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O Estado de São Paulo, Domingo, 5 agosto de 2007


CASA&



Os sete pecados do décor



Eles contam-se às dezenas, mas há erros tão freqüentes que designers de
interiores fazem questão de listar – e mostrar como fugir deles

Olívia Fraga

Ira, gula, inveja, luxúria, cobiça,
preguiça e avareza. Acredite: existem “versões” dos sete pecados capitais
dentro de sua casa ou no lar de alguém que você conhece. Como todos desejam
morar bem (e desejo pode se tornar um pretexto perigoso…), é preciso
domá-lo antes de criar um caos doméstico. Para evitar essa situação, o Casa&
ouviu especialistas em design de interiores que nomearam sete tropeços
corriqueiros, sem enfatizar o mais grave entre eles.

 

Comecemos pelas cortinas, por exemplo.
Usadas para aplacar a luz natural, dão charme aos cômodos – isso quando
bem-feitas. Do contrário, destroem qualquer tentativa de embelezar as
janelas. E o segredo não está na qualidade (ou no preço) do tecido: dê uma
olhada nas cortinas de sua casa e repare se elas acabam acima do chão. “Tem
algo pior que cortina pula-brejo?”, provoca Bya Barros. O pula-brejo a que
ela se refere é semelhante ao da barra de uma calça: o pano foi
confeccionado sem o devido caimento, e termina logo depois da esquadria da
janela. Nesse caso, vale refazer o trabalho, pedindo à costureira para
caprichar no caimento e deixar uma sobra de tecido no final.

 

É sempre importante atentar para o que
se tem e o que se quer, e assim chegar ao meio-termo. Aqui, os profissionais
revelam segredos sobre a posição dos quadros. Para alcançar o perfeito
equilíbrio sobre sofás, aparadores ou mesas, considere, na parede, a
disposição da tela a uma altura de 30 cm a 50 cm a partir do topo dos móveis
– acima dessa medida, a obra de arte ficará alta demais. Lustres também são
motivo de atenção – devem estar suspensos até 80 cm acima da mesa de jantar,
por exemplo. Quanto aos tapetes, vale o bom-senso. “O modelo de qualidade
sempre fica mais bonito com o passar do tempo. Detesto aquela história, ‘não
pise no meu tapete novo!’, que tantos falam quando recebem visitas. Ficar
trocando também é ridículo, é falta de informação”, opina Bya Barros. E ela
arremata com a dica certeira: sob a mesa, deixe que o tapete se estenda de
modo a servir de apoio a cada uma das cadeiras.

 

Seguindo o biotipo

 

Proporção, em decoração, também
significa conhecer a si mesmo. Fugir da história pessoal é pecado mortal.
“De que adianta entrar na loja e comprar uma idéia, se ela não corresponder
à personalidade e ao biotipo da pessoa?”, alerta Roberto Negrete. “Já
aconteceu de uma cliente baixinha comprar armários

 

de cozinha altos e grandes demais e ela
tinha muita dificuldade para alcançá-los. Acontece a mesma coisa quando um
casal de idade um tanto avançada, querendo o abraçar a ‘vida alternativa’,
decide colocar a cama no chão… E a saúde? Vamos fazer camas no chão só
para estar na moda?”, questiona ele.

 

Má organização

 

Agora, imagine a cena: no living de um
apartamento, a criança que chega da escola entra em casa depressa, tropeça
na mesa de centro e cai no chão. A mãe, enlouquecida, ainda implora para que
o pimpolho tire os pés da poltrona e não derrube o refrigerante sobre as
almofadas do sofá.

 

Parece nada haver de errado nessa cena
doméstica, a não ser o desastre previsível da mancha no móvel. Mas os
decoradores conseguem identificar inúmeros erros naquela sala de estar. René
Fernandes Filho diria que o tropeço da criança é sinal de má organização do
espaço: ou a sala é pequena demais para os inúmeros móveis ou eles foram
agrupados de tal modo que atrapalham a circulação.

 

Lídia Damy Sita tem até um modo
especial de caracterizar essa situação – “peru no pi-res”. “Preencher a casa
de cima a baixo com quinquilharias, bibelôs, lustres – ufa, é até difícil
respirar num lugar assim!”, diz ela. E ainda tem o problema das almofadas…
Se é difícil fazer com que a criança deixe de tomar refrigerante na sala, o
“dilúvio” pressentido pela mãe poderia ser evitado se não houvesse peças
além da conta, que dificultam até o sentar, aponta Bya Barros. “Almofadas
são para corrigir a postura, calçar o corpo. Caso contrário, cada um joga
vai jogando o que for preciso no chão, e o ambiente entra em conflito.”

 

Estilo Dubai

 

Aliás, é preciso dar atenção à estampa
das almofadas – ou à presença de uma manta étnica jogada com displicência
sobre o sofá. Agora, cabe a Jorge Elias sintetizar o que chama de“estilo
Dubai”: a corrida em busca do exótico, pecado dos mais inconsequentes.“É o
‘nouveau-richismo’ personificado”, diz ele. Ao que René Fernandes
acrescenta: “A indústria cria uma necessidade que pode não ser verdadeira.
Gosta do azul, mas o verde está na moda? É claro que eu não vou recomendar
verde – vamos, sim, de azul.”

 

A respeito da sala, da mãe e de seu
filho, Robeto Negrete observaria algo ainda mais sutil: o tropeço pode ter
sido causado pela iluminação do espaço. Luz é um dos pontos melindrosos das
obras residenciais: se demais ou muito próxima, inibe e até mexe com os
nervos; de menos, incomoda tanto quanto. “Quanto mais spots de teto, mais
rica a pessoa quer parecer. Iluminação carregada ‘enfeia’ o ser humano e ele
acaba expulso do ambiente”, realça Bya Barros.

 

Para resumir: na hora de decorar, ter
dinheiro não é garantia de bons resultados, mas sim elegância, senso
estético e informação. Na dúvida, a máxima de Bya vira primeiro mandamento:
“A casa ideal é aquela em que a gente se sente bem. Se existir uma
tendência, é apenas a de ser feliz”.

Erros
comuns

1) Cortina “pula-brejo”

2) Lustres alto demais

3) Quadros mal-arranjados

4) “Peru no pires”: ambiente atulhado
de móveis

5) Almofadas em excesso sobre o sofá

6) Tapetes que não chegam até cadeiras
e sofás

7) Iluminação que ofusca o olhar


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