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Estado de São Paulo, https://www.estadao.com.br/infograficos/educacao,tecnologia-salta-mas-carreiras-classicas-nao-saem-da-cabeca-dos-estudantes,1129545, 24/10/2020

TECNOLOGIA SALTA, MAS PROFISSÕES TRADICIONAIS NÃO SAEM DA CABEÇA DOS ESTUDANTES

Medicina, Direito e Engenharia continuam sendo os cursos mais procurados pelos jovens, apesar do avanço significativo e duradouro das graduações em áreas de tecnologia

Texto: Gonçalo Junior

A carinhosa pergunta “o que você vai ser quando crescer?” recebeu respostas parecidas dos estudantes brasileiros na última década. Dados do Censo de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC) entre 2010 e 2018 mostram que os jovens estão procurando cada vez mais carreiras ligadas às áreas de Tecnologia, como Computação e TI. Mas, mesmo com esse salto, as profissões tradicionais permanecem no topo da preferência e são aquelas com maior número de formados. Dados de 2019 apontam que 48% dos alunos no País estão matriculados em apenas dez cursos.

O cenário é semelhante em universidades públicas de ponta e instituições particulares. Neste ano, na Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), que seleciona estudantes para a Universidade de São Paulo (USP), os cursos com maior demanda absoluta foram Medicina, Direito, Engenharia, Economia e Psicologia. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), nos últimos cinco anos, as duas carreiras mais concorridas foram Medicina e Arquitetura. A lista é praticamente a mesma na Universidade Estadual Paulista (Unesp): a única diferença é a inclusão da Medicina Veterinária entre as cinco mais disputadas.

OS CAMINHOS DOS UNIVERSITÁRIOS

Evolução do número de cursos, matrículas, inscritos e formados no ensino superior entre 2010 e 2018

Levantamento da consultoria Educa Insight aponta o retrato das particulares. Em 2018, os cursos com mais alunos matriculados nessas instituições foram Direito, Administração, Enfermagem, Engenharia Civil e Psicologia.

A procura por profissões tradicionais se reflete também no Censo de Educação Superior. Em 2018, o número de matriculados no segmento de Negócios e Direito foi oito vezes maior que os matriculados em Computação. A área de Informação, que envolve Jornalismo e Psicologia na categorização do MEC, ostenta aumento de 120% no número de cursos entre 2010 e 2018. Isso significa que o avanço dos cursos de Tecnologia é significativo, representa uma onda duradoura, mas não ameaça a soberania dos cursos clássicos.

Os cursos inovadores representam um pedaço pequeno do bolo. Eles trazem visibilidade para as instituições e servem para o fortalecimento de uma marca (Daniel Infante, sócio da Educa Insights e especialista em mercado educacional)

A estudante Fabyanne Lariza Calazans, de 26 anos, escolheu a Saúde, área tradicional de formação que registra aumento de 83% no número de alunos matriculados entre 2010 e 2018. Atuando há três anos como técnica em enfermagem no Hospital Santa Marcelina, na zona leste, ela está no primeiro semestre na faculdade mantida pelo grupo.

“Eu não sei explicar direito o motivo da escolha. Foi uma vontade que sempre esteve comigo, desde pequena. Sempre quis cuidar e ajudar as pessoas”, diz a técnica do setor neonatal. “Eu digo ‘siga em frente’ para quem escolheu esta profissão”, diz a profissional.

Com o canudo nas mãos

O peso da tradição fica evidente quando a lupa está nos formados, quem está saindo com o canudo nas mãos. Em 2018, o País formou 480 mil profissionais nas áreas de Negócios, Administração e Direito. O número representa mais de 10 vezes os formados na área de Tecnologia e 20 vezes o número dos que pegaram diploma no segmento de Ciências Naturais, Matemática e Estatística. Em outras palavras, o Brasil ainda forma mais advogados e administradores do que analistas de sistemas e cientistas.

Em entrevista por videoconferência ao Estadão, a presidente da Microsoft Brasil, Tânia Cosentino, evidenciou a importância de o País se preocupar em resolver a baixa formação de jovens em tecnologia.

“Hoje temos no mundo 40 milhões de profissionais de TI (tecnologia da informação) e acreditamos que até 2025 vamos precisar de 200 milhões”, diz Tânia Cosentino. “No Brasil, em média 17% dos graduandos estão na área de exatas, muito abaixo de 24% nos países ricos. Na China, são 40%. Defendemos a programação desde a educação básica. Mesmo que o aluno não vire programador, isso vai ajudá-lo a desenvolver a parte cognitiva em toda a sua vida.”

Fernando Ferrari Putti, professor de Engenharia de Biossistemas e assessor da Pró-Reitoria de Graduação da Unesp, adiciona mais uma variável à equação: as particularidades do mercado de educação. Para ele, as comparações são difíceis.

Os custos de criação e manutenção de um curso de Administração são menores que os de Engenharia, por exemplo. Além disso, Engenharia é um curso mais demorado. É como tentar comparar os incomparáveis (Fernando Ferrari Putti, professor de Engenharia de Biossistemas e assessor da Pró-Reitoria de Graduação da Unesp)

“O setor privado é muito grande e heterogêneo, mas em grande medida concentra as matrículas em cursos cuja oferta envolve menor infraestrutura e custos. O curso de Direito é o maior exemplo disso. No campo da educação, temos o exemplo do curso de pedagogia”, opina Lalo Watanabe Minto, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. “Temos uma curta história de maior expansão desse ensino para camadas um pouco mais amplas da população e, portanto, o “peso” dessa tradição ainda é muito alto. Há muito de subjetividade nessa expectativa, mas também de elementos bem objetivos, como perspectivas de ascensão social, de carreiras bem estruturadas, e até mesmo de status”, completa.

O estudante Pedro Homem de Melo, de 17 anos, vislumbra ainda uma terceira via nessa balança entre cursos clássicos e tecnológicos: escolher uma profissão tradicional, mas com uma ponta de modernidade. Por isso, ele vai prestar vestibular para Engenharia Elétrica com ênfase em Computação. Filho de um advogado e uma empresária, o estudante do Colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo, decidiu seguir unicamente sua vocação. “Não consigo imaginar minha profissional longe dos números”, sorri. O momento de escolha da carreira é tão importante que os colégios estão ampliando as estratégias para ajudar os adolescentes a encontrar seu caminho profissional.

Para Ocimar Alavarse, professor da Faculdade de Educação da USP, fatores emocionais também fazem adolescentes sonharem com um jaleco branco ou com seu nome precedido da palavra “doutor”. “A educação superior, ou ter um diploma, significa ascensão social, mesmo que seja de maneira genérica”, diz o especialista. “A aspiração pela formação ainda é muito grande no País, principalmente em regiões como Norte e Nordeste”, concorda Infante.

Tecnologia: de olho no futuro

O avanço dos cursos de tecnologia aparece em vários indicadores. Se você olhar apenas o número de inscritos, gente interessada no curso, o número saltou de 140 mil para 719 mil em dez anos, de acordo com dados do MEC. É um aumento de mais de 500%. O crescimento também é significativo entre os alunos que se matricularam de fato em alguma faculdade pública ou privada. Aqui, o salto foi de 35%. Essa alta pressionou as instituições de ensino. O número de cursos na área quase triplicou, o que significou um aumento de quase oito vezes nas vagas.

Esse cenário não chega a ser totalmente surpreendente, afinal vivemos a era digital. Com a presença massiva das empresas na internet e o uso dos canais virtuais como parte do plano de negócios, os profissionais de tecnologia estão em alta faz tempo. O que chama a atenção é a seta que aponta para o futuro. Estudo desenvolvido pelo Escritório de Carreiras da USP (ECar) aponta as dez carreiras da próxima década. “Estamos preparando profissionais que vão exercer plenamente sua profissão em 2030. O contexto que vivemos, de presença da tecnologia em todas as profissões, vai se acentuar. O mundo será cada vez mais tecnológico”, diz Antonio Freitas, pró-reitor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

 

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