Folha de São Paulo, New York Times, TERÇA-FEIRA, 13 DE MAIO DE
2014
LENTE
Tarefas tediosas deixarão de existir
A pecuária leiteira pode
atrair mais interesse de uma geração "avessa ao estrume", agora que a ordenha
está automatizada.
Convocado para prever um
um futuro não tão distante, Ev Williams, cofundador do Twitter e da Medium, uma
plataforma de publicação na web, apresentou uma visão abrangente.
"Telefones e
computadores", disse ele, "farão qualquer coisa tediosa que não exija
inteligência. A marcha da tecnologia é a marcha incessante da conveniência".
Da parte dos rebanhos de
leite, não há o que discutir. A robótica chegou ao curral, e a vida nunca foi
tão mansa para as vacas.
Como as mãos humanas
andam caras e escassas, os fazendeiros americanos estão adotando tecnologias que
não exigem mão nenhuma. Hoje em dia, noticiou o "The New York Times"
recentemente, "as vacas estão ordenhando a si mesmas".
É um fato
previsivelmente moderno, que está "alterando antigos padrões do cotidiano rural
e revigorando a sedução da agricultura para uma geração mais jovem e afeita à
tecnologia -e avessa ao estrume".
"Estamos acostumados a
computadores, e [a nova prática] está mais alinhada com isso", disse Mike Borden,
pecuarista leiteiro de sétima geração, ao "Times". "E é bem mais divertido do
que fazer trabalho manual."
Foi libertador também
para as vacas, que já não ficam atadas às rotinas rurais do começo da manhã e
final da tarde. Agora, elas fazem fila para a ordenha automática, cinco ou seis
vezes por dia, conforme suas próprias necessidades. Scanners a laser e
computadores monitoram todas as informações vitais.
O que poderia vir em
seguida? Parece ser apenas questão de imaginar. Por isso, o "Times" pediu a
alguns empreendedores e investidores, como Williams, que apresentem ideias. Eis
algumas das perguntas e respostas:
Qual tecnologia distante
se tornará comum em uma década?
Reid Hoffman,
capitalista de risco: "A medicina personalizada. Imagine um medicamento único,
que é impresso para você e para o seu problema de saúde com base no seu
sequenciamento genético individual".
Qual será o próximo
setor eliminado pela tecnologia?
Sebastian Thrun, diretor
da Udacity: "Pilotos de avião".
Qual tecnologia parecerá
antiquada em uma década?
Marc Andreessen,
capitalista de risco: "Os smartphones. Em vez disso, as pessoas vão vestir
computadores, andar até qualquer parede e ter acesso a todos os seus dados em
nuvem".
Futurista demais? Espere
aí. Só melhora. Grandes cabeças podem ter dado um salto que pareceria
inconcebível mesmo nesta era de aviões sem pilotos, remédios personalizados e
vacas que se ordenham sozinhas: em breve poderemos ter celulares capazes de,
veja só, fazer telefonemas.
Molly Wood escreveu
recentemente no "Times" sobre o longo e infrutífero esforço para corrigir
problemas de áudio que transformam conversas telefônicas em "feias gritarias
digitais".
A mais recente solução
se chama voz HD, uma tecnologia que mistura as melhorias da compressão digital,
das frequências de áudio e dos próprios celulares.
Algumas operadoras já
começaram introduzi-lo, mas esse avanço pode enfrentar o mesmo problema que os
aquecedores de mãos para os currais de ordenha.
"Não tenho certeza que
ela chegue antes que a maioria de nós se mude para o Skype ou o Google Voice, ou
então desista completamente de telefonar", disse Wood.
ALAN MATTINGLY
Folha de São Paulo, New York Times, TERÇA-FEIRA, 13 DE MAIO DE
2014
THOMAS PIKETTY
Um admirador crítico do capitalismo
Por STEVEN ERLANGER
PARIS – Quando o Muro de
Berlim caiu, em 1989, Thomas Piketty tinha 18 anos, o que o poupou do debate
intelectual sobre as virtudes e os vícios do comunismo, que durou décadas na
França.
Segundo ele, mais
reveladora foi a viagem que fez com um amigo à Romênia no início dos anos 1990,
após a queda da União Soviética.
"Quando vi aquelas lojas
vazias, aquelas pessoas fazendo fila inutilmente na rua, ficou claro que nós
precisamos de propriedade privada e instituições de mercado, não só por uma
questão de eficiência econômica, mas também pela liberdade individual."
Mas o desencanto com o
comunismo não significa que Piketty deu as costas para o legado intelectual de
Karl Marx.
Como o alemão, ele é um
crítico ferrenho das desigualdades econômicas e sociais produzidas pelo
capitalismo desenfreado -as quais, para ele, se agravarão. "Sou de uma geração
que jamais teve atração pelo Partido Comunista. De certa maneira, isso facilita
retomar com frescor essas grandes questões sobre capitalismo e desigualdade."
Em seu novo livro de 700
páginas, "Capital in the Twenty-First Century" [O Capital no Século 21], Piketty,
42, desmonta teses sobre a benevolência do capitalismo e prevê desigualdade
crescente em países industrializados, com impacto sobre valores democráticos
como justiça e equidade.
O livro, que está na
lista dos mais vendidos do "New York Times", pretende ser um retorno ao tipo de
história econômica e economia política escrito no passado por Marx e Adam Smith.
A obra se empenha em
compreender sociedades ocidentais e as regras econômicas que as sustentam. E em
seu decorrer, ao desmascarar a ideia de que "a riqueza ergue todos os barcos",
Piketty desafia governos democráticos a lidarem com o abismo crescente entre
ricos e pobres.
Piketty cresceu em um
lar impregnado de política. Seus pais, esquerdistas, participaram das
manifestações em 1968 que sacudiram a França tradicional.
Mais relevantes e
importantes, disse ele, são as "experiências fundamentais" de sua geração: o
colapso do comunismo, a degradação do Leste Europeu e a Guerra do Golfo. Tais
eventos o incitaram a tentar entender um mundo no qual ideias econômicas tinham
consequências tão nefastas.
Piketty entrou na
elitista École Normale Supérieure aos 18 anos. Sua dissertação de doutorado
sobre a teoria da redistribuição da riqueza, concluída quando ele tinha 22 anos,
ganhou prêmios.
Então ele se mudou para
os Estados Unidos, para lecionar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts
(MIT), mas se decepcionou com o estudo de economia americano e voltou para a
França.
"Percebi rapidamente que
havia pouco empenho para coletar dados históricos sobre renda e riqueza, então
comecei a fazê-lo".
Com a ajuda dos potentes
computadores atuais, suas conclusões se baseiam em séculos de estatísticas sobre
o acúmulo de riqueza e o crescimento econômico em países industriais
desenvolvidos.
Elas também são
enunciadas de maneira simples: a taxa de crescimento da renda do capital é
várias vezes maior que o ritmo do crescimento econômico.
Isso significa que uma
parcela comparativamente decrescente vá para a renda ganha com salários, os
quais raramente aumentam mais rápido que a atividade econômica.
A desigualdade aumenta
quando a população e a economia crescem lentamente.
A desigualdade em si é
aceitável, diz ele, à medida que incita a iniciativa individual e a geração de
riqueza que, com a ajuda da taxação progressiva e outras medidas, ajuda a
melhorar a situação de todos na sociedade.
"Não vejo problema na
desigualdade, desde que ela seja de interesse comum", afirmou.
Porém, Piketty diz que a
desigualdade extrema "ameaça nossas instituições democráticas". A democracia não
significa apenas cada cidadão um voto, mas a promessa de oportunidades iguais.
A última parte do livro
apresenta as ideias de Piketty sobre políticas públicas. Ele defende uma taxação
global progressiva sobre a riqueza real (menos dívida), com os resultados
decorrentes não entregues a governos ineficientes, mas redistribuídos para os
que têm menos capital.
O livro tem despertado
críticas, especialmente às prescrições políticas de Piketty, consideradas
ingênuas. Ele recebe bem as críticas. "Certamente estou aguardando ansiosamente
os debates."
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