Revista Isto É,
CIÊNCIA, | N° Edição: 2337 | 06.Set.14 – 00:10 | Atualizado em
08.Set.14 – 11:46
Um gato, uma brasileira e um feito inédito na física
Como uma mineira de 32
anos conseguiu colocar em prática uma das mais complexas teorias da física
moderna e conquistar a comunidade científica internacional
Lucas
Bessel (lucasbessel@istoe.com.br)
Tudo que você enxerga ao
redor é resultado de luz refletida. Quando os raios do sol ou de uma lâmpada
batem em objetos, pessoas ou partículas no ar, eles retornam para os seus olhos
e dão forma e cor ao mundo. Esse princípio, um dos mais básicos da ótica, é tão
natural que parece impossível de ser contrariado. Pois foi exatamente isso que a
brasileira Gabriela Barreto Lemos, 32 anos, fez. À frente de um grupo de cinco
cientistas, ela conduziu um experimento revolucionário que registrou imagens
oriundas não da reflexão da luz, mas de um bizarro tipo de “telepatia” entre
partículas conhecido como “emaranhamento quântico”. Esse fenômeno – classificado
pelo físico alemão Albert Einstein como “assustador” – ocorre apenas com
partículas menores do que um átomo, como os fótons que formam a luz.
“A ótica quântica é
doidíssima, supercontraintuitiva, e eu adoro isso”, disse Gabriela à ISTOÉ em
entrevista por telefone. Mineira de Belo Horizonte, ela faz pós-doutorado no
Instituto para Ótica Quântica e Informação Quântica de Viena, na Áustria, uma
das instituições científicas mais respeitadas do mundo. Foi no laboratório
europeu que Gabriela desenvolveu o estudo que, pela primeira vez, registrou
imagens de um objeto que nunca “viu” luz (confira infográfico). “O feixe de luz
que foi detectado pela nossa câmera nunca atingiu a figura do gato, mas era
“irmão gêmeo” do feixe que passou por ele”, explica a pesquisadora. Isso provou,
com resultados práticos, que partículas que não têm nenhuma conexão física podem
compartilhar informação, como se conversassem telepaticamente.
A escolha da figura do
gato para registrar a imagem não foi por acaso. A equipe de Gabriela quis
homenagear o físico austríaco e ganhador do Prêmio Nobel Erwin Schrödinger. Em
1935, para mostrar o aparente paradoxo de outro conceito da mecânica quântica –
o das realidades paralelas que coexistem enquanto não forem observadas –, ele
propôs um experimento mental em que um gato é colocado dentro de uma caixa
fechada. A vida do animal ficaria à mercê de partículas radioativas. Se elas
fossem liberadas, o gato morreria. Se não, ficaria vivo. Para Schrödinger, se os
princípios da mecânica quântica fossem aplicados a seres e objetos maiores, o
gato teria que estar vivo e morto ao mesmo tempo, até que alguém abrisse a caixa
para observá-lo.
Acima de tudo, Gabriela
e sua equipe conseguiram trazer para o mundo real alguns dos conceitos mais
complicados da física moderna. E isso não é um feito pequeno. “Os chamados
efeitos quânticos não são nada triviais”, diz Gabriela, que ganhou uma bolsa de
estudo da Academia Austríaca de Ciências e não depende de nenhum programa do
governo brasileiro para conduzir sua pesquisa. Ao mesmo tempo, a equipe que
realizou o experimento vislumbra, num horizonte não muito distante, aplicações
práticas para essa captação indireta de imagens. Médicos poderiam, por exemplo,
iluminar um tecido sensível com uma luz invisível, que não danificaria as
células, enquanto um raio de luz “gêmea”, porém visível, criaria a foto em uma
câmera.
O trabalho pioneiro,
publicado na respeitada revista científica Nature, gerou reconhecimento
internacional para Gabriela e sua equipe. Quando terminar o pós-doutorado, no
fim de 2015, ela pretende retornar ao Brasil para continuar as pesquisas. “Temos
pessoas muito capacitadas na física brasileira”, diz. “Esse tipo de conhecimento
não pode ser negligenciado pelo País.”
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