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REVISTA ÉPOCA, 23/07/2009 – 19:52 – Atualizado em
26/07/2009 – 13:44

30 gramas de fetiche

Uma historiadora de moda
inglesa conta em livro a história da calcinha. Conclusão: quanto menores elas
são, maior a liberdade das mulheres

Fernanda Colavitti

Diariamente, modelos e
atrizes do mundo todo são alvos de câmeras indiscretas ávidas por imagens de
suas calcinhas – ou da ausência delas, o que costuma fazer um sucesso ainda
maior. Esse interesse pelas roupas íntimas alheias revela o significado atual
dessas nada inocentes peças do vestuário feminino. Cobiçadas por mulheres e
marmanjos (ainda que por motivos diferentes) e com uma variedade de modelos,
cores e tamanhos que atende a todos os gostos e ocasiões, as lingeries
movimentam a imaginação e o mercado.

Só no Brasil, foram vendidos
835 milhões de peças de moda íntima em 2008, um faturamento de R$ 4,59 bilhões
(sem contabilizar o mercado paralelo de fetichistas que compram e vendem
calcinhas… usadas). A maioria dos consumidores são mulheres à procura de
conforto e sensualidade, mas é crescente o número de compradores homens em busca
de um presente repleto de segundas intenções. As calcinhas modernas pesam em
média 30 gramas, mas estão carregadas de significados.

Fica difícil acreditar que
esses “objetos do desejo” um dia já foram “objetos do desprezo”, conforme conta
o recém-lançado livro Por baixo do pano, da historiadora de moda inglesa
Rosemary Hawthorne. “Ao escrever sobre a história das calcinhas, sem perceber,
eu estava mapeando a história social da mulher ocidental e descrevendo não só o
progresso de suas roupas de baixo, mas o progresso das próprias mulheres”, diz
Rosemary. Ela conta que, até o século XVIII, os calções, ou ceroulas, eram peças
exclusivas do guarda-roupa masculino e as mulheres que ousassem usá-los eram
consideradas “criaturas libertinas e de moral duvidosa”. Naquela época, as moças
sérias deixavam suas partes baixas livres, leves e soltas. Por baixo dos enormes
e pesados vestidos, bastavam uma ou duas anáguas, o corpete e uma camisola de
linho diretamente sobre a pele.

Foi somente por volta de 1800
que surgiram na França os modelos femininos, ancestrais da sensual calcinha
contemporânea. Produtos da Revolução de 1789, que simplificou o vestuário da
Europa inteira, os calções ou pantaloons vieram para, digamos, diminuir a
ventilação por debaixo dos agora mais leves e sensuais vestidos. É perfeitamente
compreensível o fato de não terem entusiasmado as moçoilas da época.Com
comprimento abaixo dos joelhos ou até os tornozelos e, para piorar, feitos de um
tecido “cor de carne”, estavam longe de qualquer ideal estético.

Se a França deu às calcinhas
a chance de entrar para a história da moda, foi na Inglaterra, durante o
recatado período vitoriano (1837-1901), que elas entraram definitivamente para o
guarda-roupa das mulheres de poder aquisitivo – os altos preços surgiram então
e, como se sabe, permanecem. Os moralistas vitorianos elevaram as calçolas
femininas ao patamar máximo de qualidade, mas preferiam não tocar nesse assunto.
Falar sobre roupas íntimas era tabu, pois elas evocavam lembranças embaraçosas
sobre detalhes anatômicos. Nas lojas, a seção de lingeries ficava escondida, e
nos anúncios publicados em revistas as calçolas apareciam monotonamente dobradas
em prateleiras.

As mulheres do século XIX
ficariam coradas se vissem nossas tanguinhas coloridas, estampadas, rendadas
etc. “A simplicidade das calcinhas fazia sentido em uma época em que as mulheres
não mostravam seu corpo nem para os maridos”, diz a historiadora de moda Miti
Shitara, professora da faculdade Santa Marcelina. Isso valia para o mundo todo?
“A Europa sempre foi o centro da moda. O que era usado na Europa também era no
Brasil, inclusive a moda íntima”, afirma Miti.

Foi somente depois da
Primeira Guerra Mundial, na década de 1920, que as calcinhas começaram a ficar
mais parecidas com as que conhecemos (com as calçolas da vovó, é claro). As
mudanças ocorridas nos quatro anos de conflito marcaram o nascimento da mulher
moderna, que agora exibia mais do corpo. Com a barra das saias na altura dos
joelhos, as melindrosas dançavam o charleston e revelavam as dimensões reduzidas
de suas roupas íntimas. Nada que se compare à ousadia das mulheres emancipadas
da década de 1970, com suas calcinhas de cintura baixa, acompanhando os jeans
saint-tropez. Nessa época, com o desenvolvimento da indústria têxtil e a
fabricação de modelos adaptados ao corpo das brasileiras, a moda íntima nacional
se desvinculou da Europa. E continuou assim.

Enquanto europeias e
americanas são adeptas do fio dental e da calçola – que usamos de vez em quando,
as primeiras em momentos especiais e as outras em semanas necessárias –, ficamos
com o meio termo. “A brasileira gosta de tanga de náilon, o carro-chefe de todas
as empresas de lingeries no país”, diz a empresária Indhira Pêra, diretora do
maior salão de moda íntima da América Latina. “As mulheres querem conforto e
sensualidade na mesma peça, pois saem para trabalhar de dia e querem estar
preparadas, se precisarem, à noite”, afirma. Nesse caso, melhor fugir das
brochantes calcinhas beges, cor preferida das brasileiras, ao lado das brancas,
pretas e vermelhas.

Categorias: Moda

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