta da Apple foi “vale mais a pena comprar um iPod
novo”. O caso virou uma
ação de rua nos cartazes publicitários
da Apple, retratada no vídeo iPod’s
Dirty Secret. O filme foi visto por Elizabeth Pritzker, uma advogada de
São
Francisco. Ela entrou com uma ação coletiva em
nome dos consumidores – naquela
altura, a Apple já havia vendido três
milhões de iPods pelos EUA.

No caso do primeiro iPod, a
empresa fez um acordo com os consumidores. Elaborou um programa de
substituição
das baterias e estendeu a garantia dos iPods por US$ 59. A Apple disse
ao Link
que “a vida útil dos produtos varia muito com o
seu uso”.

“Eu acredito que o
desenvolvimento do iPod foi intencionalmente uma
obsolescência programada”, diz
a advogada no documentário.

De diretora, Cosima
abraçou
a causa e virou ativista contra o consumismo. “Na
indústria da tecnologia,
muitos consumidores estão sempre procurando pela
última versão, para ter novas
funções, mas também para seguir a
moda”, afirma. “Muitas formas de
obsolescência programada estão juntas. Na forma
tecnológica pura, mas também na
forma psicológica em que um consumidor voluntariamente
substitui algo que ainda
funciona só porque quer ter o último
modelo.”

Uma dessas travas
eletrônicas é a que está em impressoras
a jato de tinta. No filme, um rapaz vai
à assistência para consertar sua impressora. Os
técnicos dizem que não há
conserto. O rapaz então procura pela web maneiras de
resolver o problema. Ele
descobre um chip, chamado Eeprom, que determina a
duração do produto. Quando um
determinado número de páginas impressas
é atingido, a impressora trava.

A Epson nega. A assessoria
de imprensa afirma que não há nenhum prazo para
seus produtos. “Rejeitamos
totalmente a afirmação de que eles são
fabricados para apresentar defeitos
depois de algum tempo”, disse. “A almofada de tinta
e o Eeprom mencionados no
programa são instalados para manter a alta qualidade da
impressora e não para
controlar a vida útil do produto.”

Crescimento. A prática,
porém, não é de
agora. A história da obsolescência programada
confunde-se com a história da
indústria no século 20. E tudo começou
com lâmpadas.

Na década de 1920,
um
cartel que reunia fabricantes de todo o mundo decidiu que as
lâmpadas teriam
uma validade: 1.000 horas (embora a tecnologia da época
já pudesse produzir
lâmpadas mais duráveis, e uma lâmpada de
100 anos que ainda permanece acesa é
citada logo no início do documentário). Assim, as
empresas conseguiriam
garantir que sempre haveria consumidores para seus produtos.

Com a crise de 1929 o
consumo caiu. E a obsolescência programada se consolidou como
uma estratégia da
indústria para retomar o crescimento.

O economista Bernard London
foi o primeiro a teorizar sobre a prática. Em 1932, publicou
o livro The New
Prosperity. O primeiro capítulo deixa claro:
“Acabando com a depressão através
da obsolescência programada”. Ele sugere que, se as
pessoas continuassem
comprando, a indústria continuaria crescendo e todos teriam
emprego.

Em teoria, diz Cosima,
não
há nada de errado na obsolescência programada.
“Nós não queremos um computador
com 20 anos de idade”, exemplifica. “Mas a vida
útil dos produtos está se
tornando mais curta e não dá para atualizar nada
sem jogar o objeto inteiro no
lixo”, diz a cineasta.

E é aí
que vem a conta.
Cosima visitou lixões em Gana, na África, para
chegar o final da cadeia
produtiva dos eletrônicos de consumo rápido. Viu
pessoas serem exploradas em
busca dos metais valiosos dos produtos.

“Se eu uso meu
celular por
dois anos em vez de um, não é um grande
sacrifício, mas se todos fizerem isso,
significaria que apenas metade dos celulares em desuso seriam enviados
para
lixões ilegais.”

Para a diretora, a crise
mundial mais uma vez pode refletir no comportamento da
indústria. Só que, desta
vez, ao contrário. Na Consumer Eletronics Show, a CES, maior
feira de
tecnologia dos EUA, que ocorreu no início do ano, a
pirotecnia de lançamentos
de aparelhos dividiu espaço com outra tendência: a
durabilidade dos produtos.
Passou quase despercebido, mas algumas empresas já
estão partindo para a
“desobsolescência programada”, como
escreveu Lance Ulanoff, editor-chefe do
site de tecnologia Mashable.

Ele cita as smart TVs
“à
prova de futuro” da Samsung, que têm um kit para se
manterem atualizadas.
“Claramente a Samsung descobriu que os consumidores
não estão tão interessados
em TVs de alta definição que ficam desatualizadas
ou saem de moda em poucos
anos de uso”, escreveu. Ele também falou do
Motorola Droid Razr Max, smartphone
Android, cuja bateria roda até 15 horas de vídeo
com uma carga.

“Há
empresas que estão
vendendo produtos mais duráveis convencendo seus
consumidores de que isso é um
bom investimento”, diz Cosima. Ela cita no
documentário as lâmpadas
ultra-duráveis da Philips que ficam acesas por
até 25 mil horas. Segundo a assessoria
da Philips, os produtos verdes representaram 31% do total das vendas da
companhia. Foram mais de 800 lançamentos nessa
área nos últimos dois anos.

“A
obsolescência programada
sempre faz sentido enquanto você pensa em como manter o
crescimento da indústria
e a criação de empregos a curto prazo”,
diz Cosima. “O problema é a longo
prazo. Estamos usando nossos recursos naturais e criando montanhas de
lixo. A
obsolescência programada funcionou bem no passado, mas
estamos começando a ver
as consequências. É um sistema que não
pode ser usado para sempre.”

‘Estamos
criando montanhas de lixo’

Por Tatiana
de Mello Dias

Diretora defende
modelos alternativos de consumo

LOGIN: Cosima
Dannoritzer, cineasta

Por que você fez o
filme?

Eu ouvia um monte de lendas
urbanas sobre obsolescência programada. Todas elas iam pela
mesma linha: era
uma vez um inventor que patenteou um produto que duraria para sempre
– lâmpadas,
pneus, carros, o que seja – e então o inventor ou
a invenção desapareceram sob
circunstâncias misteriosas. Você pode procurar pela
internet. Está cheia dessas
histórias. Eu queria saber se havia alguma verdade nelas. E,
na verdade, a
realidade se tornou ainda mais estranha.

A indústria assume
isso?

A maioria dos fabricantes
vão dizer que eles nunca fariam algo do tipo porque seria
contraproducente e
afugentaria os clientes. Mas isso não é verdade
porque, por exemplo, a maioria
das impressoras jato de tinta tem a vida útil muito curta,
independentemente da
marca que você compra. Nós não temos
alternativa. Outros fabricantes vão dizer
que isso não é um problema, contanto que os
preços continuem baixos. Eles não
estão totalmente errados. Mas tudo isso cria um grande
problema para o meio
ambiente, sem mencionar para os nossos bolsos.

Quais são as piores
empresas?

Meu filme não
é sobre
empresas específicas. O problema com a
obsolescência programada é que isso
está
espalhado em todo o sistema. É um dos pilares que sustenta o
crescimento da
economia. O pior para mim é que o consumidor não
está sendo avisado sobre a
duração do produto. Se nós
tivéssemos essa informação,
poderíamos fazer uma
escolha consciente sobre qual modelo ou marca comprar. Outro grande
problema é
que a obsolescência programada contribui para a
criação de montes de lixo. E,
por último, mas não menos importante, um monte de
criatividade é dedicado à
diminuir a vida útil, e para mim isso é uma
perversão. Design e engenharia
deveriam melhorar nossas vidas, e não ajudar a criar lixo.

A obsolescência
programada fez sentido no passado. E hoje?

A obsolescência
programada
sempre faz sentido quando você pensa em manter o crescimento
da economia e a
criação de empregos a curto prazo. O problema
é a longo prazo. Nós estamos
usando os recursos naturais muito mais rápido do que o
necessário porque uma
vez que algo é jogado fora, a maioria dos materiais
não é reutilizada,
incluindo alguns metais extremamente raros, e em
adição a isso nós estamos
criando montanhas de lixo. Nós estamos começando
a ver as consequências, que
não são aceitáveis.

Você vê
sinais de
mudanças por parte da indústria?

Quando eu comecei a
procurar alternativas, eu fiquei preocupada que só acharia
poucos acadêmicos
aposentados cujas ideias não funcionariam na
prática. Mas eu fiquei gratamente
surpresa por encontrar várias abordagens que funcionam.
Há empresas vendendo
produtos mais duráveis convencendo seus consumidores de que
esse é um bom
investimento. Uma lâmpada que dura 25 vezes mais e custa 25
vezes mais não é
mais cara.

Quais são as
melhores práticas da indústria?

Eu acho que as melhores
são
as que calculam o custo total de um produto, e que pegam de volta os
produtos
quebrados para reciclá-los. Uma impressora barata parece
barata apenas porque
os custos reais não foram incluídos no
preço, mas eles eventualmente terão de
ser pagos na forma de problemas ambientais ou de saúde.

As pessoas estão
preparadas para consumir menos e melhor?

Geralmente, a maioria das
pessoas está preocupada com o fluxo de caixa, pagando o
mínimo possível. Mas
alguns consumidores começaram a comprar produtos de maior
duração. Também há
modelos como o aluguel de uma máquina em vez de
comprá-la, ou dividir um
produto com os vizinhos, ou iniciativas que ajudam as pessoas a
começarem a
consertar um produto. Uma vez que nós sabemos que nossos
gadgets têm um final,
é muito mais fácil se encorajar a
fazê-los durar mais.

Como podemos mudar
a cultura consumista?

Eu acho que devemos ficar
longe da ideia de que “bem-estar” está
sempre relacionado à posse de objetos,
de preferência algo que ninguém mais tenha. Eu
encorajaria as pessoas a
pensarem no que estão comprando produtos como presente. A
maioria das pessoas
hoje nos países desenvolvidos já tem tudo,
então eu acho que poderíamos pensar
em presentes diferentes: um item de segunda mão, uma
doação, em vez de comprar
coisas que se tornarão lixo muito rapidamente, e
não têm a ver com as reais
necessidades daquela pessoa.



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