UOL EDUCAÇÃO
– 28/10/2018 –
SÃO PAULO, SP
Tecnologias
e fake news
mudam oferta e currículos de faculdades de jornalismo
ÉRICA FRAGA
Os
desafios enfrentados pelo jornalismo na onda da atual
revolução tecnológica têm
forçado uma reinvenção do ensino na
área, com mudanças nos currículos de
instituições antigas e a entrada de faculdades
com tradição em outras
disciplinas no mercado de comunicação.
“O
jornalismo digital foi uma transformação
paradigmática muito grande. Isso tem
feito com que grades curriculares que antes eram mantidas por 15, 20
anos,
agora durem, no máximo, quatro”, diz Helena Jacob,
coordenadora da graduação em
jornalismo da Cásper Líbero.
Segundo
especialistas, a informação tem se democratizado
com o maior acesso a dados, o
surgimento de novas ferramentas de visualização e
a disseminação mais rápida de
imagens e textos.
O
outro
lado dessa história vem sendo o desafio cada vez maior da
mídia tradicional na
esteira da concorrência mais intensa tanto com novos meios
confiáveis como com
fontes de notícias falsas, as chamadas fake news.
Isso
tem contribuído para ajustes frequentes na estrutura de
funcionamento da
imprensa —como mais investimentos em tecnologia e equipes
mais enxutas— e
exigido dinamismo e capacidade de adaptação dos
profissionais.
Essas
transformações vêm demandando respostas
rápidas das instituições de ensino.
“Temos
feito atualizações curriculares frequentes, mas,
ainda assim, a academia não
consegue acompanhar a velocidade de transformação
do mercado jornalístico”,
afirma Jorge Tarquini, coordenador de
pós-graduação da ESPM (Escola Superior
de
Propaganda e Marketing).
Uma
saída buscada pelas faculdades tem sido a oferta de cursos
mais curtos, com
foco em áreas específicas de
especialização, que podem ser ajustados com maior
frequência.
Mais
conhecido pela formação em economia e
administração, o Insper acabar de
lançar
um programa nesse formato, dentro da área de
políticas públicas.
A
iniciativa começou em outubro com um curso de economia para
jornalistas.
Em
novembro, a instituição oferecerá
outros dois módulos, um centrado na
mensuração de audiência e impacto e
outro na elaboração de textos. Segundo
Marcos Lisboa, presidente do Insper e colunista da Folha, a ideia
é,
posteriormente, avançar para uma
pós-graduação. “O atual
momento é difícil, tem
toda uma discussão sobre como serão os novos
modelos de negócios da imprensa,
de como ela vai se reinventar com as dificuldades que os meios
tradicionais
enfrentam”, afirma.
Segundo
ele, os programas vão se empenhar no desenvolvimento de
novas formas de gestão
e no treinamento para a análise crítica de dados
e outras informações.
“O
papel do jornalista é checar, desconfiar. Isso
não muda. Mas a ideia é que ele
não fique refém apenas da opinião das
fontes”, diz.
Para
Lisboa, a atual corrida presidencial no Brasil evidenciou a necessidade
de
maior embasamento por parte dos profissionais da imprensa.
“A
gente viu isso na televisão. Às vezes, o que
vinha [dos candidatos] era uma
resposta completamente estapafúrdia, que poderia ser
contestada por dados e
pesquisas que mostram o contrário do que estavam
falando.”
Segundo
Tarquini, um desafio em meio à necessidade de
formação especializada e
reciclagem mais frequente é o achatamento de
salários.
“Nós,
jornalistas, nunca tivemos tradição de valorizar
a educação continuada.
Mas
agora, com o achatamento de salários, certas
formações se tornaram praticamente
inviáveis”.
Esse
foi um dos motivos que levou a ESPM a encerrar neste ano sua
pós-graduação em
jornalismo digital e a transformá-la em quatro
módulos curtos, que podem ser
combinados ou cursados de forma independente. Os cursos, que
terão início no
próximo ano, tratarão de novas narrativas,
audiência na era digital e novos
modelos de negócios.
De
acordo com especialistas consultados, a
reformulação do ensino em jornalismo
também busca atender a profissionais com outras
formações que têm se convertido
em produtores de conteúdo.
“Hoje,
qualquer um com uma câmera ou smartphone pode produzir
conteúdo”, diz Ana Hutz,
assistente especializada da pró-reitoria de
educação continuada da PUC-SP.
Segundo
ela, isso faz com que cursos que a PUC tem oferecido, como
produção de conteúdo
para mídias digitais, atraiam desde jornalistas a
profissionais que trabalham
com jogos digitais e blogueiros.
Um
desafio dos cursos novos e da graduação
é a abordagem de temas como fake news e
a separação necessária entre
informação e conteúdo patrocinado por
empresas.
“Tentamos
mostrar que, embora a mídia seja
representação, há parâmetros
e técnicas para
apurar a informação”, diz Helena Jacob,
da Cásper Líbero.
Segundo
a acadêmica, ainda que as grades curriculares estejam sendo
atualizadas para
dar espaço a novidades, certos fundamentos da
profissão não mudaram.
Ela
cita como exemplo de reformulação a
saída de disciplinas focadas exclusivamente
em revistas —publicações muito afetadas
pela crise dos últimos anos— e a
entrada de aulas voltadas ao jornalismo de dados.
“O
uso
de dados se intensificou, mas é importante que
não se torne hegemônico. O
restante da apuração, o contraponto, a
reflexão das fontes, permanece essencial
para a boa prática da profissão.”
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