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Revista Veja, Edição 1985 .
6 de dezembro de 2006

As pioneiras da caserna

As mulheres chegam às funções de combate e
já começam a ser treinadas para assumir postos de
comando nas Forças Armadas

Heloisa Joly

A capitão Ângela Bezerra (acima, à
dir.),
médica do Exército, foi a primeira
brasileira a integrar tropas da ONU e ser exposta a uma situação de conflito.
Enviada ao Timor em 2003, morou com portuguesas
enquanto o Exército construía um alojamento feminino próprio

Durante a II Guerra Mundial, 73 enfermeiras participaram como
voluntárias da Força Expedicionária Brasileira. Quando chegaram à Itália, onde
os pracinhas combatiam, elas sentiram-se menos incomodadas pelas condições
duras que encontraram do que pelo fato de não ter patentes, ao contrário do que
ocorria nos outros exércitos aliados que também lançaram mão da ajuda feminina.
Para sair dessa saia-justa, com o perdão do trocadilho voluntário, ganharam o
título de tenente. Era de esperar que, com isso, estaria aberta a porta para as
mulheres trilharem a carreira militar. Não foi o que aconteceu. As Forças
Armadas do Brasil só começaram a incorporá-las às suas tropas mais de três décadas
depois. A primeira Arma a fazê-lo foi a Marinha, em 1980, por meio da criação
de um corpo de mulheres para prestar suporte administrativo ao seu efetivo. A
Aeronáutica seguiu o exemplo em 1982. Finalmente, em 1991, o Exército fez o
mesmo. Até pouco tempo atrás, no entanto, as três Armas não permitiam que elas
chegassem aos postos mais altos na hierarquia dos quartéis nem que participassem da essência da profissão, o combate. Foi
preciso vencer uma série de preconceitos para que começassem a ser tratadas como iguais – ou como quase-iguais.

Na semana passada, a Aeronáutica formou a primeira turma de
brasileiras que poderão efetivamente enfrentar situações de combate. São onze
pilotos com habilitação para voar caças, helicópteros e aviões de transporte e
com condição de alcançar a mais alta patente da Força, tenente-brigadeiro,
posto que é ocupado apenas por aviadores. A cadete Fernanda Görtz
se tornou, em 2004, a primeira mulher a pilotar um avião da Força Aérea.
“Desde criança, eu só pensava em voar, mas achava que nunca poderia
concretizar meu sonho porque essa era uma profissão de homem. Agora, vou
manobrar caças”, diz Fernanda. A Academia da Força Aérea, que forma oficiais, aboliu a exclusividade masculina há exatos
dez anos. Resultado: em 2002, já havia mais mulheres que homens em um dos
cursos da academia, o de intendência. Por causa dessa política de abertura, a
Aeronáutica é a Arma com a maior proporção de mulheres. Elas formam 6% do
contingente.

AS TOP GUNS NACIONAIS

Depois de um curso de quatro anos, a
Aeronáutica formou as primeiras aviadoras do país. Três delas serão treinadas
para pilotar caças e, em um ano, estarão aptas a voar em Mirages

Na Marinha, as mulheres alistadas em 1980 já se tornaram
capitães-de-mar-e-guerra, o equivalente a coronel no Exército. Embora sejam as
que têm patentes mais altas nas Forças Armadas, essas marinheiras ainda sofrem
limitações. Até o momento, só são admitidas em operações navais em que não há
simulações de conflito. Não integram a tripulação dos navios e só viajam em
vasos de guerra para realizar trabalhos temporários, como atendimento médico e
serviços de oceanografia. Por enquanto, às mulheres só é permitido ocupar
postos administrativos na Marinha, para que o efetivo masculino se concentre
nas funções de combate. Dessa forma, elas suprem uma deficiência da Força, que
recruta poucos homens.

O Exército demorou para admitir
mulheres, mas dá passos largos para absorvê-las. Em 1997, acabou com a
exclusividade masculina no Instituto Militar de Engenharia e na Escola de
Saúde, que funcionam no Rio de Janeiro. As primeiras formadas nessas duas
instituições poderão alcançar o generalato em 2025. A capitão Carla Clausi é uma das que têm mais chances de chegar lá.
Cardiologista, Carla apaixonou-se pela carreira militar ainda criança, quando
assistia com seu pai, um civil, aos desfiles de 7 de Setembro em Curitiba.
Admirava os homens de farda e encantava-se com o caráter aventureiro da
profissão. Adulta, casou-se com um militar, hoje coronel. Quando o Exército
permitiu o ingresso de mulheres na Escola de Saúde, não titubeou em alistar-se.
“Até minha mãe ficou surpresa, mas eu realizei um sonho”, diz.

À SOMBRA DE DUQUE DE CAXIAS

As capitães Luciene Silva (em
pé)
e Ana Maria Teixeira integraram a primeira turma de mulheres do
Instituto Militar de Engenharia. Ambas abraçaram a carreira, literalmente:
Luciene casou-se com um capitão e Ana Maria namora um major

ELA PODE SER GENERAL

Em 2025, a médica Carla Clausi poderá
ser a primeira general do país. Ela se encantou pela
farda ao assistir a desfiles de 7 de Setembro. “Sempre tive fascínio
pelo uniforme militar.” Como não podia deixar de ser, o marido, Itamar Torrezam, é coronel da infantaria

O acesso das mulheres às Armas de combate, como infantaria,
artilharia e cavalaria, ainda está interditado no Exército. Mas, aqui e ali,
começam a aparecer exceções. Em 1998, a Força permitiu que mulheres
participassem dos exercícios de tiros-de-guerra na Amazônia. Cinco anos depois,
selecionou uma médica para integrar a tropa de paz no Timor
Leste. Ângela Bezerra, que tem a patente de capitão, foi a escolhida. Seu
desempenho abriu caminho para outras duas oficiais brasileiras atuarem naquele
país. A capitão Ângela também foi bem-sucedida no relacionamento com a tropa.
Tanto que saiu de lá com o apelido de “Demi Moore” – por causa do filme Até o Limite da Honra, no
qual a atriz interpreta a única oficial de um pelotão de elite submetido a um
treinamento desumano. Como Ângela “Demi Moore” e suas colegas foram bem no Timor,
o Exército decidiu enviar três oficiais médicas para o Haiti antes do Natal.

As mulheres entraram com atraso nas Forças Armadas brasileiras.
O acesso só foi permitido quando as Forças Armadas consideraram que era
necessário ter um efetivo feminino para se equiparar ao de outros países e
adequar-se às mudanças na sociedade civil. Não há pesquisas que revelem o
perfil das moças que seguem carreira militar, mas as 21 entrevistadas para esta
reportagem foram questionadas sobre as razões que as levaram a vestir farda.
Metade optou pela carreira graças ao exemplo de pais e marido militares. Muitas
foram movidas também pelo espírito desbravador: queriam ser as primeiras
militares de fato do país. Algumas destacam que as promoções, nas Forças
Armadas, são por mérito e que elas ganharão salários iguais aos dos homens – o
que dificilmente ocorre em outras áreas de atividade. A estabilidade é um
atrativo não menos importante. Por último, há um motivo que une a todas: a
disciplina. “Que mulher não gosta de tudo organizado direitinho? Desse
ponto de vista, não há lugar melhor para trabalhar”, diz a tenente do
Exército Anna Beatriz Viana, que embarcará neste mês para o Haiti.


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