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Blog do Flávio Moura, https://br.noticias.yahoo.com/blogs/flavio-moura/ate-a-biblia-do-liberalismo-reconhece-que-a-194501069.html,
098/02/2015

Até a bíblia do liberalismo reconhece que a meritocracia é uma ilusão



Flavio Moura
 

A revista The
Economist pode ser criticada por vários motivos, mas jamais por ser uma
publicação de esquerda. Fundada em 1843, é a mais influente divulgadora do
pensamento liberal de recorte clássico, aquele com origem nos pensadores
britânicos do século XVIII.

Metade dos
colunistas da imprensa brasileira que se auto intitulam “liberais”, quando não
estão vocalizando preconceitos de classe, se pautam por matérias publicadas
nessa revista.

Por isso é
particularmente revelador o silêncio desses mesmos colunistas a propósito da
matéria de capa da edição da última semana de janeiro. “Uma meritocracia
hereditária”, diz o título do texto principal.

O argumento é
simples: nos Estados Unidos, a pátria da ideologia em torno das “oportunidades
iguais”, virou piada falar em meritocracia. Pelo simples motivo de que os filhos
dos ricos e poderosos estão cada vez mais aptos a ganhar mais dinheiro e poder
que os demais.  

Claro que as elites
econômicas, em todo lugar, sempre souberam se perpetuar e o nepotismo nunca
deixou de ser um instrumento à mão.

Mas agora os
americanos se deram conta de que a fração privilegiada das crianças e
adolescentes, aquela cujos pais têm curso superior, dinheiro e boa rede de
relações, é a que se encaixa melhor nos critérios meritocráticos.

Em outros termos:
alguns “merecem” mais do que outros.

Há dados
interessantes para embasar o argumento. Entre 1960 e 2005, a porcentagem de
homens com diploma universitário que se casaram com mulheres que também
concluíram o ensino superior subiu de 25% para 48%.

Isso significa um
aumento bastante significativo na preocupação dos pais com a educação dos
filhos. “As pessoas tendem a encorajar nos seus filhos o que valorizam nelas
mesmas e nos seus parceiros”, diz o autor do texto.

Mais relevante do
que isso: casais com ensino superior tendem a ter mais dinheiro para investir em
educação. E isso tem gerado uma lacuna cada vez maior, do ponto de vista de
renda, entre casais com maior escolaridade.

Eles também têm
números para exemplificar: entre 1979 e 2012, a distância entre o rendimento de
casais com nível universitário, em comparação aos vencimentos daqueles que têm
apenas segundo grau, cresceu quatro vezes mais do que a distância entre os
famosos “um por cento” mais ricos e o restante da sociedade.

Como é sabido para
todos, o grande funil para a ascensão social é a educação – e o que a reportagem
mostra é como esse capital valioso está cada vez mais escasso e dominado pelos
mais ricos e bem formados.

Esse truísmo já
está entronizado no pensamento de qualquer corrente que se queira preocupada com
a desigualdade social. Mas é significativo que mesmo as bíblias do “liberalismo”
contemplem essa nuance importante para a noção de “meritocracia”.

É um exemplo
contundente de como a discussão está rebaixada por aqui.

O economista de
esquerda mais festejado do momento, o francês Thomas Piketty, é a favor da
economia de mercado e tira sarro da mentalidade presa na dicotomia da guerra
fria.

A bíblia do
liberalismo dá matéria de capa para construir uma noção menos chapada de
meritocracia.

Já na briga de
torcidas que impera por aqui, o pessoal continua gritando os disparates em
branco e preto de costume.

Meritocracia para
quem, cara-pálida? 

Nossos liberais
mereciam estudar um pouco mais.


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