Folha de São Paulo, Cotidiano, domingo, 04 de dezembro de 2011
Com moradores, arquitetas mudam a cara das favelas
Mineira e suíça coordenam
projetos urbanísticos da Prefeitura de São Paulo para reformular espaços
O trabalho de Fabienne é
pensar em como eles serão no futuro e o de Teresa, cuidar para que medidas saiam
do papel
EVANDRO SPINELLI, DE SÃO
PAULO
Uma é mineira com mestrado em
gestão das águas na prestigiada universidade Sorbonne, na França.
A outra é suíça, já trabalhou
na Holanda, na Alemanha e na Espanha, onde integrou a equipe do cultuado
escritório Herzog & De Meuron.
Arquitetas com currículos
invejáveis, as duas são os rostos por trás da mudança de cara das favelas
paulistanas.
A brasileira Maria Teresa Diniz
veio antes. No começo de 2005, com 25 anos, seu currículo chegou, por meio de
amigos, à Sehab (Secretaria Municipal da Habitação), da Prefeitura de São Paulo.
Foi assim que ela começou a
coordenar os projetos da prefeitura na favela de Paraisópolis, a segunda maior
da cidade, com 50% de rede de água e 16% de coleta de esgoto. Hoje, há água
legalizada para 85% dos moradores e esgoto para 75% deles.
Enquanto se embrenha pelas
vielas da favela, dá ordens aos engenheiros das empreiteiras sobre o que fazer,
quais são as prioridades e os prazos a cumprir. Em um ponto, explica como quer a
calçada. Em outro, manda retirar o entulho de imóveis demolidos sobre um
córrego.
Mas nada do que faz sai apenas
da sua cabeça. Tudo é debatido com a comunidade. “Os moradores dizem o que
querem e o que não querem e nós vamos ajustando.”
“Eu vi Paraisópolis se
transformar”, diz, orgulhosa do trabalho de sete anos.
Agora, além de amassar barro
sob sol (do qual se protege com óculos Dolce & Gabanna) ou sob chuva nas vielas
de Paraisópolis, ela coordena os trabalhos dos 52 escritórios de arquitetura
brasileiros e estrangeiros que fazem projetos de transformação das favelas
paulistanas que atingem 174 mil famílias.
PESSOAS
Já Fabienne Houelzel foi
chamada para fazer um projeto urbanístico para a região chamada Gleba São
Francisco, no distrito de São Rafael, no extremo leste da cidade, onde moram 50
mil pessoas.
Fez mais nesses dois anos em
São Paulo: criou uma equipe de urbanismo na Sehab, que hoje faz projetos para
outras duas áreas -Paraisópolis e Cabuçu de Cima (zona norte)- e começa em
janeiro a projetar mais duas.
Nunca havia trabalhado com
favelas. Hoje, conhece cada pedacinho das áreas que projeta. E não se acanha na
discussão com os líderes comunitários.
“As pessoas brigam. Mas é assim
mesmo, o bairro é construído pelas pessoas”, diz, num bom português.
Ao redor da maquete do projeto
no São Francisco, explica cada detalhe do que será feito e do que não será feito
porque a comunidade não quis. Como a remoção do campo do 1º de Maio.
Ela explica a principal
diferença entre o Brasil e a Europa, onde havia trabalhado: “na Europa, o
planejamento vem primeiro, depois vem a infraestrutura e só depois vêm as
pessoas. Aqui, primeiro vêm as pessoas”.
O trabalho de Fabienne é pensar em
como serão as favelas em 20, 30 anos. O de Maria Teresa é cuidar para que isso
não fique no papel.
1 comentário
Os comentários estão fechados.