Abaixo a ditadura na decoração
Arquitetos e designers
de interiores dizem não ao modismo e valorizam referências pessoais dos
moradores para obter uma casa com personalidade
Roberto Abolafio Jr.
Sabe aquelas
decorações feitas tal e qual as dos apartamentos-modelo de prédios em
construção, que, de tão semelhantes, parecem produzidas em série? Importantes
profissionais do segmento torcem o nariz para elas, algumas das quais
vira-e-mexe são vistas em veículos de comunicação especializados no assunto. Um
exemplo: sofá branco, parede fendi, espelho na sala de jantar para ampliar o
espaço… E só. Para eles, essa certa estandardização dos projetos acaba
deixando de lado a história de vida dos moradores, algo que hoje retomou força
para fugir do lugar-comum. “O que se vê, quase sempre, é muito impessoal”, diz o
arquiteto Arthur Casas, para quem o resultado, na maioria das vezes, remete à
atmosfera de um showroom.
Reproduzidas, seja por
profissionais menos antenados, seja por consumidores incautos, essas soluções e
idéias disseminadas à mancheia, na opinião dos arquitetos e decoradores
consultados, indicariam a preferência pelo conforto do conhecido ao risco de
inovar. Segundo Roberto Negrete, presidente da Associação Brasileira de
Designers de Interiores (ABD), uma saída para a questão é pensar sobre a relação
do homem e seu espaço. Para fomentar a idéia, no próximo Congresso Nacional de
Design de Interiores (CONAD), a ser realizado de 11 a 13 de junho, ele promete
uma discussão aprofundada sobre o assunto. “Não haverá convidados estrelados,
mas, sim, especialistas de diversas áreas, da filosofia aos recursos humanos”,
adianta Negrete.
Dar um caráter
analítico à decoração pode parecer bobagem para alguns, dado o rótulo de
frivolidade que a atividade ainda carrega. Mas não se pode negar que, assim como
a moda, ela reflete o modo de vida de seu tempo. Um dos principais vetores desta
década, nos dois segmentos, é a customização. Se houve um tempo em que o gosto
do arquiteto ou do decorador e a ditadura de um estilo em evidência se
sobrepunham à personalidade dos moradores, esse jeito de decorar mostra-se em
franca transformação – e a busca do exclusivo é cada vez maior. Até
profissionais com marca bem pessoal se rendem ao sinal dos tempos. “As
residências com identidade têm mais alma e vida”, opina o arquiteto João
Armentano. Outra que concorda é a arquiteta Brunete Fraccaroli. “Hoje tudo é
possível”, analisa.
Os entrevistados só
descartam qualquer tipo de cópia — de pinturas a peças de design consagrado.
“Cópias malfeitas são referência sem matriz”, sintetiza o designer de interiores
Francisco Calio, que percebe em seus clientes uma tendência a valorizar o que é
original, ainda que se pague mais por isso. O arquiteto David Bastos também não
suporta a mimetização. Um exemplo clássico, para ele, são sofás à moda italiana,
geralmente mais baixos, com pés cromados, linhas retas e tecido claro, tão
replicados nas lojas brasileiras.
O designer Marcelo
Rosenbaum concorda com David, embora saliente que os tais sofás refletem um
comportamento atual, em que o despojamento, o bem-estar e a sensorialidade dão o
tom a uma casa transformada em espécie de cápsula protetora. Além de aproveitar
os itens que já se tem e seguir o viés da reciclagem, tão em sintonia com a
preservação do planeta, o mesmo comportamento está refletido em outros aspectos:
a integração de espaços, a cozinha elevada a ambiente social, o emprego de
materiais naturais e ecologicamente corretos em conjunto com os equipamentos de
alta tecnologia. “Mas isso não significa que diferentes lugares, pertencentes a
pessoas diferentes, têm de ficar com a mesma cara”, diz ele, para quem cada
pessoa tem suas memórias e lembranças que podem – e devem – permear os espaços,
deixando-os mais pessoais e calorosos. Um exemplo pode ser uma coleção curiosa
ou até mesmo um único objeto que conte um pouco do repertório individual, caso
de um par de patins na casa de quem tem como hobby o patinar.
Seja como for, hoje o
profissional tende mais a atuar como um “curador” dos espaços, dando segurança
aos clientes e emprestando-lhes sua habilidade para garantir, por exemplo,
ambientes com proporções agradáveis, boa circulação e distribuição adequada,
entre outros fundamentos de um bom projeto. A arquiteta Debora Aguiar tem uma
história ilustrativa a respeito. Ela teve uma cliente que queria porque queria
colocar no quarto uma grande imagem de Nossa Senhora de Fátima, trazida de
Portugal. Por achar o local inadequado, acabou, em concordância com a
proprietária, dispondo o ícone religioso no corredor de distribuição, o que
criou um canto de devoção. “Ficou harmônico e bem resolvido”, considera.
E pensar que situações
como essa eram impensáveis nos anos 90, quando imperou a estética do
minimalismo, aquela do quanto menos melhor. O mundo mudou e a globalização
ajudou a transformar o cenário ao jogar luz sobre a produção de regiões até
então pouco valorizadas, como o Brasil ou o Leste Europeu. Daí advém o retorno
do emprego de elementos étnicos, tanto brasileiros (uma forma de resgatar nossa
ancestralidade) quanto de localidadesfora do eixo Milão-Paris-NovaYork. “E isso
parece estar para além de um modismo”, arrisca Rosenbaum. Em meio a uma
indústria forte como a da decoração, aliás, fica difícil não se render vez ou
outra a uma “modinha” – que pode ser a febre dos adesivos de parede ou até a cor
da estação divulgada na capa da revista. Mas os profissionais lembram apenas que
se deve ter consciência de que pode aparecer outra cor do momento dali a dois
meses.
Melhor do que seguir
regras de uma cartilha, garimpar objetos e móveis sem ter medo de misturar é a
indicação do arquiteto William Maluf, sempre levando em conta o gosto pessoal.
“Num país tropical como o Brasil, não se pode ter receio de usar estampas”,
contemporiza. Já o arquiteto Sig Bergamin, para quem a tendência é não ter
tendência, acredita que toques de humor fazem a diferença. “Por que não usar
determinado objeto com outra função ou ter almofadas revestidas com um tecido
comprado numa feirinha da Guatemala?”, imagina.
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