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BBC Brasil, https://www.bbc.com/portuguese/vert-cap-56941524?at_custom1=%5Bpost+type%5D&at_custom3=BBC+Brasil&at_campaign=64&at_custom4=80BECDCA-C548-11EB-B21C-37D5923C408C&at_custom2=facebook_page&at_medium=custom7, 28/05/2020

O perigo de definirmos nossa identidade pelo trabalho

Kate Morgan, BBC Worklife

 

O sobrenome mais popular na Alemanha e na Suíça é Müller, enquanto na Ucrânia é Melnik; ambos podem ser traduzidos como empregado ou proprietário de moinho. Na Eslováquia, o sobrenome mais comum é Varga, palavra que significa sapateiro.

E no Reino Unido, na Austrália, na Nova Zelândia, no Canadá e nos Estados Unidos, é Smith — que remete a ferreiro, ourives e chaveiro em inglês.

Esses nomes datam da Idade Média, quando o trabalho de uma pessoa era uma característica tão marcante, que se tornava sua identidade literal.

Hoje, nossos empregos não ditam nossos nomes — embora uma pesquisa sobre o fenômeno do determinismo nominativo diga que o oposto pode ser verdadeiro; pense em um meteorologista chamado ‘Blizzard’ (nevasca, em inglês) ou um arqueólogo chamado ‘Graves’ (túmulos, em inglês) — mas, muitas vezes, eles ainda se tornam uma parte importante de nossas identidades.

Não é à toa que uma das primeiras perguntas que costumamos fazer quando conhecemos alguém é: “O que você faz?”

 

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De muitas maneiras, parece natural ver a profissão de uma pessoa como um detalhe definidor de quem ela é.

Pode ser uma pista sobre seus valores, interesses ou origem (ou simplesmente ajudar dois estranhos a passar o tempo em uma festa).

Mas muitos de nós acabam realmente se definindo por suas ocupações — o que geralmente acontece às nossas próprias custas.

Como o trabalho ficou tão emaranhado com a identidade — e será que é tarde demais para separar as percepções que temos de nós mesmos de nossas vidas profissionais?

Marcador de identidade

Historicamente, a maioria das pessoas não escolhia seus empregos, diz Anne Wilson, professora de psicologia da Universidade Wilfrid Laurier, em Ontário, no Canadá.

“Costumava ser geracional — seu pai era carpinteiro, então você era carpinteiro”, explica.

“Ou, você simplesmente pegaria um emprego com base nas oportunidades disponíveis.”

Mas o maior acesso à educação no século passado levou ao surgimento dos mais variados empregos e, consequentemente, de mais faixas de renda.

Assim, as carreiras se tornaram um marcador significativo de identidade mais sutil.

Quando alguém diz que é um cirurgião, você geralmente supõe que a pessoa tenha uma boa educação e alta renda — duas métricas que podem determinar a posição de alguém na sociedade e afetar como você subsequentemente julga essa pessoa.

É claro que é uma via de mão dupla: muitos recebem bem esse julgamento, porque desejam se associar à riqueza e à realização que seus títulos profissionais sugerem.

“Isso é especialmente verdade entre a ‘elite educada'”, afirma Wilson.

“Para pessoas que têm um certo tipo de trabalho e determinada classe, muitas vezes é sobre como você se identifica e como os outros te identificam.”

No entanto, aqueles que permitem que seus empregos consumam suas identidades podem estar fazendo isso às próprias custas.

O trabalho está tão arraigado em nossa identidade que uma das primeiras coisas que fazemos ao conhecer uma pessoa é perguntar o que ela faz

Quando as pessoas investem uma quantidade desproporcional de tempo e energia em suas carreiras, explica Wilson, isso pode levar a um estado psicológico denominado ‘enredamento’, em que as fronteiras entre trabalho e vida pessoal ficam turvas.

“Isso tende a acontecer especialmente com pessoas com empregos que são relativamente autodeterminados, em que você não bate ponto às 9h e às 17h”, diz ela.

Pessoas em cargos executivos de alto escalão, advogados, médicos, empresários, acadêmicos e outros que estabelecem seus próprios horários “podem acabar deixando seu trabalho ocupar muito — ou a maior parte — do tempo de suas vidas”.

A armadilha do enredamento

Segundo Wilson, há alguns sinais comuns de enredamento, como pensar no trabalho quando você não está lá e mencionar seu trabalho nos primeiros três minutos de uma conversa.

O enredamento permite que o trabalho “consuma o tempo e a identidade de alguém, deixando menos espaço para hobbies e interesses”.

“Isso torna mais difícil se conectar com pessoas que não fazem parte da sua vida profissional.”

Quando você fica tão enredado no trabalho a ponto de ele começar a te definir, você também pode começar a permitir que ele determine seu próprio valor. Isso pode ter efeitos desastrosos.

“Se você vincular [sua autoestima] à sua carreira, os sucessos e fracassos que você vivenciar vão afetar diretamente sua autoestima”, adverte Wilson.

“E como vivemos em uma sociedade em que as carreiras têm pouca probabilidade de ser vitalícias, se mudarmos ou ficarmos sem emprego, isso também pode se tornar uma crise de identidade.”

E o enredamento não ameaça apenas a forma como nos sentimos a nível pessoal.

Janna Koretz, fundadora da Azimuth Psychological, uma clínica com sede em Boston, nos EUA, focada na saúde mental de pessoas em empregos de alta pressão, diz que vincular a autoestima à carreira pode transformar um obstáculo na carreira em algo consideravelmente mais difícil de superar.

“Inevitavelmente, algo vai acontecer”, diz ela.

“Haverá demissões, uma recessão, sua empresa será comprada e, de repente, seu emprego não é mais o que costumava ser. Vira uma questão realmente existencial para as pessoas, e elas têm estratégias de enfrentamento ruins porque é catastrófico. Então isso leva à depressão, ansiedade e até mesmo ao uso abusivo de substâncias.”

Mas até que haja um problema, a maioria das pessoas que adota uma identidade centrada na carreira nem sequer percebe que isso está acontecendo.

“Trabalhamos com pessoas que não se sentem confortáveis ​​com o quanto são definidas por seu trabalho”, diz Koretz.

Ironicamente, ela acrescenta, a maioria também diria que está fazendo o “trabalho dos sonhos”, ou algo que ama.

Uma nova identidade cultural

No entanto, podemos ter uma rara oportunidade de dissociar quem somos do que fazemos.

O distúrbio causado pela pandemia de covid-19 em todos os setores de nossas vidas — no trabalho, especialmente — fez com que muitos indivíduos avaliassem o que é realmente importante para eles.

Alguns adotaram novos hobbies; outros reforçaram os laços com a família e os amigos.

“Quando enfrentamos experiências que nos lembram que nossa existência mortal é transitória e que a tragédia pode nos atingir com pouco ou nenhum aviso, tendemos a ficar motivados a avaliar o que faz a vida valer a pena”, escreveu Clay Routledge, professor de psicologia na Universidade Estadual da Dakota do Norte, nos EUA.

Routledge é um dos coautores de um estudo recente sobre como os adultos americanos buscam significado em suas vidas.

Portanto, embora nossas carreiras ainda sejam relevantes, é claro, podemos estar em um momento em que nossos empregos se tornaram apenas uma peça importante do quebra-cabeça de nossas vidas.

Wilson ressalta que fazer um trabalho que você ama não é algo ruim, tampouco considerar o que você faz para viver uma parte importante de quem você é.

Mas, segundo ela, deixar para trás um sistema em que as pessoas são definidas sobretudo — ou exclusivamente — por seus empregos exigirá mais do que perceber que há um problema ou redefinir as prioridades em consequência da pandemia.

Também exigirá uma mudança cultural abandonar a ideia de que cada pessoa tem uma “vocação” profissional, ditada por quem elas são, e que o objetivo da vida deve ser encontrá-la.

“Muitas vezes preparamos uma armadilha para que as pessoas se sintam insatisfeitas; se elas não se encontrarem no emprego perfeito, elas fracassaram de alguma forma”, explica.

A mudança dessa narrativa precisa começar, na verdade, muito antes de as pessoas entrarem no mercado de trabalho.

Pesquisas mostram que a pressão para encontrar “uma vocação” faz com que estudantes se sintam perdidos e deprimidos.

Até mesmo as crianças pequenas recebem a mensagem de que a carreira que escolherem fará parte de quem elas se tornarão; pare para pensar quantas vezes as crianças de hoje ouvem a pergunta: “O que você quer ser quando crescer?”

Conversar sobre as diferentes profissões com as crianças — especialmente meninas — pode ajudá-las a ver as inúmeras possibilidades que seu futuro reserva.

Mas Wilson diz que perguntar aos jovens o que eles querem ser pode ter um efeito colateral.

“A questão é que quando queremos que as crianças determinem um curso de vida, isso pode influenciar o grau em que, como adultos, acabamos vinculando tanto nossa identidade ao trabalho.”

Enquanto os pais podem começar a adotar essas mudanças com os filhos, os adultos que se sentem enredados demais em suas carreiras também têm alguns recursos disponíveis.

Reservar deliberadamente um tempo para relaxar e socializar fora do trabalho pode ajudar.

Pode ser difícil fazer amigos na idade adulta, mas entrar para grupos ou clubes pode dar uma mãozinha. Arranjar hobbies também pode ser muito útil, desde que não tenham nada a ver com seu trabalho.

Koretz explica que as identidades se desenvolvem com o tempo e adverte contra tentar mudar demais, muito rápido. Ela incentiva seus clientes a adicionar novos elementos de identificação aos poucos.

“Em vez de mudanças drásticas e muito complicadas, adquira hobbies pouco a pouco, faça amigos pouco a pouco”, sugere.

“Em última análise, é parecido com diversificar uma carteira de investimentos financeiros. Você tem que diversificar sua vida. Se diversificar.”

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