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O Estado de São Paulo, 14 de abril de 2014 | 15h 48

Brasileiros produzem primeira cabra clonada e transgênica da América Latina

Animal possui
modificação genética que deverá fazer com que seu leite tenha uma proteína
humana chamada glucocerebrosidase, usada no tratamento da doença de Gaucher

Herton Escobar – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Nasceu no
dia 27 de março, em Fortaleza (CE), a primeira cabra clonada e transgênica da
América Latina. Chamada pelos cientistas de Gluca, ela possui uma modificação
genética que deverá fazer com que ela produza em seu leite uma proteína humana
chamada glucocerebrosidase, usada no tratamento da doença de Gaucher.

Trata-se de uma doença
genética relativamente rara, porém extremamente custosa para o sistema público
de saúde. Segundo informações levantadas pelos pesquisadores, o Ministério da
Saúde gasta entre R$ 180 milhões e R$ 250 milhões por ano com a importação de
tratamentos para pouco mais de 600 pacientes com Gaucher no Brasil.

As drogas importadas são
baseadas em proteínas produzidas in vitro, cultivadas em células transgênicas de
hamster ou cenoura. A proposta da pesquisa brasileira é produzir a
glucocerebrosidase no País, no leite de cabras transgênicas, a custos muito
inferiores ao da produção em células em cultura.

"Alimentar cabras é bem
mais barato do que alimentar células; e o processo de purificação da proteína é
basicamente o mesmo", diz a pesquisadora Luciana Bertolini, da Universidade de
Fortaleza (Unifor), que é uma das coordenadoras do projeto.

Com pouco mais de duas
semanas de vida, a cabritinha Gluca não apresenta, por enquanto, nenhum problema
de saúde. "Ela já nasceu berrando, superativa, sem qualquer complicação",
empolga-se a Luciana, que trabalha no projeto com o marido, Marcelo. Dentro de
quatro meses, eles já poderão induzir a lactação de Gluca e confirmar a presença
da proteína humana no leite do animal. "Precisamos saber quanto da proteína está
sendo expressa e testar sua atividade biológica", explica Luciana.

Contabilidade. Gluca
é o único clone nascido até agora de um grande esforço de reprodução, que
envolveu a transferência de mais de 500 embriões clonados para 45 cabras
receptoras, resultando em 8 gestações. Ela tinha uma "irmã" da mesma gestação,
que morreu logo após o parto, vítima de anomalias congênitas que são comuns aos
clones de mamíferos, como tamanho exagerado, órgãos aumentados e malformações
cardíacas. Apenas uma das oito prenhezes ainda está em andamento.

O gene inserido no DNA
dos animais é uma cópia do gene humano que comanda a síntese da
glucocerebrosidase, acoplado a uma outra sequência genética (chamada de
promotor) que faz com que o gene, apesar de estar presente em todas as células
da cabra, seja ativado apenas nas células das glândulas mamárias – fazendo com
que a proteína seja produzida apenas no leite.

A construção do gene e
do promotor foi realizada pela empresa Quatro G Pesquisa e Desenvolvimento,
instalada no parque tecnológico (Tecnopuc) da Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUC-RS), que também será responsável posteriormente por
purificar a proteína do leite. Clique
aqui
 para conhecer o
método brasileiro.

Se tudo der certo e o
leite de Gluca for rico em glucocerebrosidase, os cientistas poderão usar suas
células para fazer novos clones, geneticamente idênticos a ela, e assim começar
a formar um rebanho para produção da proteína em larga escala, para uso
terapêutico.

"Estamos dando o
primeiro passo na direção de uma futura terapia de reposição enzimática para
Gaucher", diz a diretora de desenvolvimento da Quatro G e co-coordenadora do
projeto, Jocelei Chies. "O Brasil não tem nenhuma proteína recombinante
(produzida por meio de transgenia) para uso humano que seja feita aqui."

Nos EUA, uma droga
chamada ATryn (antitrombina humana) já é produzida exatamente dessa forma, no
leite de cabras transgênicas.


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