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Revista Isto É, Edição 2000 – 05 DE MARÇO/2008,
Comportamento


A
sedução da Farda

Apesar dos baixos soldos e do desprestígio da
carreira, jovens de classe média buscam as academias militares. O que os atrai
para as Forças Armadas?

Os salários estão defasados há quase uma década, a
farda já não exerce o mesmo fascínio de outros tempos e a carga de estudos
exigida é muito grande. Apesar disso, todos os anos milhares de jovens
brasileiros escolhem a carreira militar como opção profissional. São
adolescentes de classe média, a maioria da região Sudeste, que deixam de lado o
vestibular convencional para sonhar com uma vaga de oficial no Exército, na
Marinha ou na Aeronáutica, o equivalente a uma ocupação civil de nível superior.
Procuram realização profissional e sabem que não são muitos os benefícios
financeiros, mas consideram que há compensações, como a estabilidade e o
ambiente disciplinado. “Sei que há outras profissões com remuneração melhor, mas
tenho grande vontade de ser militar, é uma carreira muito bonita”, acredita o
carioca Miguel Lucio, 17 anos, que estuda com afinco para ingressar na Academia
da Força Aérea (AFA), em Pirassununga. “Além disso, tem a vantagem da
estabilidade”, completa. Em 2007, cerca de 30 mil jovens que pensam como Miguel
tentaram as vagas de oficial oferecidas pelas três Armas.

Além da AFA, que pertence à Aeronáutica, também a
Escola Naval (EN), da Marinha, e a Academia Militar das Agulhas Negras (Aman),
do Exército, servem de acesso à carreira militar. Segundo uma pesquisa feita
pela Marinha, a maior parte dos jovens, 64%, se torna oficial por causa de itens
como “realização profissional” e “organização e disciplina”, o que confirma sua
vocação natural. A “estabilidade” na profissão também seduz: 62% citam esse
fator. Já a remuneração não atrai: apenas 8% decidiram pela carreira de olho no
soldo.


A Aman é a unidade mais visada pelos estudantes de
todo o País. Atualmente, ali são preparados 1.750 cadetes, submetidos a quatro
anos de formação.
Além da rigorosa
preparação de guerra, com exercícios físicos, sessões de tiro, equitação e
outros treinamentos de batalha, os cadetes da Aman também têm uma atividade
intelectual puxada. O ensino de ciências exatas, geografia, história e línguas
rivaliza com as principais universidades brasileiras. Outra meta – talvez a
principal – é passar noções de liderança, um dos pontos que mais atraem o jovem.
“É muito boa a possibilidade de ser um multiplicador. Vamos poder repassar à
tropa conhecimento e valores”, acredita o cadete João Gabriel Álvares, um
mineiro de 20 anos.

Ao começar a atuar como oficiais, os jovens receberão
remuneração em torno de R$ 3 mil. No topo da trajetória militar, depois de
décadas de serviço, esse soldo pode chegar, no máximo, a R$ 14 mil. “Quem
ingressa nessa função não deve pensar em ficar rico. Mas terá o suficiente para
levar uma vida digna”, define o general-de-brigada Gérson Menandro, comandante
da Aman. A academia tem uma extensa tradição. Em 1810, dom João VI criou a
Academia Real Militar, embrião da instituição atual. Do livro de visitas constam
assinaturas do duque de Caxias, do presidente Getúlio Vargas e do presidente
americano Dwight Eisenhower, entre outras personalidades.

O alto nível de ensino também é a marca dos cursos
preparatórios de oficiais das outras Armas. A Escola Naval é a mais antiga
instituição universitária em atividade no País. Foi criada ainda em Lisboa em
1782 e transferida para o Brasil com a vinda da família real. A Academia da
Força Aérea (AFA) exerce grande fascínio sobre os jovens, já que muitos querem
se tornar aviadores. Outro atrativo é o fato de a Aeronáutica ser a única
força em que as mulheres podem ser oficiais de carreira
. Nos cursos
pré-militares, o percentual de jovens do sexo feminino que pretendem ser
aviadoras é significativo. “Acho que a AFA é um bom caminho, onde eu poderia
também estudar odontologia”, acredita a candidata Jéssica Souza, 17 anos. Ela
diz que a exigência física não a assusta e elogia a estabilidade da carreira. O
salário é o que a faz titubear. “Considero ainda a possibilidade de ingressar na
Marinha Mercante.”

A defasagem na remuneração tem pesado bastante. O
último reajuste salarial às tropas foi concedido em agosto de 2006. “Hoje, os
candidatos são pessoas com vocação para a vida militar e não buscam mais altos
ganhos na carreira”, garante André Barbosa, dono do Curso Seleção, de Brasília,
que há 27 anos prepara estudantes para esse tipo de concurso. Por causa do
descompasso salarial, os jovens têm procurado menos os cursos pré-militares. No
Seleção, os últimos três anos foram difíceis. “O número de alunos caiu 50% nesse
período”, diz Barbosa. Também o Tamandaré, um dos cursos mais tradicionais do
País na área, fundado no Rio de Janeiro em 1951, registrou uma queda de 20%.
“Muitos jovens que seguiriam a carreira militar têm preferido prestar concursos
públicos para carreiras civis, onde a remuneração é maior”, diz o professor
Carlos Alberto Guerra, coordenador do Tamandaré.

Mesmo os já formados seguem esse caminho. Desde 2006,
385 oficiais de carreira deixaram o Exército, 27 deles somente em 2008. “A
maioria passou em concursos públicos civis”, diz o deputado federal e capitão
Jair Bolsonaro (PP/ RJ). Apesar disso, ingressar na carreira militar ainda é a
meta de muita gente e o número de candidatos se mantém estável nos últimos anos.
Gregory Bastos, 17 anos, que estuda no Tamandaré, quer entrar para qualquer das
três Forças. “Vou tentar a AFA, a Escola Naval e a Aman”, diz ele. Nesse caso,
vocação não vai faltar.

Categorias: Militar

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